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Onde estava Deus?

Alan Kurdi Valeria Oscar
Nilüfer Demir / Reprodução Twitter
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Cena de pai e filha mortos afogados ao tentarem cruzar fronteira chocou o mundo e trouxe de volta às redes este questionamento doloroso

Já vimos tantas imagens desoladoras e dilacerantes do sofrimento humano que, muito frequentemente, chegamos a dizer a nós mesmos e aos outros que não resta mais nada capaz de nos assombrar e chocar. A vida, no entanto, insiste em nos mostrar que o mal e a dor não são tão poderosos a ponto de nos anestesiarem por completo: o próprio fato de ainda nos sentirmos profundamente chocados com o mal e com a dor no mundo é um sinal de que, apesar de tanto buscarem assassinar nossa esperança, continua teimosamente vivo em nosso espírito o desejo intenso do bem e da felicidade, para nós e para nosso próximo. E vem dele a nossa rejeição e aversão ao mal que nos assombra.

A imagem excruciante que estremeceu milhões nestes dias é a dos corpos do jovem pai salvadorenho Óscar, de 25 anos, e da sua bebê Valeria, de apenas 23 meses, que morreram afogados ao tentarem migrar clandestinamente do México para os Estados Unidos cruzando o rio que separa os dois países.

Ao vê-los inertes, entre a água que os matou e a margem que os recebeu sem vida, numa foto em que salta aos olhos como um grito aos ouvidos o vermelho encarnado da peça de roupa de uma criança morta, é inevitável recordar o menino sírio Alan Kurdi, cujo corpo estendido na praia turca de Bodrum se tornou um dos mais despedaçadores símbolos da tragédia contemporânea das ondas migratórias empurradas pelo desespero e por obscuros oportunismos homicidas.

Dom Alfonso Miranda, bispo auxiliar de Monterrey e secretário geral da Conferência Episcopal Mexicana, se questionou junto com o mundo:

“Qual será o tamanho do sofrimento das pessoas da América Central para que, sem se importarem com mais nada, saiam atrás dos seus sonhos e arrisquem literalmente e absolutamente tudo?”

Com Óscar e Valeria viajava Tania, mulher do rapaz, mãe da menina. Tania sobreviveu.

A ela ainda coube, como se não bastasse tanta tragédia, contar à sogra, por telefone, em prantos e desesperada, que o pesadelo da miséria não tinha se transformado no sonho de um novo futuro, mas na realidade, ainda pior que o pesadelo, de que o próprio futuro estava agora morto, abraçado aos cadáveres de Óscar e Valeria.

O que podemos dizer agora a Tania, quando ela própria só consegue dizer que não resta nada a ser dito? O que dizer a tantas outras Tanias e Óscares, a tantas Valerias, e a tantas sogras, mães, pais, irmãos, parentes e amigos que perderam de modo brutal pessoas a quem, em tantos casos, amavam até mais do que a si mesmos?

Onde estava Deus?

Que Deus é esse, que parece um sádico, um assassino, um Ser cruel e perverso que deixa os próprios filhos sofrerem tanta miséria a ponto de arriscarem a vida até perdê-la de modo tão horroroso?

Não é esta, afinal, a justa e profundamente compreensível pergunta que tantos levantam no meio das tragédias? Onde é que estava Deus naquela hora, se é que estava mesmo em algum lugar?

Um dos aspectos mais intrigantes e fascinantes do cristianismo é que ele costuma responder com novas perguntas, ou, em todo caso, com parábolas e episódios que abrem uma brecha de luz, mas ainda nos deixam na penumbra para buscar a saída por nós próprios.

E não há no cristianismo um episódio mais claro-escuro que o momento em que o próprio Filho de Deus brada aos céus, na asfixia da morte de cruz sobre a colina do Calvário:

“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”

Poucos momentos da vida terrena do Deus feito homem parecem ter sido mais profundamente humanos do que esse. O momento dilacerante de sentir no âmago da alma não apenas a absurda ausência de Deus, mas a própria presença dessa ausência, que consegue ser ainda mais absurda. Porque há, e bem sabemos, ausências vividamente presentes, tangíveis, tocáveis; é uma ausência que está, que está conosco, que está em nós; é o próprio vazio, paradoxalmente pleno: o vazio completo a nos encher por inteiro; o nada, promovido a tudo; e o tudo reduzido a nada.

A fé católica nos diz que Deus permite: não é que Ele cause. Ele não causa o mal, nem o cria: Ele o permite. Mas permite por quê? Permite para quê?

Permite porque nos quis livres e para que de fato continuemos livres. Ele respeita a nossa liberdade a ponto de sermos livres até para negá-lo; para crucificá-lo, matá-lo e tentar sepultá-lo. Ele respeita a nossa liberdade de escolher entre os atos mais sublimes, como o de doar a vida para salvar a do próximo, ou os gestos mais abomináveis, como infligir um horror indizível a centenas, milhares, milhões de nossos irmãos em nome da nossa ganância. São escolhas nossas. São consequências das nossas escolhas.

Tem de haver algum sentido na experiência absurda de existir no tempo e no espaço, vivida entre os extremos da felicidade mais arrebatadora e do sofrimento mais devastador. Deus mesmo, afinal, quis viver essa experiência.

Deus mesmo quis encarar o mistério da própria “ausência”.

E Deus mesmo, feito homem e entregando-se à morte e morte de cruz, se permitiu explodir num brado sincero, insilenciável e indesviável:

“Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?”

Leia também: Dia de Finados sem fim: a morte do menino de bruços na praia

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Extraído e adaptado de Francisco Vêneto, “Um adeus devastador no fogo da Grécia: “Tenho medo, mamãe, mas vou ser forte

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