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Como viver o Natal em meio ao luto pela perda de um ente querido

CHRISTMAS
Shutterstock | Stock-Asso.
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Quando chegam aniversários e festas em família, é inevitável sentir saudade de quem já morreu. Mas nada se compara à dor de lidar com a ausência da pessoa amada nas comemorações natalinas

Em dezembro de 2018, passei pela triste experiência de viver o Natal sem a companhia de meu pai. Escolho a palavra viver porque, por mais que eu quisesse e me esforçasse, não conseguia me apoderar da alegria que a data sempre traz.

Hoje, às vésperas de reviver esse momento tão festivo, estou consciente de que o Natal nunca mais será o mesmo. Porém, agora, me sinto mais encorajada a celebrá-lo.

O tempo faz diferença. Hoje, o coração ainda aperta muito de saudade, porém a dor se tornou menos constante ao longo dos últimos meses. Em momentos como agora, em que a vontade que meu pai estivesse aqui nesse dia 25 se torna ainda maior, me sinto mais forte para aceitar sua partida, assim como consigo olhar com mais clareza para o passado e lidar com os sentimentos que a sua ausência desperta.

Algo que percebo hoje é que, um ano atrás, me senti perdida, pois era ao lado do meu pai que eu via o sentimento do Natal se despertar. E isso começou quando eu ainda era criança, pois foi ele quem me mostrou um presépio pela primeira vez – e me alertou para não tirar o Menino Jesus da manjedoura”. Ele me levava às Missas do Galo e, por anos, alimentou em mim a crença no Papai Noel ao esconder presentes embaixo da cama.

Já adulta, era ao seu lado que planejava o cardápio de Natal e o veredito sobre o prato final sempre era dele. Nem sou capaz de contar quantas vezes encaramos o supermercado lotado no final do ano, o que sempre lhe deixava de muito mau humor. Porém, quando era chegada a hora da ceia, sua marra ia embora: era para ele que eu cozinhava, gostava de ver em seu rosto a satisfação por estar apreciando uma receita e, muitas vezes, ele soltava um comentário do tipo: “faltou sal aqui”, porém elogiava tudo o que eu preparava.

Ano passado não tive vontade de cozinhar, mas me esforcei. Sabia que precisava dar força para minha mãe, pois esse momento estava sendo ainda mais difícil para ela. Preparei os pratos que ela mais gosta, mas não consegui avançar em relação à sobremesa, pois coincidentemente o doce à base de gelatina que sempre comíamos no Natal foi a última coisa que servi ao meu pai em vida.

Lembranças assim dilaceram o coração. Dói também me dar conta de que meu filho nunca passou um Natal ao lado do avô. Mas, nesse Natal, tenho de fazer uma escolha e, entre a alegria e a tristeza, escolho a celebração – mesmo sem ter ao meu lado aquele que sempre será meu Papai Noel do coração.

Dessa maneira, quero reviver ao lado do meu filho tudo aquilo que meu pai me ensinou e assim transmitir a ele toda a magia natalina que esse lindo período traz. E é isso que me dá forças para fazer algo que era magistralmente feito por meu pai: unir toda a família para celebrar um momento tão especial e cheio de alegrias.

Prefiro não lamentar seu assento vazio na mesa. Ao invés disso, procuro ficar mais perto da minha mãe, irmãos e sobrinhos. Através dessa união sinto que meu pai, insolitamente, está entre nós.

Este ano, mais uma vez, não terei com quem conversar sobre o que vai noticiado nas retrospectivas do final de ano, também não terei aquele meu fiel companheiro que me convidava para ir ao cinema conferir as boas estreias que acontecem no final de ano.

Eu tento não conter as lágrimas todas as vezes em que percebo que essa é a minha nova realidade, pois nada nunca mais será como antes já que ele não está mais aqui. Mas, ao mesmo tempo em que as lágrimas escorrem, surge o acalento despertado pela voz de meu filho cantando “Bate o sino, pequenino, sino de Belém…”

Como Natal é um momento que enaltece um nascimento tão especial, eu me apego à felicidade que ele e outras crianças transmitem. Hoje entendo o porquê delas serem os centros das comemorações, pois a pureza de seus gestos, brincadeiras e palavras são uma grande celebração à vida e ajudam a curar a tristeza. Ao lado delas sempre teremos um Feliz Natal!

 

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