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Hospital flutuante atende nas águas do litoral Pacífico colombiano

Agências de Notícias - publicado em 01/05/19 - atualizado em 13/05/19

Vinte e cinco profissionais da saúde viajam a bordo, a maioria deles voluntários

O navio branco sobe pelas águas barrentas do San Juan e algumas canoas surgem para encontrá-lo. O rio traz o milagre da embarcação-hospital para os indígenas e afro-colombianos do Pacífico, um deserto médico corroído pela guerra.

“Aqui não encontramos bons medicamentos. Eles não os trazem porque são caros”, lamenta Yenny Cárdenas, da etnia Wounaan. No telhado de sua cabana bate a chuva que as mulheres de sua comunidade haviam invocado um pouco antes com suas danças.

Preocupada com seu quinto filho de dois anos que “chora muito” e se “arranha”, a mulher se diz “feliz” com a chegada do San Raffaele, batizado com o nome do arcanjo patrono dos médicos.

“Meu filho estava bem. Gordinho, bonito. Mas há um ano, começou a coceira”, explica à AFP a mulher de 44 anos, professora em Balsalito, uma das reservas indígenas às margens do “grande rio”, que desce dos Andes até o oceano.

Na outra margem está a doca de madeira de Docordó, município majoritariamente afro do Litoral del San Juan, isolado no belo, mas miserável, departamento de Chocó (noroeste).

Nessa região de floresta, 49,9% dos 500 mil habitantes vivem em extrema pobreza, contra 17% da média nacional.

Dezenas de pacientes se aglomeram desde a madrugada, vindos de todo o município que carece de água potável e tem apenas uma creche para cerca de 16.000 habitantes.

– 2.000 consultas por missão –

Ancorado no meio do rio, numa espécie de zona neutra entre as comunidades afro e indígena, que não se misturam, o San Raffaele é pintado por uma cruz branca de “missão médica”, sobre fundo azul e vermelho. A imagem de uma metralhadora cruzada proíbe armas a bordo.

Pacientes que seguram suas barrigas, idosos encurvados, jovens grávidas acompanhadas por mais crianças, esperam tratamento e medicamentos gratuitos.

“Alguns não veem um médico há anos”, denuncia Ana Lucia Lopez, de 51 anos, diretora e uma das criadoras da fundação colombiana-italiana Monte Tabor, que transformou em hospital esse navio de 24 metros de comprimento.

O San Raffaele zarpa do porto de Buenaventura a cada dois meses para percorrer durante o ano os 1.300 km da costa do Pacífico, da fronteira com o Equador até o Panamá, em missões de doze dias que chegam a diferentes aldeias.

Vinte e cinco profissionais da saúde viajam a bordo, a maioria deles voluntários.

Quinze dias antes, uma missão anterior identificou patologias e cirurgias que poderiam ser previstas, cerca de duas mil consultas e 150 operações.

A campanha começou em 2009. “Ao logos desses anos, 65 mil pessoas foram atendidas e mais de quatro mil pessoas operadas”, diz Diego Posso, de 49 anos, paramédico especialista em traumatologia, presidente fundador da Monte Tabor e membro do ONG Bombeiros Sem Fronteiras.

– Neutro no conflito –

Além da pesada logística que precede cada missão, com um custo de cerca de 47 mil dólares, deve garantir que a entrada do barco na região tenha sido negociada entre a comunidade e os grupos armados que travam uma luta territorial, incluindo os guerrilheiros do ELN e narcotraficantes do Clã do Golfo.

Depois de mais de meio século de confronto, em 2016 foi assinado um acordo histórico que desarmou os rebeldes das Farc. Mas a paz longe de ser uma realidade neste litoral estratégico para o transporte de cocaína e a exploração clandestina de ouro.

Combates, cadáveres que flutuam no rio, feridos de bala e deslocamentos de populações aterrorizadas são cenas corriqueiras encaradas pelas forças armadas que patrulham a região em lanchas rápidas, admite uma fonte militar.

“Às vezes tem sido difícil chegar a povoados onde há combates, onde há bombas”, afirma Ana Lucía, enfatizando a neutralidade do San Raffaele.

Uma noite “muitos feridos” invadiram o barco. Um paramilitar tinha o braço “quase amputado”. Meses depois, em um povoado rio acima, uma pessoas a segurou pelo ombro: “Me assustei, mas era ele, que me agradeceu por ainda ter a mão”.

Desde o amanhecer até altas horas da noite, o pequeno bote motorizado do San Raffaele vai e volta do atracadouro até o barco. Quando chegou sua vez, uma mulher indígena subiu a bordo com o filho às costas. Em seguida vai até a popa da embarcação, que é coberta por uma lona de plástico, e aguarda atendimento ao lado de muitas pessoas nesta sala de espera improvisada.

– Água contaminada e infecções –

No segundo dos quatro níveis do San Raffaele funcionam os consultórios de clínica geral, ginecologia, pediatria e odontologia. Também há um laboratório de exames, uma farmácia e uma sala de operação e uma enfermaria com duas camas e unidade de esterilização.

Na parte superior ficam a cozinha, refeitório e quartos para os sete membros da tripulação. Abaixo, camarotes com quatro beliches onde dormem médicos, enfermeiras, psicólogos, etnoeducadores, antropólogos… “os anjos do Pacífico”, segundo os pacientes.

A hora do descanso está longe para o cirurgião pediátrico Carlos Melo, de 55 anos. Realiza uma cirurgia atrás da outra, não só de crianças. “São pessoas que não tem nada. É muito distante (…) a seis, oito horas de viagem numa canoa. Não há médicos”, diz modestamente este , voluntário há cinco anos.

No fim do corredor, em seu pequeno consultório, María Isabel Lozano realiza o décimo atendimento do dia. Examina o bebê de Yenny, diagnosticado com uma infecção de pele.

E essa é a realidade de muitos doentes pelas águas de San Juan, contaminadas pelos resíduos químicos da coca e da mineração ilegal, afirma médico Posso.

Muitos sofrem de “diarreias, doenças respiratórias”, acrescenta a pediatra. Aos 47 anos, ela não hesita em descer a escada de corda fixada na proa do barco para atender um prematuro ou desafiar de pé o balanço do bote, para mostrar a uma mãe como aplicar um inalador em seus três filhos.

Por falta de doações, ocorre de o San Raffaele não zarpar. Mas seu futuro imediato parece garantido por uma contribuição de 350 mil euros da União Europeia, que assegura entre dez doze missões em um ano.

É um estímulo para Posso: “os projetos são muitos, os sonhos imensos”. Um deles é trazer dos Estados Unidos um navio de 70 metros doado por empresários, para transformá-lo num hospital maior, com mais especialidades em atendimento. E já tem até um nome: “O Arcanjo”.

(Com AFP)

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