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Entenda por que Piñera não consegue aplacar a crise no Chile

CHILE
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Encurralado por protestos maciços e com a menor popularidade registrada por um presidente chileno na democracia (14%), Piñera deveria “convocar um grande pacto”

O presidente direitista Sebastián Piñera não consegue aplacar os protestos maciços e violentos no Chile, iniciados há 11 dias e que deixaram até o momento 20 mortos, apesar de ter feito concessões impensáveis semanas atrás, afirmam analistas.

Piñera tentou conter a crise com uma série de medidas sociais – que incluíram o aumento na pensão básica e o congelamento das tarifas dos serviços públicos – anunciadas no auge da convulsão social na semana passada.

Nada disso fazia parte de seu programa de governo e tampouco foi suficiente para frear as revindicações por profundas reformas no sistema econômico chileno, que se mantém como uma herança da ditadura de Augusto Pinochet (1973-1990).

– Má avaliação inicial –

Os protestos eclodiram há duas semanas, como uma convocação maciça de estudantes secundaristas para evitar o pagamento de passagens do metrô, em repúdio à alta do preço das mesmas. O governo decidiu manter o aumento e ameaçou aplicar uma severa lei de segurança interior.

“Foi feita uma leitura inadequada do que efetivamente acontecia no Chile e se confundiu, primeiro, esta explosão social com uma explosão geracional. Ou seja, aqui somente estava se manifestando uma geração que não tinha vivido o golpe de Estado”, explica à AFP o cientista político da Universidade de Talca, Mauricio Morales.

Por trás desse erro de avaliação está o fato de que Piñera estava determinado a cumprir com o programa de governo que o levou a vencer as eleições – com 54% dos votos, mas uma altíssima abstenção (de 60%) -, sem ouvir as demandas sociais, afirma, por sua vez, Claudio Fuentes, acadêmico da Universidade Diego Portales.

“O governo vinha há muito tempo afirmando que estava ali para cumprir seu programa e não se movia desta posição em temas estratégicos”, diz Fuentes.

– Escalada do conflito –

Quando a situação começou a sair do controle, com ataques incendiários a dezenas de estações do metrô e saques generalizados, Piñera afirmou que o país enfrentava “uma guerra”.

Ele decretou, então, o estado de emergência, colocando na rua milhares de militares, em um país ainda traumatizado pela repressão nos 17 anos da ditadura de Augusto Pinochet.

“O que o estado de exceção fez foi escalar o conflito rapidamente, gerando um problema maior porque não é mais apenas a demanda social, mas também eventuais violações dos direitos humanos”, acrescenta Fuentes.

– Medidas limitadas –

Em seguida, Piñera pede desculpas e diz ter escutado a mensagem do povo, apresentando um pacote de medidas, que incluiu, entre outras coisas, um aumento das pensões básicas e uma redução nas tarifas dos serviços públicos.

“Essas propostas não fizeram nem cócegas no movimento civil”, diz Mauricio Morales.

“São totalmente insuficientes porque são muito limitadas, nem atingem o problema a fundo”, afirma Claudio Fuentes sobre as reivindicações de profundas reformas nos sistemas previdenciário, de saúde e educação.

– Mudança tardia de gabinete –

Depois de dez dias de protestos, Piñera mudou oito de seus 24 ministros, entre eles seu mais próximo, o contestado chefe de gabinete Andrés Chadwick, apostando em uma nova geração de políticos mais jovens e uma direita mais social. Mas manteve outros ministros fortemente criticados pelos cidadãos.

“A decisão esteve à altura: o mandatário mexeu no eixo da administração rumo ao centro”, afirma o cientista político Max Colodro em uma coluna no jornal La Tercera.

Embora tardio, “foi até agora seu único acerto porque representa uma mudança geracional”, avalia Mauricio Morales, enquanto que para Claudio Fuentes, o novo ministério é “uma mudança de tom”.

Encurralado por protestos maciços e com a menor popularidade registrada por um presidente chileno na democracia (14%), Piñera deveria “convocar um grande pacto tributário”, que permita elevar o salário mínimo – hoje em 301.000 pesos (418 dólares) aumentar novamente as pensões, sugere Mauricio Morales.

(AFP)

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