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A história da reconstrução do Santuário do Carmo de Mariana

Reprodução dos arquivos da Arquidiocese de Mariana
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Construída em pedra e cal a partir de 1783, a igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Mariana, é uma das igrejas que compõem o postal mais famoso da cidade: a praça Minas Gerais

Mariana, 20 de janeiro de 1999. Quarta-feira. Dia comum. Logo após o almoço, turistas enfrentam o sol forte do verão para desvendar a cidade. Trabalhadores e moradores do centro mantêm os seus afazeres. Na Praça Minas Gerais, cartão postal da cidade, duas igrejas se entreolham, uma pede por socorro.

Há algumas versões de quem foi o primeiro a avistar as chamas. Uns dizem ter sido duas turistas que tiravam fotos, outros que foram os vizinhos da igreja. Fato é que passava um pouco das duas da tarde quando a fumaça começou a ser notada. As chamas não brincaram em serviço. O incêndio mal tinha começado e o forro e telhado do Santuário de Nossa Senhora do Carmo já não existiam mais. A causa foi acidental. Não à toa, Monsenhor Vicente Diláscio, reitor do santuário na época, definiu a data como um dos dias mais tristes da história de Mariana.

Após receber parte da verba anual da Companhia Vale do Rio Doce destinada a projetos culturais e sociais nas cidades onde são extraídos minérios, o santuário começou a ser restaurado. Em 1995, já tinha passado pela restauração do telhado e da estrutura de sustentação. O forro, sistema elétrico e pintura também fizeram parte do projeto e, para alegria da comunidade, a igreja foi aberta antes mesmo dos últimos acabamentos nos altares e na sacristia, conforme relata o arcebispo da época, Dom Luciano Mendes de Almeida, em sua coluna, no dia 23 de janeiro de 1999 para a Folha de São Paulo.

Em 1998, o Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) acolheu o projeto de complementação dos trabalhos na igreja, além de incluí-la entre os prédios que passariam pelo processo de descupinização. “Tudo procedia bem e, com a fiscalização do Iphan e o maior cuidado dos técnicos e operários, faltava pouco para concluir a reforma. Ninguém podia prever que as chamas do dia 20 consumiriam tão rápido o templo restaurado em quatro anos. Ao primeiro alarde do fogo, os sinos das igrejas convocaram o povo, que acudiu de todos os lados. Vendo as labaredas, muitas chamas, muitos choravam”, escreveu o arcebispo.

“Que terá acontecido na tarde de quarta-feira, dia 20?”, questionou Dom Luciano, antes de explicar que a suspeita era de um acidente. Ao que parece, foi tudo culpa de uma lâmpada. A explosão acarretou em um curto-circuito e as faíscas geradas foram alimentadas pelas substâncias inflamáveis utilizadas na eliminação dos cupins. “A perícia não foi conclusiva, restaram apenas hipóteses”, informa o engenheiro e coordenador do projeto de restauração, José da Silva Reis, conhecido como Cabral.

​“Foi uma perda irreparável”, declara Maria do Carmo Neme de Queiroz, de 66 anos, vizinha do santuário e confrade da Confraria de Nossa Senhora do Carmo. No dia do incêndio, ela foi avisada de que era a sua casa que estava pegando fogo. Em desespero, saiu da aula que assistia no Instituto de Ciências Humanas e Sociais (ICHS) da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop) e percorreu o caminho em metade do tempo costumeiro. “De lá dava a impressão que era a minha casa. Quando eu estava perto do Guarani que eu percebi que não era. O fogo estava saindo de perto da torre da igreja”, explica.

As pessoas que estavam em volta da igreja ajudaram a retirar algumas das imagens de santos. “Tinha gente da comunidade, alunos do ICHS, guias de turismo, foram todos subindo nos andaimes que tinham e resgatando o que podia. Foi aquele caos. Carregando santo pra cá, móvel pra lá”, lembra.

Para apagar o fogo foi necessário pedir ajuda ao Corpo de Bombeiros de Ouro Preto, já que Mariana não dispunha deste serviço. As unidades de bombeiros das empresas mineradoras da região também auxiliaram. “Com menos de 40 minutos já estava tudo no chão. A unidade da Samarco e da Vale chegou e aqui em casa foi o ponto de comando deles. O corpo de Bombeiros de Ouro Preto também acionou o de Belo Horizonte, mas eles demoraram para chegar”, relata Maria do Carmo.

