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Milhares de imigrantes da Venezuela vivem em abrigos improvisados no norte do Brasil

VENEZUELA

©UNICEF/ECU/2018/Arcos (CC BY 2.0)

Vatican News - publicado em 29/08/19

“Eles vêm caminhando de Boa Vista para cá ou pegam carona. Chegam aqui na Caritas com suas malas, com as crianças e sem recurso nenhum"

A crise na Venezuela continua intensificando o fluxo migratório para outros países, como o Brasil, através dos Estados que fazem fronteira, como o Amazonas e Roraima.

Segundo o Pe. Jaime Carlos Patias, Conselheiro Geral da Congregação dos missionários da Consolata para a América, “centenas de imigrantes passam a fronteira todos os dias, pelo município de Pacaraíma, ao norte de Roraima. Nessa porta de entrada, segundo dados da Operação Acolhida, passaram quase 7 mil imigrantes no último ano – uma média de 500 a 700 por mês”. Mas o número pode ser bem maior, alerta o sacerdote, que se preocupa ainda mais com a situação de risco que essas pessoas sofrem, “devido à precariedade das condições dos que pedem refúgio”.

No Amazonas, outro reduto dos venezuelanos, a assistente social que trabalha na Cáritas de Manaus, Janaína Paira, que é também mestre e doutoranda em Serviço Social, explica como eles chegam até o Estado:

“Eles vêm caminhando de Boa Vista para cá ou pegam carona. Chegam aqui na Caritas com suas malas, com as crianças e sem recurso nenhum. Todo o dia a gente abre o portão às 8 da manhã. Eles entram e aguardam aqui. Até fazer toda a triagem, a gente serve um café com bolachas, que é um lanche, porque eles chegam com muita fome. Às vezes vêm só com a roupa do corpo, então, vêm com muita dificuldade. E a questão emocional é bem abalada. Nós temos quatro assistentes sociais que fazem a escuta qualificada. Nessa hora, eles relatam todo o trajeto até chegar aqui no Brasil, as dificuldades que encontraram e, a partir daí, a gente faz os encaminhamentos para o setores que necessitam de cada ação.”

Crise sem precedentes

O Pe. Jaime comenta que visitou a Venezuela e “fica evidente a situação complexa em que vive o país. Diante da grave crise econômica, política e social, o povo parece anestesiado e sem forças para reagir depois de tantas tentativas fracassadas. A falta de recursos causa a deterioração dos serviços básicos em uma economia surreal com o menor salário do mundo (apenas 3,50 dólares)”.

O depoimento da assistente social da Cáritas de Manaus reforça a triste realidade, ao contar sobre os motivos da migração dos venezuelanos:

“Eles principalmente relatam que vêm para cá pela questão da fome, porque com os recursos que eles têm lá não dá pra comprar quase nada de alimentação. E, aqui no Brasil, por mais difícil que seja, pelo menos eles conseguem o mínimo: recebem doações; têm várias campanhas da Igreja que, pelo menos, eles ganham sopa e alimentação nas ruas, onde estão ficando. E o pouco que conseguem trabalhar aqui, conseguem converter em alimentação. O principal é a alimentação e a questão da doença, porque muitos estão vindo com muitos problemas de saúde: diabetes, HIV, câncer, e muitos casos de câncer em estágios já bem gravíssimos. E eles têm conseguido esse acesso à saúde aqui, além de fazer os tratamentos.”

Como era de se esperar, afirma Pe. Jaime, em Boa Vista e Pacaraíma também houve um impacto importante nas áreas de saúde, educação, emprego, habitação e serviços sociais: “nos hospitais, a presença de venezuelanos é grande e, infelizmente, muitos são abandonados à própria sorte”, acrescenta o missionário.

Abrigos provisórios

Diante da situação vivida no país de origem, estima-se que mais de 4 milhões de venezuelanos já deixaram o país. No Brasil, segundo dados oficiais reportados por Pe. Jaime, existem mais de 180 mil imigrantes, “número pouco expressivo se comparado ao da Colômbia que já recebeu cerca de 1,5 milhão. No Estado de Roraima, principal porta de entrada no Brasil, se estabeleceram cerca de 50 mil venezuelanos”.

