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“Eu quis ser Deus para parar o avião da Chape”

Yaneth Molina
Teleantioquia (captura de Tela YouTube) / Yaneth Molina e Carlos Acosta (livro)
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A quase desconhecida história de uma sobrevivente em terra

São 8 minutos e 55 segundos. Intermináveis. Infinitos.

Ela prefere não ouvi-la mais. Quando se lembra daquela gravação, Yaneth Molina ainda sente na pele e na alma aquela angústia sufocante, embebida em silêncio, impotência e um sobrenatural esforço por manter a calma. Em 8 minutos e 55 segundos estão registrados os contatos derradeiros entre o voo LaMia 2933 e a torre de controle do aeroporto José María Córdova, de Medellín, na noite de 28 de novembro de 2016 pelo fuso colombiano – já madrugada de 29 de novembro no Brasil. Uma noite de chuva e dor que tardaria o inquantificável para começar a alvorecer.

“Quando ninguém mais me respondeu e do outro lado só havia silêncio, eu quis ser Deus para parar aquela aeronave”.

Yaneth Molina, então com 46 anos de idade e mais de 20 como controladora de voos, tinha perguntado à tripulação qual era a altitude em que voavam. A resposta veio acompanhada de um calafrio: 9.000 pés. Bem abaixo da altitude mínima para aquele setor. Yaneth tentou contato de novo. Mas nenhuma nova resposta pôde jamais ser ouvida. Nem sequer transmitida.

“Quando ninguém mais me respondeu e do outro lado só havia silêncio, eu quis ser Deus para parar aquela aeronave”.

Dois minutos depois do último contato, a meros 20 quilômetros do aeroporto em que deveria estar aterrissando, o avião que levava a delegação da Chapecoense para a partida mais importante da sua história se chocou contra o Cerro Gordo, em Antioquia, matando 71 pessoas. Apenas 6 sobreviveriam.

Mas, em terra, Yaneth Molina sabe que ela foi a sétima sobrevivente.

Condenada sem julgamento

A controladora colombiana foi acusada, pelas estridentes vozes anônimas das redes sociais, de ser a responsável pelo acidente que matou jogadores, membros da comissão técnica e da diretoria do clube catarinense, jornalistas e tripulantes da LaMia. Ela recebia mensagens ameaçadoras até no celular.

Yaneth foi acusada pela calma com que atuou depois da declaração de emergência feita pelo piloto, Miguel Quiroga. Ele tinha admitido a falta de combustível e a pane elétrica geral – mas faltavam segundos para o acidente. A controladora seguiu o protocolo. Mas o pedido de emergência tinha chegado tarde. Muito, muito tarde.

chapecoense acidente
Reprodução

Yaneth foi pesadamente criticada por não ter dado prioridade imediata ao pouso da LaMia. Mas a promotoria colombiana concluiu que ela cumpriu corretamente os procedimentos que lhe cabiam e que, naquela etapa dos acontecimentos, não estava mais ao seu alcance impedir o acidente.

“Eu tive que tomar decisões muito rápidas, mas sem perder a calma, para evitar que as outras aeronaves que se aproximavam sofressem consequências”.

Uma vida devastada

Yaneth precisou de dois meses de licença, durante os quais chorou todos os dias. Ela trocou de número telefônico, saiu das redes sociais e chegou a mudar o filho caçula de escola. Seu filho mais velho, que é piloto, suplicou que a mãe não fosse mais a Medellín. Em 2004, tinha sido assassinado o controlador de tráfego aéreo responsável por monitorar os dois aviões que se chocaram na Suíça em pleno voo no ano de 2002, matando, também lá, 71 pessoas. E as ameaças contra Yaneth eram bastante reais.

“Foram dias difíceis. Mas eu sabia que as decisões que tinha tomado eram as certas”.

Seria preciso que ainda transcorresse um ano até que Yaneth pudesse voltar ao posto de trabalho em que dezenas de aterrissagens e decolagens dependeriam novamente das suas decisões.

“Quando tive que falar de novo com uma tripulação, a minha voz tremia”.

Reconciliação consigo mesma

Durante a terapia psicológica, ela resolveu narrar a sua história por escrito. Carlos Acosta, seu marido com formação jornalística e também ele controlador aéreo, ouvia todas as noites os desabafos e o choro da esposa e os transformava no texto de “Yo También Sobreviví“, publicado com recursos pessoais.

O livro não aponta o dedo nem foca no acidente de uma perspectiva técnica. Fala da sobrevivência de Yaneth depois daquela noite chuvosa e estraçalhadora de 28 para 29 de novembro de 2016, em Medellín e no mundo inteiro. Ela sabe que, por mais que as suas duas décadas de experiência como controladora de voos confirmem a necessidade da calma com que seguiu os protocolos durante a emergência cujo desfecho ela não pôde mudar, alguns familiares de vítimas continuarão a culpá-la pela morte de 71 pessoas. Ela os compreende. Mas dói.

Em maio de 2017, o pai e o filho do piloto Miguel Quiroga a procuraram. Yaneth os recebeu.

“A primeira coisa que o pai dele me disse foi: ‘Por que você deixou o meu filho morrer’? Eu só consegui chorar”.

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Com informações de El País, G1 e El Tiempo

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