Além dos altares laterais em talha rococó – um com o Calvário, a imagem de Santa Terezinha e sua relíquia e o outro com São João da Cruz e Imaculada Conceição -, uma das maiores perdas foi a pintura do forro da nave, feita por Francisco Xavier Carneiro. A pintura retratava Nossa Senhora do Carmo entregando o escapulário a São Simão Stock.

Mais de 15 dias depois do acidente, Maria do Carmo diz ter comunicado aos bombeiros que continuou vendo fumaça. A equipe não encontrava nada, até que um deles resolveu ficar até de noite e, assim, viu as fagulhas. “Descobriram que dentro da cimalha em pedra tinha uma peça de madeira. Ela estava fumegando. Tiveram que cortar mais de uns 4 metros dela. Foi uma luta pra cortar ela dentro da cimalha”, lembra.

Restauração

Segundo padre Paulo Barbosa, pároco da Paróquia Nossa Senhora da Assunção na época, o dia 20 de janeiro de 1999 “causou uma comoção muito grande na igreja de Mariana porque foi também somado ao sofrimento do patrimônio cultural de todo o Estado de Minas”.

Apesar da tristeza com as perdas, a comunidade se uniu para o restauro. “Nós tivemos a grande liderança de Dom Luciano, que era o arcebispo de então, e de Monsenhor Vicente Diláscio, que era o reitor do Santuário. Através deles e com o apoio de Cônego Paulo Diláscio, das paróquias de Mariana e também do auxílio das empresas ligadas à cidade de Mariana, como também da imprensa, houve um grande trabalho de levantamento para que a igreja pudesse ser restaurada. Cada um deu sua parte”, afirma.

Os restauros na igreja começaram em abril de 2000, com a cobertura da nave em estrutura metálica e a aquisição de todas as telhas. A verba proveniente para esta etapa foi concedida por meio de um convênio entre a Secretaria do Patrimônio, Museus e Artes Plásticas do Ministério da Cultura e Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), conforme o relatório de março de 2001 do arquiteto Paulo Hermínio Guimarães. Estes trabalhos foram concluídos no final do mês de julho.  Nesta época também foi iniciada a instalação do sistema de proteção contra descarga elétrica pelo IPHAN. Os terminais foram instalados nas agulhas das torres, na cruz central, na cruz posterior e nos coruchéus sobre a empena do arco do cruzeiro.

No dia primeiro de setembro de 2000, após a captação de recursos com as empresas, a Arquidiocese de Mariana deu prosseguimento a primeira etapa de restauração, que incluiu a recuperação da cobertura dos telhados remanescentes; recuperação total da fachada principal (frontispício em pedra sabão e cantaria); recuperação das fachadas laterais e colocação da porta principal da igreja.

O escultor marianense Rinaldo Urzedo, sob a orientação da restauradora Martha de Fontana, foi o responsável por completar a asa do anjo do lado esquerdo do medalhão, que fica na parte exterior da igreja, acima da porta. A asa foi instalada em dezembro de 2000. A peça, considerada importante para a recuperação da simetria do conjunto, foi fixada com chumbadores metálicos e dois parafusos, para que ficasse clara a intervenção.

Segundo o relatório do arquiteto, em dezembro de 2000, os andaimes que serviam aos trabalhos do frontispício começaram a ser desmontados. Na sua coluna da Folha de São Paulo do dia 3 de fevereiro de 2001, Dom Luciano reforçava a alegria de rever a “beleza externa do santuário”, que ainda demoraria mais um ano para ser aberto.

Portas abertas

Em três anos, o Santuário reabriu as portas. Em entrevista ao Jornal Pastoral de Janeiro de 2002, Monsenhor Vicente Diláscio, reitor do Santuário na época, atribuiu a Nossa Senhora do Carmo o milagre de reconstruir a igreja em tão pouco tempo. “Humanamente seria impossível”, declarou. Monsenhor Diláscio também confidenciou ao jornal que, pelo menos uma vez por semana, celebrava a missa em meio às ruínas com a presença apenas do sacristão para agradecer e pedir a Deus.

Um tríduo preparatório iniciado no dia 24 de janeiro de 2002, na igreja de São Francisco de Assis, deu início a programação para a reabertura do Santuário. No dia 27, Dom Luciano presidiu a missa de reabertura do templo com a presença de autoridades que representavam as empresas patrocinadoras da restauração e toda a população marianense. Desde então, o santuário permaneceu aberto para visitação, tendo missas em todos os domingos, às 18h30.  

