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Uma obsessão chamada "slime"

Beatriz Camargo - publicado em 30/05/19

Febre entre as crianças, a brincadeira de criar massas coloridas requer limites e supervisão de adultos

No último Natal, minha sobrinha Giovana, de 10 anos, fez um pedido um tanto quanto inusitado: ao invés de presentes, me pediu que a levasse em uma papelaria para comprar algumas coisas que ela queria. Achei sua escolha interessante, afinal, logo ela iniciaria o 5.º ano e deveria estar entusiasmada para o inicio de um novo ano letivo.

Porém, receosa de que, entre outras coisas, ela escolhesse uma daquelas mochilas cujo preço ultrapassa R$ 300, e que normalmente faz parte de um caro conjunto que envolve ainda lancheira e estojo de lápis, pedi que fizesse uma listinha com as coisas queda queria, afinal, esse “papai noel” aqui ainda não ganhou na loteria.

De início, a relação de itens parecia comum: cola branca, cola transparente, glitter, corante, lantejoulas, massa para artesanato etc. Bom, pensei, essa mocinha já tem seu primeiro hobby e deve ser alguma coisa que envolva modelagem.

A lista, porém, tinha uma 2ª parte com coisas que eu, até então, achava que não eram vendidas em papelaria: espuma para barbear, água boricada, bicarbonato de sódio, hidratante corporal, vaselina, espátula de plástico, bacia e potes descartáveis. A partir daí fiquei confusa e resolvi perguntar a ela o que seria feito com tudo aquilo e a resposta veio com uma só palavra: S-L-I-M-E!

“Ahhhh, ok!”, foi minha reação. Ela queria fazer muitos slimes, então não havia problema, afinal, aquele era um presente de Natal. Nós duas saímos juntas comprar tudo o que o que estava na lista e, na volta, paramos na minha casa para almoçar e então veio um novo pedido: “tia, posso fazer slime?”

“Tudo bem”, respondi. Rapidamente ela pegou o celular e começou a reproduzir a receita que um sorridente rapaz ensinava num vídeo publicado em uma plataforma de streaming. O ponto principal da receita, segundo ele, era usar o tal do ativador, ou “misturinha mágica”, que nada mais era que pitadas de bicarbonato de sódio adicionadas à água boricada. Aquilo, segundo o “professor”, era um substituto ao bórax, que por sua vez, eu não fazia a mínima ideia do que era.

Pega bacia, despeja a cola branca, joga a tal da misturinha e mexe, e mexe, e mexe… e nada daquilo mudar de forma. No vídeo estava tudo certo, mas nossa realidade era outra. Será que o que faltava era o tal do bórax?

Ao revisarmos as proporções, descobrimos que ela havia colocado água na misturinha mágica. Refizemos a receita e recomeçamos. Dessa vez “sobrou” para a tia o trabalho braçal de mexer. Eu, que nem sou chegada a preparar bolos, passei a misturar aquela meleca branca com muito comprometimento e, quase dez minutos depois, começamos a vislumbrar a mudança na textura.

Vibramos juntas e ela então escolheu uma cor entre os corantes. E, após mais algumas mexidas, eis que nossa primeira slime estava pronta. Ela era de um forte tom de azul e deixava nossas mãos da mesma cor, mas nem ligamos. Estávamos orgulhosas e completamente absorvidas por aquela estranha, porém reconfortante, sensação de espremer aquela massa de textura lisa e muito macia. Era muito relaxante!

No início da tarde minha irmã veio buscá-la e, ao ver a quantidade de coisas que eu havia comprado, foi taxativa: “isso tudo não vai lá pra casa de jeito algum!” E esclareceu que a filha o tempo todo tentava reproduzir as receitas que encontrava na internet e que aquilo causava uma grande bagunça e sujeira por toda a casa.

Dei razão a ela, pois vi que aquela brincadeira poderia realmente ser um problema se não tivesse o acompanhamento de um adulto (e percebi que ela já não tinha mais paciência para participar da brincadeira). Minha sobrinha foi embora levando sua slime em um dos recipientes que compramos para tal finalidade e, ao nos despedirmos, ela deixou um recado: “tia, depois volto para fazermos mais!”

Desde que Giovana era bem pequena, sempre a estimulei com atividades didáticas e mantinha em casa uma caixa com muitos lápis de cor, canetinhas, tintas do tipo guache, aquarelas, pinceis, folhas brancas e livros para colorir. Portanto, parecia natural acompanhá-la nesse hobby que ela me apresentou.

Procurei informações a respeito e numa rápida busca pela palavra “slime” me deparei com o resultado de mais de 86 milhões de vídeos compartilhados sobre o tema. Aquilo era uma verdadeira mania entre a garotada em todos os cantos do planeta!

