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Um Sínodo para a AMAZÔNIA?

POPE PERU
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Convertei-nos, ó Senhor Deus do universo, E sobre nós iluminai a vossa face! Se voltardes para nós, seremos salvos! (Sl 79,20)

Sendo bispo francês no Brasil, desde 2003, e na Amazônia desde 2006, agradeço ao Papa pela oportunidade deste Sínodo para a Amazônia. Peço a Deus que esta Assembleia dos Bispos ao redor dele ajude nossas Igrejas particulares a oferecer aos nossos povos um secundo sopro, capaz de integrar as dimensões materiais e espirituais dos nossos problemas. Sem ele, a nossa região não poderá superar os desafios que está enfrentando. Devemos aprender a apresentar o radicalismo evangélico e a perseverança que surgem a partir de uma real busca da santidade da vida individual e comunitária, leiga ou consagrada. Somente este “fermento” permitirá as indispensáveis mudanças exigidas em nossa “massa”, que é ao mesmo tempo única no mundo, e paradimatica de toda a nossa família humana.

A Situação da AMAZÔNIA e da IGREJA

1. O problema da Amazônia não é essencialmente ecológico, social, econômico, etnológico, ou político, é antropológico e espiritual: não se entende facilmente o que é a pessoa humana, seu valor, sua dignidade e seu destino terrestre e eterno. Por causa das sucessivas migrações que ocorreram ao longo dos últimos dois séculos, os seres humanos são freqüentemente vistos apenas como uma ferramenta de trabalho. A ganância de um capitalismo selvagem, a ausência do direito e a escassez de evangelizadores travaram uma guerra predatória contra toda a harmonia, e negaram a dignidade de toda criatura, seja ela mineral, vegetal, animal ou humana! As ameaças, aqui e agora, são tão grandes que o Papa Francisco viu nelas uma situação paradigmática daquilo que o nosso planeta pode ser levado a sofrer, se mudanças de comportamento não forem adotadas urgentemente. Será exagerado pensar que a presença da Igreja, no coração deste desafio amazônico pode ser considerada como uma misericórdia de Deus, para trazer luz e fazer acontecer a graça? 

2. A situação social na Amazônia brasileira. A população da Amazônia brasileira (23 milhões) é 11,1% da população do Brasil (207 milhões). A população indígena na Amazônia brasileira é estimada a 700.000 habitantes, ou 0,33% da população brasileira, e 3, 4% da população amazônica brasileira. A nossa região é um mosaico de povos, de culturas, de religiões. Os mais antigos habitam aqui já faz 11.000 anos. No século 20, após uma sucessão de ondas migratórias, os militares brasileiros no poder (1964-1985) fizeram do desenvolvimento da Amazônia um projeto de prestígio, em torno do slogan: “A Amazônia, uma terra sem homens, para homens sem terra!” Por isso, a grande maioria da atual população não passa de 60 anos de presença, aqui. O “documento de trabalho” do nosso Sínodo descreve com bastante exatidão esta situação social da Amazônia: Imensos sofrimentos no passado e no presente, um imenso canteiro de obras, com muitas riquezas e ameaças muito sérias. 

Desejada pelos nossos migrantes como a Terra Prometida, a nossa Amazônia trouxe oportunidades àqueles que saiam de terras áridas, mas foi a preço de muitas dores e até de sangue. As diferenças entre as mais diversas culturas originais, que por um lado são uma riqueza humana, também trouxeram o seu peso. A migração não levou ao paraíso sonhado! Hoje, os netos e netas dos migrantes ainda devem aprender a olhar para a frente, e não mais para trás. Uma nova cultura regional está nascendo diante dos nossos olhos. Cabe-nos contribuir para que o melhor (antes que o pior) dessas culturas originais dos nossos povos indígenas e migrantes cresça e possibilite um futuro mais digno. Mas, a competição com a cultura globalizada não favorece a tarefa!

