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Ciência é diferente de cientificismo

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Vanderlei de Lima - publicado em 12/03/19

É possível oferecer à pergunta “Que é ciência?”

Não é fácil encontrar uma definição tão precisa de ciência nos dicionários ou manuais que se dedicam a essa tarefa.

Contudo, é possível oferecer à pergunta “Que é ciência?” uma resposta que nos parece bastante objetiva e completa: “Ciência é o conhecimento a partir da causa”. Sim, a partir do que vejo, sinto, toco etc. (efeito) vou à causa. Isso para um bom médico, por exemplo, é muito claro: a febre (efeito) é sinal sensível de uma doença, mais ou menos grave, a ser descoberta na consulta, com ou sem o auxílio de exames. É preciso, portanto, chegar à causa. Agindo assim se faz ciência, pois se trabalha com a relação efeito (febre) → causa (uma infecção) e, depois, em contrário, trata-se a causa (infecção) para cessar o também o efeito (estado febril).

Diferente, no entanto, de ciência, é o cientificismo, pois acredita – sem provar – com fé cega, radical e até fanática, que a ciência experimental tudo explica. Daí, deixar de lado o que não possa ser medido e quantificado, como terá dito um renomado, mas anônimo cirurgião francês: “Só acreditarei na existência da alma humana [espiritual] no dia que conseguir pegá-la na ponta do meu bisturi”.

Temos aí não um cientista, mas um cientificista fanatizado, e que de tão fanático usa a ferramenta errada em sua tentativa de descoberta, pois quer com um elemento material (o bisturi) alcançar algo espiritual (a alma humana). É um absurdo tão grande como, por exemplo, desejar debelar a tuberculose com doses mínimas de um xarope qualquer. O que levaria a essa atitude insana seria o fanatismo, nunca a verdadeira ciência. Como alguém que julgasse poder curar sua filha a necessitar de urgente cirurgia só com orações e outros rituais, sem buscar a Medicina. Se o primeiro fanático é um cientificista (só a ciência!), o segundo é um fideísta (só a fé!), mas nenhum dos dois é cientista (aquele que pelo efeito deseja chegar à causa).

Pergunta-se, então: mas, afinal, o que leva a tudo isso? – A nosso ver, muito brevemente, são dois pontos: o preconceito contra a Metafísica e o desconhecimento de que a ciência trabalha com hipóteses. Vejamos.

1) Preconceito contra a metafísica: o termo grego metafísica (ta metà ta physiká) significa “o que está além da física”. Ora, o famoso cirurgião anônimo é antimetafísico, pois nutre forte preconceito contra tudo o que não possa ser pego e medido em balança de precisão: o amor, a felicidade, a alma, Deus etc. Sua paupérrima realidade se limita àquilo que ele pode ver e tocar. Aliás, o Pe. Dr. Achylle Rubin nos conta que, em um Congresso de filósofos, um deles afirmou: “Eu só admito aquilo que posso ver”. A essa afirmação outro filósofo, educadamente, o desafiou: “Meu caro colega, se você só admite aquilo que pode ver, faça o favor de me mostrar, para eu ver com meus olhos, o sentido dessa sua afirmação” (Também você é filósofo. Santa Maria: Pallotti, 2008, p. 67). Óbvio que era impossível tomar o sentido emocional das palavras e pô-lo sobre a mesa, pois tal sensação não é física, mas metafísica.

2) O cientificismo, com sua fé inabalável na ciência experimental, faz-se assaz insustentável. Isso o afirma o Dr. Newton Freire-Maia, do Departamento de Genética da UFPR, ao escrever que “a ciência está repleta de hipóteses (provisórias) e, comumente, o próprio cientista não tem consciência da precariedade de suas proposições. Quando estudamos História da Ciência e ali encontramos hipóteses que foram alijadas para o porão e substituídas por outras, ficamos aturdidos com a possibilidade de que muitas das nossas hipóteses de hoje possam tomar o mesmo destino” (Curso sobre problemas de fé e moral. Rio de Janeiro: Mater Ecclesiae, 2007, p. 19).

Cabe, todavia, afirmar o seguinte: nem sempre a culpa é toda da pessoa que assim pensa. Ela pode ser fruto de uma formação deficiente na família e na escola que a ensinaram, de modo torto, a não refletir, mas apenas a tomar como certo só os dados cientificistas, antimetafísicos (= materialistas) e racionalistas que lhe foram passados. Essa pessoa chegará e passará, assim, pela faculdade para, finalmente, tornar-se uma profissional com visão manca do mundo. Só lhe é verdadeiro o que ela pega na ponta do bisturi…  Triste demais!

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