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A lógica do comediante e o escândalo de Natal

PUERTO MONTT

Twitter-Alejandro Bernales Diputado

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 15/12/19 - atualizado em 15/12/19

Os comediantes do Porta dos Fundos escandalizaram mais uma vez as comunidades cristãs

Os comediantes do Porta dos Fundos escandalizaram mais uma vez as comunidades cristãs ao apresentarem um programa especial de Natal com uma versão caricata e debochada de passagens do Evangelho. Estão repetindo uma fórmula que lhes vem rendendo sucesso desde 2013 – sempre causando indignação e revolta entre pessoas religiosas.

Todo ano são alvo de notas de repúdio, campanhas de boicote e até pedidos de sanções legais. Contudo, a repetição da estratégia mostra que as ações contrárias não os afetam. Pelo contrário, parece que procuram exatamente isso. Como personalidades do show business, seguem a máxima “falem mal de mim, mas falem de mim”. Por isso, os protestos se mostram inócuos…

Para saber como nos posicionar de forma adequada diante dessas troças, precisamos entender a lógica que orienta o comediante.

Quando o riso nega a empatia

O cômico procura o riso do público, que quase sempre nasce da exposição de alguém ao ridículo. Os palhaços de circo ridicularizam a si mesmos, os bobos da corte medievais e renascentistas tinham a prerrogativa de ridicularizar os poderosos, contanto que com isso os divertissem.

Na sociedade moderna, o comediante dirige sua malícia contra o diferente e contra o poderoso. Dessa forma, exerce uma catarse ou uma politização de seu público, conforme o contexto. Atualmente, contudo, existe uma tendência de refrear a ridicularização do diferente em função da empatia para com os excluídos e marginalizados – um avanço social inegável, que não pode ser dissociado historicamente do amor cristão. Piadas envolvendo o negro, a mulher, o homossexual, o deficiente ou o estrangeiro passaram a ser cada vez menos aceitas ou toleradas. Por isso, muitos comediantes se queixam de que fazer rir está se tornando cada vez mais difícil.

Mas os poderosos permanecem como um alvo fácil e admissível. Mas, então, por que ainda se aceita que símbolos religiosos – sejam cristãos ou de outras religiões – sejam aviltados e ridicularizados?

Porque, aos olhos do comediante, é o poder da religião que está sendo ridicularizado. Quando os chargistas do Charlie Hebdo francês, vítimas de um trágico atentado islâmico em 2015, começaram as piadas com o Islão, não pensavam em palestinos pobres fugindo de sua terra em busca de vida digna, mas em terroristas frios e violentos matando indiscriminadamente. Quando os comediantes fazem piadas com Cristo, não pensam, por exemplo, no exemplo de São Francisco de Assis, mas em Tomás de Torquemada, o dominicano que – justa ou injustamente – se tornou o símbolo dos horrores da Inquisição.

Além disso, “o diabo, expulso pela porta, retorna pela janela”. A empatia parecia ter eliminado a ridicularização do diferente, mas nossa sociedade é, simultaneamente, solidária e indiferente, dependendo do contexto e dos envolvidos. Assim, volta a possibilidade de ridicularizar e ofender um certo diferente, desde que seja, supostamente, um adversário.

Nessa lógica, os chargistas do Charlie Hebdo estenderam sua ironia a toda a população islâmica, chegando à inaceitável troça com uma criança refugiada morta na praia. Da mesma forma, Porta dos Fundos acredita que pode satirizar o sentimento cristão de muitas pessoas porque – no pensamento dos autores – quem se sentir ofendido não tem a postura correta para viver em nossa sociedade.

O anúncio permanente do amor
Mas, então, o que o cristão deve fazer nessa situação? Muitos dirão para não se fazer nada, pois “quanto mais se mexe, pior fica”. Outros, contudo, sentirão necessidade de tomar alguma atitude.

Boicotes são protestos eficientes, desde que as pessoas deixem mesmo de ver ou usar aquilo que se boicota. Caso contrário, a campanha de boicote se torna propaganda gratuita e glamourização dos produtos – agora recobertos pela aura de “perseguidos” e “censurados pelo fundamentalismo religioso”.

Declarações oficiais de desagravo têm ainda menos efeito. Exceção notável quando não vêm dos próprios ofendidos, mas de outros que se solidarizam com eles – como na bela Nota de Repúdio ao Canal Porta dos Fundos escrito pela Associação Nacional de Juristas Islâmicos (ANAJI). Atos públicos e manifestações fortalecem o estereótipo de intolerância e violência, piorando mais as coisas.

Todas essas iniciativas tendem a não ser efetivas porque trabalham dentro da lógica com a qual esses materiais foram produzidos. Quem os faz, de certa forma já espera causar essas reações.
O modo mais eficiente de se contrapor a essa lógica é pelo testemunho de um cristianismo que se abre para acolher e amar o outro, no qual as pessoas são alegres e felizes. Um cristianismo no qual se vive não a repressão moralista da norma sem sentido, mas a liberdade responsável do amor.

Algumas vezes, contudo, nos preocupamos mais em dar o testemunho de quem se considera correto do que de quem ama o irmão e quer ajudá-lo a fazer o certo e ser feliz. Talvez injustamente, mas acabamos nos parecendo mais com Torquemada do que com Francisco de Assis – e assim fortalecemos o estereótipo que o comediante utiliza para se legitimar.

Se cada não cristão tiver a graça de encontrar o testemunho adequado, esquetes cômicos que satirizam os valores e símbolos cristãos poderão até fazer sucesso, mas parecerão evidentemente forçados e falsos. Charges e comédias ridicularizando o cristianismo terão menos impacto à medida que, no ano que está para se iniciar, cada pessoa que sofre encontrar um cristão que a ajude a ser feliz e descobrir o sentido de sua vida.

Por Francisco Borba Ribeiro Neto: coordenador do Núcleo Fé e Cultura da PUC-SP e responsável pelo site Olhar Integral, dedicado à doutrina social da Igreja

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