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Papa expressa preocupação com ressurgimento de tendências nacionalistas

POPE FRANCIS,SKIES,WEATHER

Antoine Mekary | Aleteia

Vatican News - publicado em 09/01/19

Para Francisco, o bom político não deve ocupar espaços, mas iniciar processos

Uma das audiências mais importantes no Vaticano foi realizada na manhã desta segunda-feira (07/01): o Papa Francisco recebeu os membros do corpo diplomático acreditado junto à Santa Sé para as felicitações de ano novo.

Como é tradição, em seu discurso o Pontífice faz uma análise da conjuntura internacional, com considerações sobre acontecimentos passados e desafios no futuro próximo.

Esta também é a ocasião em que o Papa cita os acordos estipulados com a Santa Sé no decorrer do último ano e os países visitados recentemente e a serem visitados nos próximos meses: Panamá, Marrocos e Emirados Árabes Unidos.

“A Santa Sé não pretende imiscuir-se na vida dos Estados, mas aspira a ser uma ouvinte solícita e sensível das problemáticas que dizem respeito à humanidade, com o propósito sincero e humilde de se colocar ao serviço do bem de todo o ser humano”, afirmou Francisco, reforçando a tradição diplomática da Santa Sé.

De fato, a Santa Sé mantém relações com 183 Estados, além da União Europeia e da Soberana Militar Ordem de Malta.

“Premissa indispensável para o sucesso da diplomacia multilateral são a boa vontade e a boa-fé dos interlocutores”, declarou o Pontífice, manifestando sua preocupação com o ressurgimento de tendências nacionalistas, com a busca de soluções unilaterais e a opressão do mais fraco pelo mais forte. A globalização deve ser uma oportunidade de desenvolvimento e não desencadear novas formas de colonização.

“A paz não é jamais um bem de parte, mas abraça todo o gênero humano”, recordou o Papa, sendo o respeito pela dignidade de cada ser humano o fundamento para toda a convivência realmente pacífica.

Para Francisco, o bom político não deve ocupar espaços, mas iniciar processos.

O Papa manifestou sua preocupação com alguns temas e países, como por exemplo a “amada Nicarágua, cuja situação acompanho de perto com esperança”.

Ainda na América Latina, o Pontífice mencionou a Venezuela e agradeceu o acolhimento de migrantes por parte da Colômbia.

Entre as pessoas sem voz do nosso tempo, Francisco lembrou as vítimas de guerras em curso, especialmente na Síria e em alguns países africanos, como Mali, Níger e Nigéria. Iêmen e Iraque também foram citados.

No Oriente Médio, o Santo Padre falou da importância da presença dos cristãos e da tensão persistente entre israelenses e palestinos.

A dificuldade que a comunidade internacional tem tido em lidar com o fenômeno migratório também fez parte do discurso do Papa.

“Mais uma vez desejo chamar a atenção dos governos para todos aqueles que tiveram de emigrar por causa do flagelo da pobreza, de todo o gênero de violência e perseguição, bem como das catástrofes naturais e das perturbações climáticas, pedindo que se facilitem as medidas que permitam a sua integração social nos países de acolhimento.”

Diante da tendência da Europa e da América do Norte de fechar as fronteiras, Francisco recordou: “Todo ser humano anseia por uma vida melhor e mais feliz e não se pode resolver o desafio da migração com a lógica da violência e do descarte nem com soluções parciais”.

O Papa citou a importância da aprovação dos dois Pactos Globais sobre Refugiados e sobre a Migração segura, ordenada e regular, não obstante existam ressalvas quanto a certas terminologias adotadas.

Os jovens e as crianças não ficaram de fora do discurso do Papa. De modo especial, ele recordou este ano o trigésimo aniversário da Convenção sobre os Direitos da Criança.

Nesta circunstância, Francisco falou dos abusos contra os menores, que “constituem um dos mais vis e nefastos crimes possíveis”, cometidos também por vários membros do clero.

“A Santa Sé e toda a Igreja estão se esforçando por combater e prevenir tais delitos e o seu encobrimento, acertar a verdade dos fatos em que estão envolvidos clérigos e fazer justiça aos menores que sofreram violências sexuais, agravadas por abusos de poder e de consciência”, reiterou o Pontífice, recordando o encontro em fevereiro próximo com os Episcopados de todo o mundo.

A violência contra a mulher também foi condenada pelo Santo Padre.

“É urgente descobrir formas de relações justas e equilibradas, defendeu Francisco, sem desnaturar, porém, “o próprio ser homem ou mulher”.

A discriminação das mulheres no trabalho também deve ser combatida. E por falar em trabalho, o Pontífice falou das condições laborais que muitas vezes levam a uma forma moderna de escravidão, onde inclusive crianças são manipuladas.

Em meio a preocupações, há iniciativas e acordos a serem louvados, como no caso da Ucrânia, da península coreana, do Sudão do Sul, da Etiópia e da Eritreia.

À África, em especial, o Pontífice dedicou um inteiro parágrafo para ressaltar o “potencial dinamismo positivo” do continente, que nos últimos tempos tem implementado iniciativas de inclusão e desenvolvimento.

Por fim, o Papa recordou um traço da diplomacia multilateral: o futuro.

Neste contexto, Francisco falou de dois temas em particular: a corrida armamentista e o meio ambiente.

“Infelizmente, pesa constatar que o mercado das armas não só não parece sofrer interrupção, mas ao contrário existe uma tendência cada vez mais difusa para se armar por parte tanto dos indivíduos como dos Estados.”

Quanto à preservação do meio ambiente, o Santo Padre recordou que “a Terra é de todos e as consequências da sua exploração recaem sobre toda a população mundial, com efeitos mais dramáticos em algumas regiões”.

Entre essas regiões, Francisco mencionou a Amazônia, que estará no centro da próxima Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos, prevista para o mês de outubro no Vaticano.

“Apesar de tratar principalmente dos caminhos da evangelização para o povo de Deus, não deixará também de enfrentar as problemáticas ambientais em estreita relação com as consequências sociais.”

O longo e articulado discurso do Papa se concluiu com a tónica adotada em todo o pronunciamento: de que a comunidade das nações é um elemento em construção, baseada não somente na amizade e na confiança, mas também na justiça e no direito, tendo em vista a paz e o bem integral da pessoa humana.

“Para todos vós, prezados Embaixadores e ilustres Hóspedes aqui reunidos, e para os vossos países, formulo cordiais votos de que o novo ano permita reforçar os vínculos de amizade que nos ligam e trabalhar para construir a paz a que o mundo aspira.”

(Vatican News)

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