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Quando vi uma sem-teto vestindo uma das minhas heranças de família

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Sarah Robsdotter - publicado em 04/03/19

A frase da Bíblia que diz que o amor nunca acaba seria apenas poesia - ou realmente verdade?

Tem uma mulher sem-teto na minha cidade chamada Gloria. Ela anda pelas ruas usando sacos de lixo em volta dos sapatos para se manter aquecida. Nossa área é economicamente limitada. O abrigo mais próximo está a mais de 30 quilômetros de distância. Gloria foi levada para lá muitas vezes, mas ela sempre encontra o caminho de volta para estas ruas cheias de lojas abandonadas, um lugar onde eu imagino que seja especialmente difícil ficar desabrigado. Com quase nenhum serviço social ou mesmo bancos de parque para sentar e descansar, o que Gloria deve fazer? Onde ela pode encontrar abrigo em um dia frio e chuvoso?

Esse dilema passou pela minha cabeça recentemente enquanto eu observava Gloria vasculhar uma lixeira. Eu estava parada em um semáforo e ela estava a cerca de um quarteirão de distância. Eu facilmente a teria perdido de vista, mas havia algo notável nela naquele dia que chamou minha atenção.

Através da neblina do nevoeiro, pude ver que ela estava vestindo uma colcha de retalhos colorida, laranja e azul, amarrada em volta do pescoço – como uma capa. Isso, no entanto, não era uma capa de retalhos comum. Era uma que minha avó havia costurado carinhosamente à mão na década de 1950. Feita inteiramente de retalhos de lã, essa herança foi dada a mim pela minha avó antes de ela entrar em uma casa de repouso.

“Ah, este pedacinho”, minha avó apontava, “este era o casaco de sua mãe quando ela tinha três anos. E este – disse ela, esfregando um triângulo azul desbotado -, este era o suéter de Timmy”.

Timmy é meu tio que faleceu de repente há alguns anos. Toquei o tecido que uma vez o aqueceu e lembrei de sua risada, da maneira como ele iluminava a casa. Não é de admirar que essa colcha tenha se tornado rapidamente uma relíquia estimada, uma que minha própria família pudesse espalhar na grama para posar para a nossa foto de família anual. Nós tiramos essa foto no outono passado em um parque. A colcha foi então colocada entre sacos de roupa de segunda mão e acidentalmente doada para um bazar na igreja.

Engoli em seco quando esta colcha de retalhos – agora a capa de Gloria – se ergueu no vento tempestuoso. Ela lutou para agarrá-la, puxando um quadrado que pode ter aquecido minha mãe ou minha tia Brenda há mais de 50 anos.

Gloria nos viu encarando e sorriu seu largo sorriso desdentado como ela sempre faz. Meu filho acenou, pensando que esta mulher de rua era uma super-heroína. O vento assobiava e eu me sentia grata pelo forro grosso que minha avó costurou carinhosamente naquela capa de manta décadas atrás. Cheguei a chorar quando percebi que minha avó agora enfraquecida pelo AVC ainda está afetando a vida dos outros da mesma maneira de sempre – de maneiras bonitas, mas práticas.

“A colcha da vovó está mantendo Gloria aquecida”, pensei, ponderando o fato de que as mãos que costuravam a colcha de retalhos agora são artríticas e envelhecidas, mas como elas – sem sequer perceberem – jogavam uma pedra em um lago, onde as ondulações duram para sempre.

Madre Teresa é famosa por apontar que muitas vezes é impossível para a maioria de nós fazer grandes coisas – mas, como ela disse, “todos podemos fazer muitas pequenas coisas com grande amor”.

Esta é uma das minhas citações favoritas – tão aplicável à minha vocação da maternidade, uma aventura em que eu memorizo ​​versos como 1 Coríntios 13 com meus filhos, começando o dia proclamando verdades como “o amor é paciente, o amor é gentil… o amor não é ciumento ou arrogante… o amor nunca acaba!“.

Meus sete garotos gritam essa última parte em uníssono e é muito fofo. Mas, algumas vezes, eu me afastei do nosso tempo de oração, perplexa com as alegações deste versículo bíblico. Meu diálogo interior argumenta: “olhe para a taxa de divórcios que apenas dispara; como poderia o ‘amor nunca acabar?'”.

Eu não estou afirmando ter essa resposta. Mas eu estou reivindicando o calor denso desta “capa” de retalhos, que foi costurada pela minha avó com grande amor há décadas e agora está enrolada nos ombros de Gloria.

Eu gosto de imaginar Gloria estendendo essa colcha na primavera. Talvez seja sobre o jardim público que a prefeitura planejou. Sementes fertilizadas irão brotar através suas fibras. Flores irão crescer. As crianças vão buscá-las para suas mães, que então serão inspiradas a fazer coisas amorosas, como costurar mais colchas de retalhos. Tudo porque o amor nunca acaba.

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