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Cubanos de Miami são 'americanos que comem feijão com arroz'

Adalberto Roque | AFP

Agências de Notícias - publicado em 30/12/18

A apenas 367 Km de distância, Havana e Miami já foram muito conectadas no início do século XX

Os 60 anos da revolução comunista em Cuba deram a Miami a personalidade que tem agora: uma cidade de gigantescos projetos imobiliários, onde os filhos e netos dos cubanos exilados cresceram como “americanos que comem feijão com arroz”.

A apenas 367 Km de distância, Havana e Miami já foram muito conectadas no início do século XX, com um intenso fluxo turístico e comercial. Este movimento pendular parou em 1959, quando a revolução de Fidel Castro trinfou e começou a diáspora cubana.

Os primeiros exilados dos anos 1960 hoje são octogenários que sonharam em libertar seu país e agora vivem entre a frustração e a nostalgia, depois de conspirar por décadas enquanto jogavam dominó nas varandas de suas casas em tons pastéis.

“Estávamos perdendo tudo pelo que nossa família trabalhou por anos, não podíamos aceitá-lo”, disse Johnny López de la Cruz, de 78 anos, lembrando o grupo de cubanos exilados que tentou invadir a ilha em 1961, após um desastroso treinamento da CIA.

“Os que deixamos Cuba nessa época queríamos voltar para devolver a democracia e a liberdade ao povo cubano”, disse à AFP este ex-combatente que hoje preside a Associação de Veteranos da Baía dos Porcos.

O arqui-inimigo: John F. Kennedy, presidente americano que os “traiu”, quando retirou o apoio da CIA em plena batalha.

“Quase todos fomos capturados”, contou López. Continuaram na prisão, na tortura e no exílio.

Cubanos como ele sentem o anticastrismo na pele e rejeitam a aproximação entre Washington e Havana, que consideram uma submissão. E esse é o sentimento visceral que perpassa boa parte da comunidade cubana em Miami.

– Tempero tropical –

Os anos se passaram, a diáspora aumentou e o sul da Flórida mudou. O “sanduíche cubano” se popularizou, o café agora se chama “colada” ou “cafecito”, como na ilha, e o idioma falado “por default” raramente é o inglês.

O capital social da comunidade cubana de Miami é tamanho que um de seus representantes, Jorge Mas, teve que meter a colher no projeto de estádio que David Beckham tem na cidade para que o astro do futebol britânico começasse a ter chances reais de levá-lo adiante.

Até no caso Watergate, um marco da história política americana, quatro dos cinco detidos foram cubanos anticastristas de Miami.

Segundo o último censo, em 2017, 67% da população desta cidade da Flórida eram hispânicos, dos quais mais da metade (54%) são cubano-americanos.

“Os cubanos transformaram a Miami subtropical em uma cidade com estilo tropical, uma ‘cidade alegre’ ao estilo caribenho”, escreveu o historiador Anthony Maingot em seu livro “Miami: a Cultural History” [Miami: uma história cultural, em tradução livre], de 2015.

Mas este tempero tropical não está no Caribe: continua sendo americano.

“A latinização da cidade está contrabalançada pelas forças dos Estados Unidos, que sempre favoreceram a renovação e a mudança”, escreveu Maurice Ferré, seis vezes prefeito de Miami, no prólogo do livro de Maingot.

– Feijão com arroz –

Entre estas duas forças antagônicas, estão os filhos e netos dos cubanos.

Giancarlo Sopo, de 35 anos, é filho de um veterano da Brigada 2506, que surgiu – afirma – no auge do êxodo, nos anos 1980.

O tamanho da influência em Miami se media na cultura popular em sucessos como a canção “Conga”, de Gloria Estefan, e o filme “Scarface”, con Al Pacino.

Anos depois, a partir da abertura das relações entre Cuba e Estados Unidos, em 2014, Sopo viajou a Havana e descobriu que era mais americano do que pensava.

Ficaram para trás a crise dos “marielitos”, dos anos 1980, e a dos “balseros”, uma década depois.

“Enquanto mais interajo com jovens cubanos, mais me dou conta de que culturalmente temos diferenças”, disse à AFP este estrategista da comunicação em seu escritório em Miami Beach.

Um exemplo: sua esposa, uma mulher nascida e criada em Cuba, considera natural que alguém a visite sem avisar. Mas, para ele, este costume é surreal.

Os cubanos da segunda e da terceira geração “somos americanos que gostamos também de comer feijão com arroz”, brincou.

E por isso, são grupos mais propensos a favorecer a abertura e, inclusive, a votar em democratas.

Anticastrismos como o de Johnny López “são visões que é preciso entender e respeitar”, disse Sopo. “Não tive minha terra confiscada, não fuzilaram meu irmão, meu pai (…) Não posso julgar as pessoas que sofreram isso e dizer-lhes ‘vocês são extremistas'”.

“Acho que todos queremos o melhor para Cuba, um país onde todas as pessoas possam prosperar”.

(AFP)

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