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Muito além do desenho animado: qual é a realidade da fé católica em Madagascar

pope madagascar
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País acaba de receber a visita apostólica do Papa Francisco, o segundo pontífice a viajar para essa peculiar nação insular do sudeste da África

A viagem apostólica do Papa Francisco à grande ilha de Madagascar despertou curiosidade a respeito desse país africano cujo nome se tornou popular ao virar título de desenho animado da Disney.

Mas qual é a realidade desse povo no tocante à fé?

O Vatican News publicou abrangente matéria sobre a situação da Igreja no país. É dessa matéria que extraímos as informações seguintes.

Qual é a situação da Igreja Católica em Madagascar?

A Ilha de Madagascar tem população total de cerca 23,6 milhões de habitantes, dos quais 8,23 milhões se declaram católicos (em torno de 35%).

São 22 Circunscrições Eclesiásticas e  438 paróquias, com mais de 9 mil centros pastorais em todo o país.

Madagascar tem 25 bispos (31 de julho de 2019), 892 sacerdotes diocesanos e 855 sacerdotes religiosos. Os religiosos não sacerdotes são 735, as religiosas professas 5.006, os membros de Institutos Seculares 133, os missionários leigos 1.703 e os catequistas 14.395.

O arcebispo da capital, Antananarivo, é dom Odon Marie Arsèn Razanakolona, nascido em Fianarantsoa em 24 de maio de 1946. Foi ordenado sacerdote em 28 de dezembro de 1975, consagrado bispo em 11 de abril de 1999 e promovido a arcebispo em 7 de dezembro de 2005.

Quanto às vocações sacerdotais, há 930 seminaristas menores e 1.977 seminaristas maiores.

A Igreja Católica é proprietária ou administra 5.367 escolas maternais e primárias, 1.024 médias e secundárias e 62 superiores e universidades. Os estudantes nos maternais e escolas primárias são 479.421; nas escolas médias e secundárias, 202.144; e em institutos superiores e universidades, 16.479.

Quanto aos centros caritativos e sociais da Igreja ou dirigidos por eclesiásticos ou religiosos, há 20 hospitais, 217 ambulatórios, 24 leprosários, 26 casas para idosos e pessoas com invalidez, 154 orfanatos e jardins da infância, 31 consultórios familiares, 7 centros especiais de educação e reeducação, além de 32 outras instituições.

A história da Igreja em Madagascar

Séculos XVI-XIX: As origens

O cristianismo chegou a Madagascar no século XVI com os padres dominicanos, seguidos pelos jesuítas e lazaristas e, no século seguinte, pelos missionários de São Vicente de Paulo. A evangelização na ilha sofre uma brusca interrupção com o assassinato de todos os missionários franceses em 1674.

Na primeira metade do século XIX, começam a entrar na ilha também as primeiras Igrejas protestantes e têm início novas perseguições anticristãs.

A evangelização é retomada de forma estável na segunda metade do século, após a conversão ao cristianismo de Ranavalona II em 1869. O anglicanismo e o protestantismo (luteranos, reformados e quakers) se difunde na ilha.

Os jesuítas, já presentes, haviam levado em frente a evangelização clandestinamente em anos anteriores. Unem-se a eles os lassalistas, lazaristas, espiritanos, salesianos, maristas e religiosas de diversos institutos.

Séculos XX-XXI

Em 1925, são realizadas as primeiras ordenações de sacerdotes nativos. Um deles se tornará o primeiro bispo malgaxe, em 1939.

Em 1969, três anos após o estabelecimento de relações diplomáticas com a Santa Sé (1966), Madagascar tem seu primeiro cardeal: Jérôme Louis Rakotomalala.

Durante os séculos XX e XXI, após a instituição da hierarquia eclesiástica (1955), são eretas outras circunscrições eclesiásticas: a última é a diocese de Maintirano, sufragânea de Antananarivo, criada em 8 de fevereiro de 2017 pelo Papa Francisco, totalizando 5 Arquidioceses metropolitanas e 17 Dioceses sufragâneas.

Em 1989 (28 de abril a 1º de maio), o Papa João Paulo II faz a primeira e até então única viagem de um pontífice a Madagascar. Ele beatifica Victoria Rasoamanarivo (1848-1894), a primeira beata nascida no país.

Em 14 de abril 2018, a Igreja em Madagascar celebra seu segundo beato: Lucien Botovasoa, professor do ensino fundamental e terciário franciscano morto como vítima de ódio à fé em 1947 durante as perseguições que acompanharam a luta pela independência da França.

