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Após 43 anos, mulher de 44 deixa hospital e quer vida nova: “Ajudar pessoas!”

Eliana Zagui
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"Se você não sonhar, o que você é? As pessoas já nascem com o não pra tudo, então não pode perder a fé. Eu demorei 43 anos para realizar meus planos. Eu também tenho meus dias de vitimismo, mas isso não pode virar rotina"

A vida inteira num único cenário: as paredes brancas de um quarto de hospital e, da janela, as fachadas de prédios vizinhos, vislumbradas por entre os ramos de uma árvore.

Um único cenário para todos os amanheceres, para cada uma de todas as tardes, para toda madrugada de chuva ou de estrelas, para cada domingo de sol e cada segunda e terça de garoa sobre São Paulo.

Desde o surto de poliomielite da década de 1970, que a paralisou do pescoço para baixo com pouco mais de 1 ano de idade e a fez precisar de ajuda permanente de aparelhos para continuar respirando, foi naquele quarto do Hospital de Clínicas da USP, já que a família não tinha condições de bancar o tratamento em casa, que Eliana Zagui viveu durante 43 anos, todos os dias, todas as noites. Ela tem 44.

Segunda temporada

Faz 16 anos que ela conheceu, pela internet, o cabeleireiro Lucas Negrini. E foi a amizade inusitada e extraordinária com o jovem de 35 anos que, junto com a vontade implacável de Eliana de viver, mudou drasticamente não apenas o cenário, mas todos os próximos capítulos de uma vida ímpar – cuja “segunda temporada” começou oficialmente em 22 de dezembro de 2018.

Eliana mora agora na casa de Lucas em Sumaré, no interior de São Paulo, onde, muito além da cama adaptada em um dos quartos, muito além dos livros e da pintura que ela já amava desde os tempos longos do hospital, um universo fascinante de experiências de vida se descortina ao alcance do seu espírito, maravilhado com a sublimidade quase indescritível do banal: brincar com os cachorros… ouvir música… passear até a represa…

Aos repórteres Marcello Carvalho e Jonatan Morel, do portal G1 e da emissora EPTV, da região de Campinas, Eliana tentou descrever o indescritível numa entrevista que lhes concedeu nesta semana:

“…Poder sair! Ter a liberdade de ver a luz do sol quando eu quiser, ver a natureza, que eu gosto muito… Até o meu bom dia é diferente. Lá no hospital tinha dia que eu nem respondia bom dia. Aqui eu estou feliz! A gente sai, vai num barzinho aqui perto, já fui em churrasco… Mas o que eu adoro mesmo é a represa!”

Entre a rotina de monitoramento médico e a teia inextrincável de passado e futuro que forma os sonhos do presente, Eliana enumera os almejos banais que dão sublimidade à nossa fugacidade no tempo e no espaço: ela quer, por exemplo, voar; quer ver o sul do Brasil e Portugal. E quer continuar pintando os seus quadros, tanto pelo prazer da pintura quanto pela dignidade de torná-los fonte da sua própria renda. Quer dar palestras, porque anseia por ajudar as outras pessoas privadas do movimento do corpo a não se privarem dos movimentos da alma. Ela mesma declarou aos repórteres:

“Se você não sonhar, o que você é? As pessoas já nascem com o não pra tudo, então não pode perder a fé. Eu demorei 43 anos para realizar meus planos. O que não pode é colocar mais empecilho do que já tem. As pessoas têm uma cultura de vitimismo. Eu também tenho meus dias de vitimismo, mas isso não pode virar rotina”.

Lucas

Em 2002, Lucas estava à beira do despejo e submerso na depressão. Precisava, urgentemente, de socorro.

E o socorro veio de uma voluntária que ajudava as pessoas mediante bate-papos na internet. Do seu quarto de paredes brancas, diante da janela da qual se vislumbravam por entre os ramos de uma árvore as fachadas de prédios vizinhos, a voluntária digitava as suas conversas generosas do mesmo jeito que segurava o pincel com que dava vida aos seus quadros: com a boca.

 

É Lucas quem recorda o dia em que ao mesmo tempo se descobriu “tetraplégico de pensamento” e encontrou a fórmula da própria cura:

“Eu disse os problemas que eu tinha e deixei claro para ela que estava pensando em fazer uma besteira. Então ela começou a me falar que eu não podia fazer isso, que tinha pessoas com problemas muito piores que o meu. Quando ela me disse para ir ao hospital visitá-la, eu vi que ela estava sem se mexer naquela cama, eu vi que ela estava falando dela mesma e que eu é que estava tetraplégico nos meus pensamentos. Ela foi o remédio para curar a minha depressão”.

Cura e vida nova

O remédio teve efeitos colaterais ainda mais revitalizadores que a própria cura.

Lucas não apenas voltou para Sumaré e conseguiu comprar uma casa como ainda começou a fazer de tudo o que era possível e impossível a fim de levar Eliana para viver junto dele. A mesma Eliana que durante 43 anos só tinha vivido sob o teto branco de um quarto de hospital, com seu próprio ar fornecido por um aparelho. Seria preciso bancar os custos de duas enfermeiras, de medicações que não são triviais e das adaptações na residência. Mas, para quem está decidido, os obstáculos são incentivos. E, para quem demonstra que está decidido, a solidão cede espaço à solidariedade. Não demorou para que as ajudas de empresários e de internautas, mediante vaquinhas na internet, começassem a transformar a decisão em realização. Aliás, a vaquinha continua: se você puder ajudar, acesse aqui.

É uma realização que se estende também à decisão que manteve Eliana viva durante mais de 4 décadas: a própria decisão de viver, acalentada pelo sonho de um dia ter um lar.

“Eu não tinha ninguém que me levasse para casa. Minha família não tem condição. O Lucas mudou a vida dele para conseguir me ajudar”.

De fato, uma das tristezas de Eliana era a de não conviver constantemente com os pais. Sua mãe faleceu há cinco anos. O pai tem dificuldades em lidar com a sua tetraplegia. O novo lar precisaria ser construído por um irmão que ela não sabia que a vida lhe traria.

Finalmente, o lar

E o novo lar ainda aguarda outro irmão que a vida já lhe trouxe há muito tempo: há quatro décadas. Enquanto as paredes brancas do hospital foram a sala de espera do lar que um dia viria, Paulo Henrique Machado foi a sua família mais próxima. Eliana e Paulo foram os últimos pacientes que ficaram no hospital enquanto as outras crianças atingidas pela pólio dos anos 70 iam partindo – ou do hospital para casa, ou desta vida para a próxima. Paulo, porém, ainda se sente inseguro, segundo Eliana, de sair do local em que a sua vida foi cuidada e preservada durante tanto tempo e contra tantos prognósticos.

A casa de Lucas não poderá servir de cenário para outro sonho do cabeleireiro e da sua nova irmã: criar o Instituto Eliana Zagui, dedicado a ajudar doentes de poliomielite. A prefeitura não autorizou. Mas, como os obstáculos são incentivos, Eliana e Lucas já conseguiram outro imóvel: o projeto agora angaria recursos para se tornar a próxima realização.

“O meu tempo no hospital foi de grande aprendizado e grande sofrimento. Acho que tenho muitas coisas a passar para as pessoas. Mas realmente falta o Paulo aqui; eu sinto muita falta dele. Cada criança que ia embora do hospital, ou morria, eu chorava. Só sobrou eu e o Paulo. Ele é muito importante para mim”.

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Com informações do portal G1 e do Facebook de Eliana Zagui

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