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A difícil situação dos refugiados que fogem da guerra na Síria

IDLEB SYRIA
Omar haj kadour I AFP
Syrians buy petrol on a street in the northwestern city of Idlib on December 30, 2016.
A fragile calm is holding across Syria after a truce brokered by Russia and Turkey came into effect, a potentially major breakthrough after nearly six years of conflict. / AFP PHOTO / Omar haj kadour
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Atualmente, cerca de 80 mil refugiados sírios vivem em no campo de refugiados do ACNUR em Zaatari

Yusra é casada com Khaled e tem três filhos Mustafa, 18, Hanna, 16, e Yara, de 5, que nasceu no campo de refugiados de Zaatari. A família levava uma vida confortável em Idlib, lugar ao qual ela se refere como paraíso: “Tinha a nossa casa, nossa terra e plantávamos o que precisava. Era um lugar lindo.”

Foi uma longa e perigosa jornada desde Idlib, próximo à fronteira com a Turquia, até o Brasil. O caminho foi marcado por perdas, violência e tristeza. Mais de 50 amigos da família morreram. Bombas estouraram ao seu lado e de seus filhos. Com o tempo, cenas de violência e histórias de barbárie se tornaram cotidianas.

“Nessas horas você vê que só a vida é importante. Não tem uma escolha. A escolha é pela vida. O resto a gente deixa para trás.”

Yusra conta que eles não queriam deixar sua terra, não queriam abandonar as raízes, os amigos e familiares, mas quando seu marido foi preso tudo mudou. Khaled começou a ser perseguido em Idlip por ajudar pessoas feridas e levá-las para o hospital no outro lado da fronteira. Ele foi preso por onze meses. Seu corpo – e sua mente – ainda carregam as marcas do que descreve como o pior período de sua vida. Enquanto Khaled esteve preso, Yusra viveu com seus dois filhos na casa do irmão em uma pequena cidade na Turquia, próxima à fronteira.

Quando o marido foi solto, a família fugiu para Damasco. Khaled teve que viver trancado no apartamento onde viviam por um ano e meio por ainda ser procurado. As crianças não podiam sequer estudar, pois poderiam ser seguidas até em casa. A essa altura, a vida era muito diferente daquilo que um dia temeram perder. E então o rastrearam. Por sorte, quem o perseguia entrou na casa da vizinha, dando à família a chance de escapar.

Foi assim que juntaram as economias e pagaram para chegar até Daraa, na fronteira com a Jordânia, atravessando 330 km com medo do final da história. De lá seria possível cruzar a fronteira e chegar até o campo de refugiados de Zaatari. Fizeram o caminho separados, um carro levou Yusra e as crianças, enquanto Khaled teve que ir a pé com um grupo de sírios. Era perigoso irem juntos.

“Na noite em que chegamos em Zaatari nos levaram até uma barraca. Eu estava tão exausta de todo o estresse que deitei e dormi no chão mesmo, sem nada. Foi a primeira vez que dormi bem em muito tempo.”

A família morou no campo por dois anos e por dois anos a vida foi muito difícil. No início moraram em uma barraca, depois conseguiram ir para uma Refugee Housing Unit, unidade habitacional inovadora que tem divisórias para cômodos, janelas e iluminação por energia solar. Ainda assim, a vulnerabilidade era grande:

“A vida no campo era difícil. Você fica muito vulnerável. Dependíamos de ajuda para comer, nos vestir, e nos aquecer. Só tínhamos o que nos davam. Os banheiros eram compartilhados por muitas pessoas. Era tanta terra e poeira que quando a gente passava uma toalha ela saia marrom”.

A família estava sem esperança e sem escolha. Não havia mais uma casa na Síria para voltar e os países árabes não os acolheram. Foi então que Khaled descobriu que seu passaporte só tinha mais 20 dias de validade: se não saísse agora não conseguiria mais. Ele tinha um irmão que já estava vivendo no Brasil, então mesmo resistente à ideia, foi na embaixada brasileira na Jordânia:

“Me deram bom dia e me ofereceram uma limonada. Se solidarizaram com a situação da minha família, Yara era uma bebê pequena, e consegui o visto”.

Ao chegar no Brasil, Khaled buscou apoio da IKMR, parceiro do ACNUR que o ajudou a preparar toda a documentação para a vinda da família: suas filhas não tinham nenhum registro de identificação ou documento, tudo se perdeu na guerra. Graças à ajuda que recebeu, em três meses a família estava reunida em São Paulo. Com o tempo, conseguiram trazer a mãe de Khaled, que hoje também vive com eles.

“Chegar aqui pra gente foi recuperar a nossa liberdade. Os parceiros do ACNUR nos ajudaram muito. Tivemos apoio para solicitar refúgio, para inscrever nossos filhos na escola, acesso a aulas de português, e até hoje levam as crianças em passeios. Gosto muito deles.”

Para Hanna, a filha do meio, a adaptação não foi fácil e no início sofreu bullyng na escola: “tenho orgulho do meu véu”, conta determinada. Hanna sonha em ser jornalista para poder contar as histórias das pessoas.

Hoje a vida de Yusra se divide entre tarefas da casa, cuidar da família, frequentar aulas de português e estudar na mesquita do bairro onde mora. O filho Mustafa trabalha e sustenta a casa, enquanto Khaled se recoloca no mercado de trabalho.

Agora tudo o que esperam é por um futuro para seus filhos no Brasil. Depois de tanta dor, não há espaço para saudades:

“Foram tantas perdas que o coração vira uma pedra. A gente mantém o espírito alegre pelas crianças, mas estou vazia. Meu coração é vazio. Não tenho mais lágrimas para chorar.”

O ACNUR atua na emergência da Síria desde o começo. Somos a principal agência da ONU em proteção, abrigo, serviços comunitários e distribuição de itens essenciais dentro da Síria. Mas não é só isso: estamos ao lado dos refugiados em todos os passos da sua jornada. No Brasil, apoiamos através de nossos parceiros locais cursos de português, revalidação de diploma, documentação, atuando para que as famílias se integrem e tenham a chance de viver em melhores condições.

(ACNUR)

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