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Devemos ter raiva dos mortos?

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Quando dois corações são entrelaçados ao longo dos anos, uma separação – especialmente a morte – parece ser um tipo de violência

“Ele está em um lugar melhor.”
“Mas eu não o quero em um lugar melhor! Quero ele aqui comigo agora, preciso dele!

Se houvesse uma aula chamada “Introdução ao que não dizer aos enlutados”, acho que o bem-intencionado “Ele está em um lugar melhor” certamente estaria no plano de estudos.

Realmente, o que algumas pessoas dizem na tentativa de “consolar” aqueles que perderam um filho ou outro ente querido é tão flagrante que não consigo mencioná-los aqui.

Não é de surpreender que, no momento de dor, podemos ficar com raiva daqueles que nos oferecerem consolo desajeitado. Também não podemos nos surpreender que, nessas horas, ficamos zangados com aqueles que morreram.

No velório de meu pai, sentei-me ao lado de minha mãe, viúva após 53 anos de casamento. Ela repetiu várias vezes: “Não acredito que isso está acontecendo.” Pela graça de Deus, tive o bom senso de não dizer nada. Uma das minhas tias viúvas veio até ela e disse: “Sue, você está brava com ele?” Ela olhou para cima e respondeu: “Sim, eu estou!” Minha tia aconselhou-a: “Então por que você não conta a ele?” Mamãe se moveu com uma velocidade e destreza das quais ela não era capaz há anos, e foi ao caixão para expressar sua desaprovação a meu pai em relação ao momento e ao fato de sua morte. Não fiquei surpreso com a raiva dela. Quando dois corações são entrelaçados ao longo dos anos, uma separação, mais especialmente a morte – mesmo uma morte natural, como era a do meu pai – é um tipo de violência, uma ruptura do que havia se tornado um. Ficaríamos insensatos se não ficássemos chocados, indignados e, sim, até zangados com os mortos pela dor provocada por sua morte.

Ninguém fica surpreso quando aqueles que estão enlutados ficam zangados com Deus. “Senhor, como você pôde fazer isso? Como você pode tirar o meu … ( pai, marido, esposa, filho etc.)?”

Este é um problema perene para filósofos e teólogos: “Como um Deus bom pode permitir a morte prematura ou injusta de alguém?”

Uma área da Filosofia e Teologia chamado “Teodiceia” é dedicada a essa pergunta. Alguns filósofos e teólogos argumentam muito bem que a bondade e a justiça de Deus não precisam ser “resgatadas” pela Teodiceia, mas esse é outro tópico para outra época.

Diante da morte, lamentamos estar separados de nossos entes queridos; nós também derramamos lágrimas por nós mesmos. Lamentamos por nós mesmos quando, com olhos vermelhos e corações decepcionados, olhamos para o tempo que se estende diante de nós e lamentamos o que tínhamos planejado fazer com o outro – todas aquelas coisas boas que parecem ter sido arrancadas de nós com tanta crueldade. Assim, podemos sentir pena de nós mesmos ao ver o empobrecimento que resulta de sermos separados de um ente querido.

Mas, por sermos cristãos, podemos ter uma esperança viva de uma feliz reunião com aqueles que nos precederam. Como São Paulo nos diz, a esperança “não decepciona, porque o amor de Deus foi derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado” (Romanos 5, 5).

Pode muito bem haver lágrimas de tristeza e raiva, pois nós, cristãos, lamentamos  a dor que sofremos quando nossos entes queridos nos deixam. Porém, especialmente durante o mês de novembro, quando honramos nossos mortos amados, vamos prometer consolar um ao outro e prometermos que ajudaremos aos próximos na casa de nosso Pai, onde um banquete já está preparado para nós e onde podemos nos reunir com aqueles que foram antes de nós.

 

 

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