Entre uma infinidade de informações, facilmente me convenci de que aquilo se tratava de algo saudável e que tinha até um lado, digamos, terapêutico. Além de uma excelente atividade manual, a brincadeira de slime despertava a imaginação e a criatividade das crianças, e estimulava também o campo visual, sensorial, raciocínio, sistema cognitivo, entre outras coisas.

Pesquisei também sobre os possíveis riscos que a brincadeira poderia oferecer, uma vez que ela envolvia a mistura de vários produtos químicos. A partir da leitura de várias reportagens confiáveis, criei umas regrinhas que acredito serem úteis para todos os pais:

– A brincadeira só é permitida mediante a minha participação ou de outro adulto;

– O uso do “bórax”, ou borato de sódio, estava proibido – ele é um produto perigoso pois apresenta efeitos tóxicos para a saúde se ingerido, inalado ou manuseado;

– Sempre brincar em lugares arejados – a cola, que é a principal matéria-prima da slime, também pode apresentar toxidade se inalada diretamente, portanto manuseá-la em locais abertos é o mais adequado;

– Não colocar a massa na boca – além de ser resultado de vários produtos químicos, a slime também carrega toda a sujeira da superfície em que é manuseada, além de possíveis resíduos que estão em nossas mãos;

– Só usar corante alimentício –o risco de desenvolver alergia ao manusear esse tipo de corante é bem menor;

– Só pode brincar quem não tiver ferimento nas mãos – feridas abertas, queimaduras, pele irritada ou descamada podem permitir que os componentes químicos da slime sejam absorvidos pelo corpo, o que pode causar reações e alergias;

Slime velho vai para o lixo – como o slime é guardado em recipiente fechado para não perder sua umidade e endurecer, ele acaba se tornando o ambiente perfeito para a proliferação de culturas. Sendo assim, ao ter mudança na cor ou apresentar pequenos pontos de coloração diferenciada, a slime será descartada;

– Não pode pegar utensílios da cozinha para fazer slime – espátulas, bacias e vasilhas para o slime ficam guardados em local separado e não podem ser misturados com os que são utilizados no preparo e/ou acondicionamento de alimentos;

– A parte das “mãos na massa” nunca deve ultrapassar uma hora – limitar a duração da brincadeira evita que o contato da pele com a slime se estenda por muito tempo;

– Lavar sempre as mãos após a brincadeira.

Minha sobrinha prontamente aceitou minhas imposições e, como estava em férias, sua presença em casa se tornou constante e a partir daí desfrutamos de inúmeras tardes reproduzindo receitas da internet.

À medida que o estoque de cola ia se esvaindo, os potes transparentes eram preenchidos com slimes das mais diferentes texturas: tinha a fluffy, a clear, a butter, a glossy, a jelly, a frosty, a cloud… enfim, uma infinidade de tipos!

Para Giovana, o divertido não era só preparar um novo tipo de slime, mas também finalizar a receita acrescentando as mais inusitadas coisas: massa de E.V.A., bolinhas de isopor, miçangas, pingentes dos mais variados formatos, botões, berloques e até imitações de pedras preciosas.

Como a graça da brincadeira era o desafio de conseguir executar uma nova receita, ao final das férias tínhamos um verdadeiro estoque de potinhos, para a alegria de minha sobrinha e de meu pequeno Tomás, que adorava manipular aquela meleca colorida.

Com a volta às aulas, encerramos a produção, mas Tomás tinha um novo hábito: todos os dias, após o café, arrastava um banquinho para alcançar a prateleira onde ficavam guardados os potes de “pae”, o nome que ele deu às slimes e massinhas de modelar em geral.

Confesso que aquela quantidade de potes me incomodava, mas aos poucos passamos a distribuí-los entre as crianças conhecidas. Já o Tomás seguiu com sua pequena reserva que, passada algumas semanas, começou a me causar problemas: devido ao calor, aquelas slimes passaram a perder a consistência. Tentei “salvá-las” adicionando um pouco mais de ativador, mas elas foram ficando cada vez mais moles, grudando nas mãozinhas de Tomás e sujando todo o local em que ele brincava.

Chegou, enfim, a hora de dar adeus aquela brincadeira que marcou nossas férias. Como não existe um local de descarte apropriado aqui em minha cidade, deixei as vasilhas com slimes sem as devidas tampas para que endurecessem e, ao finalizar o processo, as descartei junto aos resíduos sólidos (confesso que não sei se foi maneira mais apropriada, mas não tive coragem de misturá-las junto ao lixo orgânico), já as vasilhas devidamente vazias e lavadas foram destinadas para o lixo reciclável.

Meu pequeno Tomás agora brinca com as tradicionais massas de modelar, que era também umas das atividades favoritas da minha infância. Já Giovana parece nem sentir saudades das slimes, sua paixão agora é andar na pracinha com seu novo patinete.

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CriançasEducação dos FilhosFilhos
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