A segunda etapa da restauração começou logo em seguida. Em um informativo datado do dia 27 de janeiro de 2002, Monsenhor Vicente Diláscio escreve que as celebrações eucarísticas no santuário manteriam todos firmes na fé para reiniciar de imediato a obra, que consistia na confecção dos altares laterais, do para-vento, na restauração dos elementos artísticos da Capela-Mor e da cantaria e, por fim, dos ornamentos em pedra-sabão na parte interna da igreja. As obras foram encerradas e a igreja entregue oficialmente em meados de 2005.

Segundo o engenheiro Cabral, a segunda etapa da restauração não foi totalmente concluída por falta de recursos. “No arco do cruzeiro, nas cantarias, que são as pedras, há partes lascadas. Existem essas lacunas porque, na época, não conseguimos verba para terminar o trabalho”, revela.

Proteção contra incêndios

Se há uma lição que o Santuário de Nossa Senhora do Carmo deixou para a história, talvez seja a preocupação com a preservação do patrimônio. Cabral diz ser possível que o Santuário do Carmo seja a igreja mais completa atualmente em prevenção de incêndios, em Mariana. “Temos o mais importante: os detectores de fumaça. Caso haja um princípio de incêndio, os alarmes serão acionados e tudo será verificado”, expõe.

De acordo com o Coordenador Arquidiocesano da Comissão dos Bens Culturais da Igreja, padre Jean Lúcio de Souza, embora os esforços ainda sejam tímidos, existe sim na Arquidiocese de Mariana ações para a proteção dos bens arquidiocesanos. “Há uma grande dificuldade financeira de nossas comunidades em custear e executar projetos de prevenção contra incêndios. Estas comunidades, em sua maioria, são sustentadas pelo dízimo, que neste caso, assume com consideráveis dificuldades os encargos paroquiais em cada comunidade, dentre os quais inserimos as demandas da conservação patrimonial. Compreendemos assim, que existe certo empenho para que cada vez mais os prédios arquidiocesanos e, com isso, o patrimônio que está sob sua proteção, sejam salvaguardados dignamente”, explica.

Ainda segundo ele, a Arquidiocese de Mariana tenta, a seu modo, como foi feito nos últimos meses, por meio de uma circular, alertar às paróquias sobre a observância de sua conduta quanto à prevenção contra incêndios. E várias, destaca o padre, já propuseram e executaram projetos de seguridade contra pânico e incêndio.

“Ainda precisamos ampliar nossa ação preventiva, contudo, muito já se encaminhou como resposta da Arquidiocese de Mariana, por meios de seus diletos e atentos párocos e administradores paroquiais, bem como dos Conselhos Econômicos, também por vezes em atividade conjunta, por meio de parcerias com órgãos públicos, com anuência desta Arquidiocese, buscando proteger tudo que está em suas mãos, enquanto instituição, para que não se perca nossa história e com isso parte de nossa identidade”, ressalta.

Exposição

Após a missa das 18h  do próximo domingo (27), uma exposição fotográfica sobre o incêndio será inaugurada no corredor lateral da sacristia do Santuário de Nossa Senhora do Carmo.

Segundo o presidente da Confraria de Nossa Senhora do Carmo, Patrick Matheus Rodrigues, a ideia é que as fotos sirvam como um memorial. “Queremos que o povo marianense se recorde e não esqueça que a negligência humana pode acarretar em tão grande perda para o nosso patrimônio cultural”, ressalta.

A exposição não tem data para terminar e todos os que quiserem visitá-la podem ir a igreja de terça-feira a sábado, das 8h30 às 17h, e nos domingos, de 7h às 14h.

Santuário do Carmo

Construída em pedra e cal a partir de 1783, a igreja de Nossa Senhora do Carmo, em Mariana, é uma das igrejas que compõem o postal mais famoso da cidade: a praça Minas Gerais. Dividindo o espaço entre a Câmara Municipal e a Igreja de São Francisco de Assis, o Santuário é considerado um dos mais belos exemplares do rococó.

Há missas na igreja todos os dias, de segunda a sábado às 6h30 e de terça a sexta às 18h30. Nos domingos as missas são às 7h, 10h, 18h e 19h30 – enquanto a Catedral Basílica continuar fechada.