3. A Igreja na Amazônia brasileira. Será que temos alguma ideia do que é uma diocese ainda na primeira evangelização, com seus 50 a 100 anos de idade, numa situação sócio-jurídica tão jovem? Os migrantes que vieram para armar as suas tendas eram cristãos. Eles chegaram, aos milhares, de todos os Estados do Brasil; mas, na caravana faltavam os missionários. O seu desenraizamento foi tão grande que toda a evangelização teve que ser retomada a partir de zero, para ser transmitida às gerações seguintes. Mesmo hoje, há tudo para se maravilhar, e tudo para viver indignado! Tudo deve ser pensado e realizado, como em qualquer região de primeira evangelização. Dependendo do local, o número de sacerdotes começou a subir 40 anos atrás, mas muitas dioceses ainda demoram para se tornar autossuficientes… Não há tempo a perder para colocarmos as mãos na obra, e fazer esta nova cultura que nasce se tornar, um dia, uma cultura digna da pessoa humana filha de Deus! 

Ser missionários do Evangelho na Amazônia. Para todos aqueles que botam a mão neste arado, isso significa abandonar sua vida à “loucura de Deus” mais sábia do que os sábios. Sonhar e crer, ao mesmo tempo! É o misterioso otimismo do missionário: Ele vê o “pecado do mundo” na massa! Mas, também percebe as “sementes do Verbo” presentes nos corações e nas culturas. Mais cedo ou mais tarde, o missionário começa a perceber os primeiros sinais do Reino que está levedando nas jovens comunidades. À tradicional sede de Deus dos nossos migrantes, sucedem as autênticas conversões:  a saída do comodismo, a descoberta de novas razões para viver, servir e amar, o acolhimento ao menor, a inclusão do recém-chegado, a solidariedade entre os discípulos, sejam eles ricos ou pobres, o cuidado com a fé dos humildes, a importância da fidelidade no matrimónio, o aparecimento de vocações consagradas, etc. Estes são sinais que, na sua humildade, não enganam. Eles anunciam uma maturidade que vai crescendo. Com seu coração, o missionário abraça então este imenso canteiro de obras do Espírito, com tantos motivos de entusiasmo quanto preocupações que parecem insuperáveis! 

Qual Unidade sonhamos para este mosaico de povos diferentes? Nós, missionários, devemos atrelar o nosso sonho à Esperança em Deus: Através de conquistas e tragédias, a Cidade de Deus vai misteriosamente se edificando em nossas terras, por caminhos imprevisíveis que – muitas vezes – não são nossos; mas porque Deus é fiel à sua Promessa, diz a Palavra de Deus! 

Chamado a ser Pai de todas as nações, Abraão foi o primeiro gigante desta atitude em resposta a esta Promessa divina, sem saber por onde passaria, nem para onde chegaria: “Ele partiu sem saber para onde estava indo, escreve são Gregório de Nyssa, e foi porque ‘ele não sabia para onde estava indo’ que ele sabia que estava no caminho certo. Pois ele tinha, então, a certeza de que não se deixava levar pelas luzes de sua própria inteligência, mas por Deus!”

Nossa Senhora não desmereceu do seu antepassado: entre risos e lágrimas, ela acolheu e acreditou na Promessa do Filho-Rei de um povo a reunir e unificar, e ela cantou as “maravilhas de Deus”

São Paulo enfim, o Apóstolo das nações, como os dois anteriores, bebeu antes de nós nesta fonte da Promessa da Unidade entre judeus e pagãos ambos convertidos. Entregou-se de corpo e alma a esta canga. E tornou-se o profeta da filiação divina e da fraternidade universal que alicerçam o Reino! 

