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Fronteira com a Colômbia, uma região afetada por todos os males da Venezuela

VENEZUELA

Jose Cohen

Agências de Notícias - publicado em 28/05/19

As autoridades colombianas estimam que 1,3 milhão de venezuelanos estejam no país

“Levo toda a minha vida na mala”, diz Norbert, enquanto aponta para a bagagem e as lágrimas lhe correm pelo rosto. Em apenas 100 metros, ele deixará seu país para trás e chegará à sua terra prometida, Colômbia.

Norbert se irrita quando perguntado por que deixou tudo para trás, pouco antes de cruzar a ponte sobre o rio Táchira, que marca a fronteira entre Venezuela e Colômbia, em teoria fechada há três meses.

“Você não sabe o que está acontecendo aqui?”, pergunta. “O que ganhamos aqui não dá para nada. Ganho 65 mil bolívares (cerca de R$ 47,00) e uma caixa de ovos (com 30 unidades) custa 30 mil bolívares (R$ 21,00) e um quilo de carne, 20 mil” (R$ 15,00), disse Norbert, que vai se encontrar com familiares em Bogotá.

Todos os dias, dezenas de venezuelanos percorrem o mesmo caminho sem retorno planejado, atravessando o limite de San Antonio del Táchira, um povoado venezuelano cujo principal atrativo é ser vizinho à Colômbia.

Segundo as Nações Unidas, desde 2015 três milhões de venezuelanos fugiram da pior crise econômica e política da história recente do país com as maiores reservas de petróleo do mundo.

As autoridades colombianas estimam que 1,3 milhão de venezuelanos estejam no país.

Em San Antonio e ao longo da fronteira com Colômbia – com cerca de 2.200 km – a hemorragia migratória é só parte do dia a dia.

No estado de Táchira é onde se concentram todos os males da Venezuela: negócios ilegais, corrupção, miséria e violência. Seus habitantes, como a oposição venezuelana e o governo colombiano, afirmam que nesta região se refugiam membros da guerrilha colombiana do Exército de Liberação Nacional (ELN).

Oficialmente, a fronteira com a Colômbia está fechada desde fevereiro por ordem do presidente venezuelano, Nicolás Maduro, que impediu à época a entrada da ajuda humanitária que o opositor Juan Guaidó, autoproclamado presidente interino e reconhecido no cargo por 50 países, tentava levar para a Venezuela.

Mas na prática, é muito permeável.

– Trânsito garantido –

“É muito sensível”, afirma Mariela (nome fictício), moradora de San Antonio. A Guarda Nacional, um corpo militarizado venezuelano, deixa “passar os idosos que vão buscar médicos na Colômbia e os estudantes também”.

“Se der dois mil pesos (colombianos, cerca de R$ 2,50) para o guarda, ele libera a travessia. Ou pode ir pela trilha”, uma passagem ilegal, explica Mariela.

Um pouco mais adiante, Maria arrasta um saco plástico que usa para levar seus pertences. Acabou de chegar da capital venezuelana, após 12 horas de viagem num ônibus até San Antonio. “A cada 15 dias venho de Caracas para comprar fraldas, porque não há por aqui”, conta.

Desde o começo do ano, os cortes de luz se multiplicaram no país, cujos hospitais carecem de muitos remédios. Caracas, até então privilegiada, ficou às escuras durante vários dias em março e voltou a ter quedas no fornecimento mais tarde.

Táchira e estado vizinho de Zulia, também na fronteira com a Colômbia, sofrem com a escassez de combustíveis desde há uma semana.

Maduro atribui aos Estados Unidos e suas sanções um prejuízo à economia de 30 bilhões de dólares. Para a oposição, a crise e a escassez de vários bens e serviços básicos se deve à negligência e corrupção do governo.

– Ruas vazias –

Se San Antonio de Táchira está cheio de gente, o panorama é outro em Ureña, 13 km ao norte e também conectada por uma ponte com uma cidade colombiana, Cúcuta.

Ali, a crise acabou com o comércio e os restaurantes. Ruas inteiras estão vazias sem os comerciantes e os habitantes que há alguns faziam o local fervilhar.

Uma moradora, que prefere o anonimato, diz que as autoridades locais decretaram toque de recolher às 18H00 (19H00 de Brasília), segundo ela, devido aos “bandos armadas e o ELN”. As autoridades locais não confirmam a informação, mas a presença de guerrilheiros na região é denunciada pelo exército colombiano, apesar de negada por Caracas.

Em Ureña, o único movimento que se percebe é próximo da ponte da fronteira, onde pequenos grupos de pessoas vão e vem entre os dois países. Uma delas assegura que é possível pagar dois mil pesos colombianos a um guarda venezuelano para garantir a passagem “sem problema”.

Lisa (nome fictício) chega trazendo leite do lado colombiano, com sua filha de três anos e meio.

“Tenho medo de dar a ela leite venezuelano para ela”, conta. “Não há luz e não há refrigeração, o que estraga o leite, mas continuam a vendê-lo assim mesmo”, lamenta.

(AFP)

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