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Pobres… Que pobres?

©Anna Raisa Favale/Aleteia

Vanderlei de Lima - publicado em 15/12/19

Daí a questão: de que pobres estão falando? Dos verdadeiros ou apenas dos pré-selecionados para apoiar a causa comunista?

Clérigos (bispos, sacerdotes e diáconos) e leigos (estes até em casas legislativas), por vezes, parecem defender os pobres de modo ardoroso. Daí a questão: de que pobres estão falando? Dos verdadeiros ou apenas dos pré-selecionados para apoiar a causa comunista? Isso é o que tentamos, brevemente, responder neste artigo.

A Sagrada Escritura tem para designar pobre o termo hebraico anaw, o grego o traduziu por ptochós e o latim por pauper. Seu sentido original sempre foi entendido no aspecto moral e religioso, ou seja, é anaw (pobre) aquele que confia em Deus e n’Ele espera a realização das promessas divinas feitas a Israel (cf. Sl 37,7). Pobre não tem, portanto, mero caráter sociopolítico. Em oposição, estão os orgulhosos, ímpios, pedantes, autossuficientes etc., pois desprezam a Deus para confiar em si mesmos, ao passo que o Senhor exalta os humildes (cf. Lc 1,52, por exemplo).

Este foi também o entendimento dos Padres da Igreja (bispos, sacerdotes e leigos que, nos oito primeiros séculos, ajudaram, à luz do Espírito Santo, a sistematizar a reta fé). A postura dos Padres se confirmou no século XX pela grande descoberta dos manuscritos de Qumram que, datando do tempo de Jesus, usam a expressão anawin ruah, ou seja, pobres (anawin é plural de anaw) em espírito (ruah). Desses dados linguísticos-teológicos, conclui Dom Boaventura Kloppenburg, OFM: “não se pode negar que Jesus Cristo ‘espiritualizou’ (na Igreja Popular diriam ‘ideologizou’) as falsas esperanças de um messianismo temporalista com uma imediata promoção econômico social” (Igreja Popular. Rio de Janeiro: Agir, 1983, p. 114. Cf. Tradução Ecumênica da Bíblia. 2ª ed. São Paulo: Loyola, 2015, aí pobre é sinônimo de humilde, (ver: p. 2480). Afinal, a verdadeira mudança se faz de dentro para fora (cf. Mc 7,21-23).

A opção preferencial pelos pobres de Puebla (1979) há de ser interpretada no sentido que a Sagrada Escritura e a Tradição da Igreja sempre entenderam. Daí a fala de Dom Agnelo Rossi, cardeal brasileiro: “Essa opção preferencial pelos pobres é absolutamente normal, de sentido evangélico e eclesial, reclama um maior empenho conjunto do Episcopado latino-americano para uma educação e orientação dos fiéis para com os irmãos não só menos favorecidos economicamente, como os mais necessitados espiritualmente. […] Então, nunca a ‘opção preferencial pelos pobres’ pode tornar-se ‘opção exclusiva pelos pobres’. A primeira é afirmação verdadeira, a segunda é exclusão injusta e falsa” (Verdades, erros e perigos na Teologia da Libertação in Felipe Aquino. Teologia da libertação. 2ª ed. Lorena: Cléofas, 2003, p. 88). 

Aliás, está mais do que comprovado que o pobre quer Deus, não a luta de classes comunista. Rocco Buttiglione, estudioso italiano, assegura que “o pobre real-existente (à diferença do imaginário da teoria) é um homem profundamente cristão; os critérios pelos quais ele orienta a sua vida, são os que lhe foram comunicados durante quase quinhentos anos de evangelização. Quando ele entra em luta imposta pelas circunstâncias, trata-se de uma luta em prol da justiça e do respeito à dignidade humana, e não de uma luta de classes em sentido marxista” (Quem são os verdadeiros pobres in Felipe Aquino. Op. cit, p. 114). Que não gozam de apoio popular os próprios expoentes da Teologia da Libertação o confessam. Giulio Girardi, por exemplo, afirma que “a classe trabalhadora”, eixo das transformações, não acredita que “tal perspectiva [de libertação] seja viável”. Lutar pela causa popular (leia-se comunista) é arriscar-se a não “contar com o apoio e nem mesmo o reconhecimento do povo”. […] É como se sentir estrangeiro na própria casa” (in Julio Loredo de Izcue. Teologia da Libertação, um salva-vidas de chumbo para os pobres. São Paulo: IPCO, 2016, p. 229-230). O povo é intuitivo, tem e guarda o senso da fé!

Isso tudo se dá porque o conceito de pobre na Teologia da Libertação extremada não é o católico, mas o marxista. Aprecia-se aí a ideia de pobre, não a sua pessoa humana em concreto. Só se encaixa neste conceito libertador quem se diz oprimido pelo sistema vigente, luta por sua derrubada e pela consequente instalação da ditadura comunista (cf. Pe. Paschoal Rangel. Teologia da Libertação: juízo crítico e busca de caminhos. 2ª ed. Belo Horizonte: O Lutador, 1989, p. 122 e 153-225, e Igreja Popular, 1983, p. 41). Ora, quem, no plano da razão e da fé, apoiaria, hoje, essa teoria e prática fracassadas?

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