A Igreja em Madagascar hoje

Uma Igreja pobre para os pobres

Os cristãos em Madagascar são pouco mais da metade da população, sendo os católicos 35%. Cerca de 20% são protestantes. Os muçulmanos são de 5% a 7%. Há também forte presença de cultos tradicionais.

Numerosas congregações católicas estão presentes no país, entre as quais os jesuítas, dominicanos, salesianos, lassalistas, lazaristas, espiritanos, maristas, as irmãs de Cluny, as carmelitas, as missionárias franciscanas de Maria. O trabalho é intenso na educação, saúde, caridade e promoção humana.

O país é um dos mais pobres do mundo, com padrão de vida inferior ao registrado na África Subsaariana. O compromisso da Igreja local envolve ajudar a população a viver uma vida digna, reduzindo a violência, a pobreza e as doenças.

A prioridade da pastoral juvenil

Sendo a condição da infância no país realmente dramática, a Igreja investe muita energia na educação e formação catequética, construindo escolas nos povoados, organizando cursos de formação para os docentes e apoiando as crianças e jovens que desejam estudar.

Os bispos consideram muito frutífera a participação de jovens malgaxes nas Jornadas Mundiais da Juventude, motivo pelo qual decidiram lançar uma JMJ Nacional. A última foi em outubro de 2018 em Mahajanga, com o tema “Não temas, Maria, porque encontraste graça diante de Deus”. O Papa Francisco enviou mensagem de vídeo incentivando os jovens a serem “mensageiros de paz e de esperança”.

Em maio de 2017, o primeiro “Fim de Semana para os  Jovens”, organizado pela Educação para a Vida e o Amor, da diocese de Fianarantsoa, reuniu jovens de 18 a 30 anos para refletir sobre amor e sexualidade da perspectiva cristã.

O primeiro “Dia das Crianças Malgaxes” foi organizado em 2013 em Antananarivo pela Comissão Episcopal para o Apostolado dos Leigos, com o tema “As crianças que acreditam em Cristo e o comunicam entre elas são a sementeira da Igreja”.

A presença da Igreja malgaxe na mídia

Quase todas as 22 dioceses de Madagascar têm hoje a sua própria emissora.

Entre estas está a Rádio Dom Bosco de Antananarivo, fundada em 1996 pelos salesianos: transmite 24 horas por dia e é a emissora católica mais ouvida no país. A diversificada programação vai da educação religiosa às atrações culturais e musicais, além de notícias sobre atualidade.

Em 2015, a Rádio Maria Madagascar iniciou suas transmissões na Diocese de Ambositra, contribuindo para a educação na fé católica e para a unidade, reconciliação e promoção do bem-estar humano. A emissora nasceu graças à generosidade dos ouvintes que apoiaram a “Mariathon”, campanha de arrecadação de fundos realizada em 2013 e 2014.

Relações entre Estado e Igreja

A Constituição de 2010 reitera a laicidade e a neutralidade do Estado no que tange às religiões, embora representantes do governo tenham sido acusados de organizar eventos religiosos para fins politiqueiros.

Para serem reconhecidas, as organizações religiosas devem ter ao menos cem membros e um conselho eleito, formado por cidadãos de Madagascar. Existem hoje 283 agremiações religiosas oficialmente registradas.

Em janeiro de 2017, o cardeal Pietro Parolin visitou a ilha por ocasião dos 50 anos das relações diplomáticas com a Santa Sé, ocasião em que o então presidente Hery Martial Rajaonarimanampianina expressou ao secretário de Estado vaticano a sua gratidão pelo que a Igreja Católica realiza no país, especialmente com seus centros educacionais, de saúde e de caridade. O cardeal Parolin confirmou a disponibilidade da Igreja de ajudar na assistência necessária a todas as pessoas, em particular aos mais pobres e marginalizados.

Relações com outras Igrejas cristãs

O Episcopado malgaxe mantém boas relações com as outras Igrejas cristãs (luteranos, anglicanos, reformados), compartilhando tanto o compromisso com a reconciliação nacional quanto os novos desafios apresentados pela proliferação de seitas.

Relações com o islã

Em uma entrevista à Fundação Ajuda à Igreja que Sofre, em junho de 2018, o cardeal Tsarahzana alertou para “um crescimento tangível do islamismo”, que atrai principalmente os jovens com promessas econômicas: quem se converte ao islamismo recebe incentivos como assistência financeira e educação gratuita, que inclui lições sobre o Alcorão. Paquistão, Turquia e Arábia Saudita parecem ter papel significativo na divulgação do islã em Madagascar. Cerca de 5 a 7% da população é hoje islâmica.

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