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Será mesmo que “era só uma igreja”?

Notre Dame
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A devastação de Nôtre-Dame de Paris pode inspirar reflexões sobre um dos mais fascinantes aspectos do culto católico: a sua "corporeidade"

Ao mesmo tempo em que o mundo retoma a rotina ainda atônito com o incêndio que devastou a Catedral de Nôtre-Dame de Paris, no fim de tarde desta segunda-feira, espalham-se comentários pelas redes sociais minimizando a “relevância espiritual” dessa perda irrecuperável com base na alegação de que “era só uma igreja” e de que nós próprios somos os verdadeiros templos de Deus.

Sim, de certo modo era só uma igreja e, sem dúvida, os verdadeiros templos de Deus devemos ser nós, mas, ao lado dessas frases, com o seu inegável núcleo de verdade, posiciona-se um risco alto de superficialidade no entendimento de um dos mais fascinantes aspectos do culto católico: a sua “materialidade”; a sua “corporeidade”.

O culto católico dedicado a Deus engloba coração, mente, espírito e corpo. E deveria chamar-nos à atenção o fato de que o corpo costuma receber uma importância menor: ao não o valorizarmos adequadamente, deixamos de aproveitar uma parte inestimavelmente rica do imenso tesouro do cristianismo.

Sim, o catolicismo tem sólido enraizamento no mundo concreto, tangível. Afinal, Deus não nos criou apenas como almas imortais, mas como unidades indissociáveis de alma e corpo – tanto é que nos ressuscitará em corpo e alma para a eternidade. Vem daí a dignidade intrínseca do nosso corpo, templo do Espírito Santo, e, no entanto, tantas vezes menosprezado por interpretações equivocadas (e até heréticas) sobre a nossa dimensão corpórea.

Assim como nós fomos criados com alma e corpo, também a nossa fé possui uma dimensão “corpórea”, sensível, tangível. Essa “corporeidade” da fé católica decorre do próprio fato de que, mesmo sendo Espírito puro, Deus está presente e Se manifesta na materialidade da Sua criação.

Catolicismo: uma fé “encorpada”

REVELAÇÃO – Deus intervém na história com a Sua Revelação, que se realiza mediante uma longa série de manifestações sensíveis. Não é à toa, a propósito, que, nas palavras de São João Paulo II logo nas primeiras linhas de sua célebre encíclica Fides et Ratio, “a fé e a razão constituem como que as duas asas pelas quais o espírito humano se eleva à contemplação da verdade“.

ENCARNAÇÃO – Ele mesmo decidiu encarnar-Se, com direito a ter uma Mãe amorosíssima e compartilhá-la com todos nós, Seus irmãos: em Jesus Cristo, Ele Se fez carne, Se fez homem, tornou-Se matéria conosco e foi homem em tudo, exceto no pecado.

SINAIS – Ele instituiu sinais visíveis da Sua graça, como os sacramentos. O batismo, a comunhão, a confissão, a confirmação, o matrimônio, a ordenação sacerdotal e a unção dos enfermos não são atos “apenas” espirituais, mas também físicos, que, além da intenção, requerem forma e matéria: água, santos óleos, palavra…

EUCARISTIA – Dentre os sacramentos, um é particularmente destacado quando se trata de “materialidade”: Ele próprio continua presente, visível, tangivelmente, sob os véus da Santíssima Eucaristia, que não é um “símbolo” apenas, mas Presença Real: Ele é Corpo e Sangue; Ele Se entrega a nós como alimento, espiritual e fisicamente, na Santíssima Comunhão.

SACRAMENTAIS – A fisicidade da Igreja também se expressa no uso dos sacramentais, objetos abençoados presentes em nosso cotidiano e que podem ser quase “qualquer coisa”, desde um punhado de sal abençoado até um crucifixo, passando por medalhas como a Milagrosa, a de São Cristóvão e a de São Bento, pelo escapulário e pelo rosário, pelas relíquias de santos e do próprio Cristo…

ARTE SACRA E LITURGIA – A dimensão material presente em nossa fé enriquece a nossa experiência real do divino e do sagrado aqui e agora, evocando Deus e a nossa união com Ele mediante as belezas extraordinárias da escultura e da pintura sacra, os acordes sublimes da música sagrada, o maravilhoso conjunto dos objetos e paramentos litúrgicos…

ARQUITETURA SAGRADA – Na arquitetura sacra católica, edifícios inteiros são erguidos como evocação e convite à nossa união com Deus em corpo e alma, espírito e mente. Não é à toa que, todo dia 9 de novembro, a Igreja chega a celebrar a natureza física da nossa fé mediante a festa de São João de Latrão: uma festa litúrgica dedicada a um edifício!

RITOS E TRADIÇÕES – A vida católica é tão concretamente ligada às realidades culturais, geográficas e históricas dos cristãos que, preservando a unidade essencial da doutrina e da fé, admite uma riqueza surpreendente de ritos e tradições litúrgicas: você sabia que a Igreja Católica é formada por nada menos que 24 igrejas “sui iuris“, autônomas e ao mesmo tempo unidas pelo mesmo credo?

SEXUALIDADE MATRIMONIAL – A entrega mútua dos nossos próprios corpos como homens e mulheres em ato de amor exclusivo e indissolúvel mediante a sexualidade vivida e desfrutada sob as bênçãos de Deus é tão sagrada que existe um sacramento dedicado a ela: o sagrado matrimônio. Além disso, a Igreja nos oferece toda a espetacular riqueza da Teologia do Corpo, tão bem apresentada ao mundo por São João Paulo II!

CUIDADO DA CRIAÇÃO – Quando se conhece e se vive em plenitude o tesouro inesgotável da fé católica, que abrange a integralidade do nosso ser sem deixar absolutamente nada de fora, torna-se natural respeitar e cuidar da criação de Deus manifestada materialmente não só na natureza a ser preservada, mas, principalmente, no nossos próximo, que é corpo e alma em unidade querida e criada por Deus.

DIGNIDADE HUMANA – É por isso que, diante de tantas agressões contra o corpo, materializadas em violências de toda ordem, assassinatos, torturas, abortos, eutanásias, vícios autodestrutivos, nem sempre se compreendem e se recebem com clareza os argumentos e exortações de natureza espiritual; é que nos falta algo ainda mais básico: perceber e admirar a maravilha, a sublimidade e a dignidade excelsa da nossa própria corporeidade.