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Jovens também sofrem com a solidão

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Beatriz Camargo - publicado em 24/04/19

Um alerta aos pais: é na época do vestibular ou no início da faculdade que este sentimento costuma aparecer

O tão aguardado resultado no vestibular saiu: seu nome constava como 10º colocado na lista de aprovados do tão sonhado – e disputado – curso de Medicina. Considerado um verdadeiro prodígio pela família – afinal, era um garoto de apenas 18 anos –, ele tinha conseguido aquilo que pode ser considerado o primeiro grande feito na vida.

Dias depois, outra lista, e olha lá seu nome novamente. Agora seria necessário decidir: optar pela universidade com ideais mais humanistas, porém há 300 km da casa da família, ou manter a matrícula naquela que é considerada uma referência em toda América Latina e que, convenientemente, fica na cidade onde sempre morou.

Inicia-se aí um duelo entre a razão e a emoção. O jovem pondera, conversa com os professores, procura pelo orientador vocacional, ouve todos os conselhos dos avós, tios, padrinhos e, com muita insegurança, faz sua decisão: muda-se de cidade em busca dos sonhos de se tornar Doutor.

Ciente de toda indecisão do filho, a mãe permaneceu apreensiva mesmo depois da escolha. E, como o ditado diz “coração de mãe não se engana”, em menos de um mês o filho estava de volta com todas as malas e um item extra – e muito pesado – em sua “bagagem”: a depressão.

Através dessa história descobri que algumas faculdades (não sei se todas ou apenas as que contam com cursos na área da saúde) hoje em dia contam com psicólogos e psiquiatras à disposição dos alunos para ajudar nos primeiros anos da vivência acadêmica, e foi isso que ajudou esse jovem a buscar um tratamento para a doença e voltar para casa mesmo com todo o julgamento que sofreria por estar abandonando um curso tão concorrido.




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Esse fato me causa surpresa porque na época em que fiz universidade, isso há mais de 20 anos, nunca soube de nenhum colega que tenha enfrentado a depressão e, até hoje, parece que essa doença é algo que nunca acometeria qualquer um que estudasse ali naquele ambiente marcado por jovens obstinados, sonhadores e que compartilhavam experiências o tempo todo.

Mas sou perfeitamente capaz de entender o que aconteceu a esse jovem que agora estuda Medicina em sua terra natal. Hoje sei que quando a solidão chega, outras coisas perdem a graça, e não é sempre que conseguimos extirpar esse sentimento tão dominador.

Para um calouro que está com saudades de casa, não interessa se os veteranos convidaram para uma festa de boas-vindas ou se a aula inaugural será dada pelo professor recém-chegado de uma temporada em Harvard. Seu único desejo é que chegue logo o próximo feriado para que ele possa novamente desfrutar do conforto de seu lar e de coisas simples como as brincadeiras com o cachorrinho da família, o bolo quente servido pela avó no final do dia e a disputa de videogame com o vizinho.

Sentir falta do acolhimento da família pode ser sim a causa de sentimentos como solidão e tristeza, mas o cerne do problema pode estar na maneira como o jovem se relaciona com outros indivíduos. Ele pode até estar cercado de pessoas, mas isso não quer dizer que ele tenha fortes laços de amizade ou se sente emocionalmente conectado a alguém.

Uma outra característica presente nas relações pessoais dos jovens hoje e que contribuí para a sensação de isolamento social é a constante comunicação via mídias sociais. Muitas vezes superficial, esse tipo de interação se caracteriza pelo excesso de exposição de muitos usuários, o que cria uma falsa sensação de intimidade.

Mas como ajudar ou até mesmo identificar que um jovem sofre em silêncio? E se esse sentimento evoluir para uma angústia profunda, uma depressão?

Essas eram algumas das dúvidas que tiraram o sono da mãe do jovem estudante de medicina e que certamente preocupam milhares de outras mães.

Na época, aquela mãe compartilhou o problema comigo e constantemente relatava que, mesmo de longe, percebia que algo estava errado, mas que permanecia atenta a todos os sinais do filho. Quando então ele verbalizou que não se sentia enturmado e nem mesmo tinha entusiasmo pela vida universitária naquele campus, ela não forçou a barra e continuou oferecendo apoio incondicional.

Ela tinha consciência de suas limitações, sabia que não estava ao seu alcance moldar um mundo ideal para o filho, e que a única coisa que lhe cabia era seguir ao lado do filho indicando caminhos e oferecendo suporte emocional.

Além de contar com a ajuda da mãe, o jovem passou por inúmeros encontros com psicólogos do centro de apoio da universidade, até que em determinado momento sentiu que não tinha mais forças para seguir adiante e, contrariando toda a família, admitiu que iria desistir da faculdade.

O tempo todo a mãe se manteve firme no apoio às decisões do filho, e só interviu de fato no momento em que ele voltou para casa. Naquela hora ela fez uma única exigência: que ele iniciasse sessões com um terapeuta profissional. Ela tinha clareza de que o jovem tinha à frente uma batalha ainda mais difícil: a solidão passara a dividir espaço com a sensação de derrota. Felizmente, meses depois eles puderam comemorar juntos, pois, o jovem saíra vitorioso.


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