No meio desta difícil multiplicidade cultural nossa, aprendemos a reconhecer a única Unidade prometida. A que resulta de uma conversão a Cristo, não de uma imposição. É a Unidade a qual se chega quando todos já não vivem para si mesmos, mas com os outros, para todos. Realiza-se na caridade, quando cada um reconhece a “sede de ser” do outro, simpatiza com o que é bom ao redor de si, sem procurar tomar o lugar do outro. Amar os outros sem querer assimilá-los a uma cultura e sim a Cristo! Esta unidade, nos diz S. Paulo, vem de Cristo Jesus, quando Ele é autenticamente acolhido. Ela constrói o Corpo de Cristo Total

O que ESPERO deste SÍNODO

4. “Novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. A repetida insistência do Papa Francisco em relação às motivações espirituais, na sua Carta “Laudato si”, me ajuda a explicitar a minha expectativa

“Desejo propor aos cristãos algumas linhas de espiritualidade ecológica que nascem das convicções da nossa fé, pois aquilo que o Evangelho nos ensina tem consequências no nosso modo de pensar, sentir e viver. Não se trata tanto de propor ideias, como sobretudo falar das motivações que derivam da espiritualidade para alimentar uma paixão pelo cuidado do mundo. Com efeito, não é possível empenhar-se em coisas grandes apenas com doutrinas, sem uma mística que nos anima, sem “uma moção interior que impele, motiva, encoraja e dá sentido à ação pessoal e comunitária”. (n. 216). 

Como descrever essas “motivações espirituais” tão importantes para apontar os “novos caminhos”? São as convicções sobrenaturais que a fé, a esperança e a caridade enraízam na espiritualidade cristã e que são capazes de gerar os comportamentos do “homem novo”. Neste sentido, distinguem-se das motivações antropológicas naturais “como o céu está acima da terra, e os pensamentos de Deus acima de nossos pensamentos”. Para o nosso Papa, a contribuição específica da Igreja deve ser a de trazer essas motivações espirituais, pois elas são o patrimônio da Igreja. Elas serão lançadas como sementes e como alicerces para as indispensáveis mudanças no comportamento. Elas sustentarão e enriquecerão as motivações antropológicas naturais: o respeito dos povos, o sentido do trabalho e da família, a justiça, a ecologia, etc. Elas são “uma bela contribuição para a tentativa de renovar a humanidade.” Muito além de um conjunto de leis humanas, elas são uma luz e uma vida a ser acolhida, testemunhada e transmitida. O ser humano e a sociedade só crescem e melhoram desta forma. Antes do Papa Francisco, João Paulo II, já nos havia alertado, 40 anos atrás, que deveríamos nos tornar “mais humanos, mais fraternos, mais filhos e filhas de Deus”

5. O “documento de trabalho” do Sínodo surpreende: Obviamente, é o trabalho de peritos: sociólogos, etnólogos, economistas, biblistas, altermondialistas, ONGs, etc. Cada um desenha o seu “mapa” de nossos povos: cada qual segundo sua espécie! A quantidade de sugestões em vista de melhorias sociais assusta! Porém, o Documento não explicita a Santíssima Trindade como único “princípio e termo” digno de toda pessoa humana, nem Jesus-Cristo como “Luz dos Povos”, nem a Redenção dos povos pelo seu Sacrifício redentor, nem a Adoção filial, nem a Incorporação em Cristo, nem a Igreja reconhecida como “sacramento universal da salvação”, nem a Herança eterna… Será a partir destas pedras e de tantas outras do mosaico da Boa Notícia do Reino, que nós Pastores teremos que oferecer o alicerce antropológico e espiritual que permitirá uma ligação autêntica entre “fé e vida” em nossa Amazônia. Não podemos guardar para nós o patrimônio recebido! Somente com esta condição, “novos caminhos” poderão, então, se abrir para os nossos povos…

Além das numerosas sugestões trazidas pelo “documento” sobre o que está certo ou errado, justo ou injusto, arriscado ou assegurado, diante das múltiplas gangrenas que judiam a Amazônia, sabemos que a única solução consiste em despertar homens e mulheres, cristãos leigos e consagrados, que sejam determinados a converter sua vida, e oferecê-la numa autêntica busca da santidade. Pois, é o nome cristão da ecologia integral! A Amazônia precisa de um secundo sopro, capaz de integrar as dimensões materiais e espirituais dos nossos problemas! Ele há de se manifestar através do amor a Deus acima de todas as coisas, e de cada um dos três “cuidados” destacados pelo Papa Francisco: O amor incondicional na família, o cuidado da misericórdia em favor do mais necessitado e do cuidado da ecologia em favor da Casa Comum. A Amazônia precisa de cristãos habitados pela alegria de ser filhos e filhas de um Pai que ultrapassa tudo o que se possa imaginar! Cristãos movidos por uma infinita gratidão que cultivem em sua vida familiar e suas responsabilidades uma comunicação benevolente, em vez do egoísmo, da busca do prazer e da arrogância. Cristãos em que a honestidade seja mais forte do que a ganância através de corrupções pequenas ou grandes. Cristãos para quem a implantação da justiça social seja uma emergência incontornável, etc. Cristãos que lutam contra todas as escravidões modernas, inclusive as dos vícios e das dependências, e que manifestem o cuidado de “gerenciar” a criação como ela merece, etc.