A Operação Acolhida, coordenada pelo Exército Brasileiro com a ajuda do Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) e com o apoio inclusive da Igreja católica, abriu 13 abrigos em Boa Vista e Pacaraíma, mas acolhe apenas 6,5 mil venezuelanos, comenta o missionário, que denuncia: “sem vagas para todos, milhares deles vivem em abrigos improvisados, na rua, ao redor da Estação Rodoviária, em casas alugadas e em pelo menos 15 ocupações. Duas delas com mais de 600 pessoas cada. O Brasil concede visto humanitário aos imigrantes, mas não consegue acolher e integrar todos”.

Em Manaus, a assistente social também aponta dificuldades em abrigar os imigrantes:

“Infelizmente nós só temos três abrigos. Então, muitos dos venezuelanos estão em situação de rua, alojados na rodoviária. Essa situação do alojamento é que é mais difícil aqui em Manaus porque, por exemplo, Boa Vista tem 11 abrigos e Manaus só tem três. E nós já temos uma estimativa de 14 a 15 mil venezuelanos aqui no Brasil.”

Uma das ações para desafogar a cidade de Boa Vista, comenta o missionário da Consolata, é a “interiorização” de venezuelanos em outros estados. “Em abril de 2018, um programa de realocação foi iniciado pelas Forças Armadas em coordenação com autoridades federais e locais, o ACNUR, outras organizações da ONU, a sociedade civil e o setor privado. Segundo dados oficiais, até agora mais de 15 mil venezuelanos foram transferidos de Roraima para mais de 50 cidades onde há mais oportunidades de integração”.

A Diocese de Roraima, por meio da Caritas, o apoio da CNBB e outras entidades, também auxilia no processo através do projeto “Caminhos de Solidariedade: Brasil & Venezuela”. De 2018 até hoje, “o programa levou cerca de 350 venezuelanos para 11 dioceses de outros Estados”, diz Pe. Jaime.

Missão

Projetos especiais da Igreja ajudam a dar respostas práticas às emergências humanitárias referentes aos migrantes e refugiados, como o da equipe itinerante do Instituto Missões Consolata (IMC), que atua em Boa Vista desde maio de 2018. Atualmente, o trabalho está sendo desenvolvido no espaço conhecido como Ka Ubanoko (dormitório comum, na língua warao). É um complexo esportivo em construção e abandonado que foi ocupado há quase 6 meses por mais de 600 venezuelanos, dentre os quais, 350 indígenas Warao e E’ñepa, e 250 não-indígenas.

Pe. Jaime conta que no grupo há 190 crianças e que “todos estavam fora dos abrigos, muitos viviam à sobra de cajueiros no Bairro Pintolândia”. O Ka Ubanoko é coordenado por seis caciques, numa experiência de gestão coletiva mas que conta com o apoio de diversas instituições, organismos e da assistência religiosa.

Os missionários da Consolata ajudam na alimentação das crianças de 6 a 12 anos, principalmente para não detectar mais casos de desnutrição. Em instalações de uma comunidade católica próxima, são oferecidos dois almoços por semana, acompanhados de formação humana, cultural e de higiene. “Um grupo de voluntários venezuelanos prepara as refeições e os pais se encarregam de levar as crianças até o local”, explica o Pe. Jaime. Nesta semana, a Pastoral da Criança também começou a oferecer alimentação complementar para as crianças de 0 a 5 anos.

O Conselheiro Geral dos missionários da Consolata reforça, assim, o convite do Papa Francisco de que “é urgente ‘acolher, proteger, promover e integrar’. Muito mais do que vizinhos, os venezuelanos são nossos irmãos e irmãs”, finaliza o Pe. Jaime, que ganha força nas palavras de Janaína Paira, de Manaus:

“A Igreja tem por missão justamente auxiliar esses mais vulneráveis e tentar empoderá-los. Então o que a gente faz aqui, como vocês viram, nós atendemos esse quantitativo, mas nem todos conseguiram auxílio financeiro. Pelo menos a parte de orientação, de encaminhamento, de mostrar os direitos que eles podem ter acesso aqui no Brasil, isso a gente faz.”

“É a missão da Igreja mesmo! A gente, enquanto Igreja católica, a nossa missão é auxiliar esses mais vulneráveis.””

(Vatican News)

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