Nós teremos que ir além das luzes das ciências humanas e das lições “baseadas em uma leitura própria da Bíblia (Doc., n. 137), seja esta fundamentalista ou horizontalista. Porque a Promessa de Deus quer nos levar para mais longe e mais alto. E a fome de nossos povos não seria atendida como convém! O trabalho do nosso Sínodo não pode deixar de ser atravessado pela Boa Notícia integral que é Jesus Cristo, sua pessoa, sua mensagem e o seu Reino! Pois, cabe ao nosso Sínodo fazer acontecer no Advento da nossa região amazônica as duas faces da realização da Promessa: a filiação divina e a nova fraternidade, já trazidas por Jesus, mas que ainda devem ser encarnadas na história de cada homem e de toda sociedade. A Unidade da Amazônia que sonhamos está a este preço… Adveniat Regnum tuum! 

É essa iluminação que, penetrando a inteligência e a consciência, permitirá às nossas comunidades eclesiais “samaritanas” da Amazônia dar passos de gigante em direção ao Reino! 

6. Uma questão provocada pelo “documento de trabalho” agita a mente das pessoas: Será que vamos ser autorizados a ordenar sacerdotes, homens casados? 

Nossa Amazônia ainda está pelejando para abraçar com entusiasmo realidades como o “compromisso para a vida inteira”, o “celibato em vista do Reino dos Céus” que contribuem para este radicalismo evangélico! 

O Papa Francisco nos pediu propostas “corajosas e ousadas”. A coragem, a virtude da força, serve para enfrentar de forma mais coerente as realidades mais difíceis, aquelas que exigem heroísmo. Vamos então dispensar os requisitos de “compromisso para a vida inteira”, e do “celibato em vista do Reino dos Céus” para o exercício do sacerdócio, ou seja dispensar de viver o sacerdócio com Jesus e como Ele, nunca sem Ele, nem diferentemente dEle

Muitas outras dioceses do mundo, ao longo dos séculos, sentiram a necessidade de que sacerdotes mais numerosos pronunciassem estas palavras que sustentam a fidelidade de todos nós: “Este é o meu corpo entregue, … Este o cálice do meu sangue derramado!” Essas dioceses não recuaram diante desses requisitos de “compromisso para a vida inteira”, e do “celibato em vista do Reino dos Céus”. Elas venceram a batalha. Será que nós não poderemos também vencê-la? 

A resposta àquela pergunta que agita a mente das pessoas virá do Papa Francisco… 

7. O que eu peço a Deus é que os Padres sinodais, reunidos na unidade com o Santo Padre, façam ressoar o sonho, amarado na Esperança em Deus, e que abrirá “os novos caminhos”! O nosso Sínodo terá que fazer-nos haurir do tesouro da fé, da esperança e da caridade. Nele, apresentaremos  aos nossos povos o secundo sopro, capaz de integrar as dimensões materiais e espirituais e o chamado à santidade que transformam as vidas e as sociedades! Então, as nossas comunidades e os povos amazônicos abraçarão com radicalismo evangélico e perseverança esta imensa batalha interior e exterior, paradigma de tantas outras batalhas que ainda precisam ser enfrentadas, em outras partes do mundo e em outros assuntos… 

***

Dom Dominique YOU,

Bispo de Santíssima Conceição do Araguaia, Brasil.

domdominique.you@gmail.com

 

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