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Como os monges medievais lidavam com a distração

Sloane Manuscript 2435
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Pensadores medievais teriam recomendado que as pessoas evocassem imagens vívidas – inclusive sexuais – para evitar distrações enquanto liam ou oravam

Recentemente, circularam vários artigos sobre como os monges medievais tinham problemas com distrações – assim como as pessoas do século 21 – e eles nem sequer tinham telefones celulares.

Os artigos, que parecem basear-se no trabalho de Jamie Kreiner, da Universidade da Geórgia, aparecem como soluções medievais para distração nesta nossa era digital, quando as pessoas são tentadas demais para manter a verificação constante de suas contas nas redes sociais.

Aparentemente, alguns pensadores medievais recomendaram que as pessoas evocassem imagens vívidas – inclusive sexuais – para evitar distrações enquanto liam ou oravam. Em particular, São João Cassiano, do século V, teria apresentado essa solução.

“João Cassiano, cujos pensamentos influenciaram os monges ao longo dos séculos, conhecia muito bem esse problema”, diz um artigo de Sam Haselby no Aeon. “Ele reclamava que a mente ‘parecia impulsionada por incursões aleatórias’. Ela vagava como se estivesse bêbada. [Ele] pensava em outras coisas enquanto orava e cantava. Ele serpenteava em seus planos futuros ou arrependimentos passados ​​no meio de sua leitura. Nem conseguia se concentrar no próprio entretenimento – e muito menos nas ideias difíceis que exigiam uma concentração séria.”

Haselby disse ainda que, para o problema da distração, os monges medievais tinham soluções que “dependiam de imagens imaginárias”:

“Parte da educação monástica envolvia aprender a formar figuras cognitivas de desenho animado para ajudar a aprimorar as habilidades mnemônicas e meditativas. A mente adora estímulos como cor, sangue, sexo, violência, barulho e gesticulações selvagens. O desafio era aceitar suas delícias e preferências, para aproveitá-las. Autores e artistas podem fazer parte do trabalho, escrevendo narrativas vívidas ou esculpindo figuras grotescas que incorporavam as ideias que eles queriam comunicar. Mas se uma freira quisesse realmente aprender algo que tinha lido ou ouvido, ela mesma faria esse trabalho, renderizando o material como uma série de animações bizarras em sua mente. Quanto mais estranhos os dispositivos mnemônicos, melhor – a estranheza os tornaria mais fáceis de recuperar e mais cativantes para pensar quando ela “retornasse” para examiná-los.”

Mas Luke Dysinger, um monge benedito que leciona em um seminário da Califórnia, ficou surpreso com a teoria:

“Estou francamente surpreso que qualquer um que tenha lido Cassiano possa alegar que [ele] defendia o uso de imagens vívidas na oração ou na prática ascética. Na verdade, Cassiano incentiva o oposto do que hoje chamaríamos de ‘imagens guiadas'”.

Dysinger contou à Aleteia que o mestre e professor espiritual de Cassiano, Evagrius Ponticus, enfatizava a importância da “oração pura”. Com isso, “ele quis se referir ao que hoje chamaríamos de oração ou meditação apofática, isto é, a oração entendida como uma simples atenção a Deus, sem a necessidade de imagens ou palavras. Isso fazia parte do legado de Clemente de Alexandria e, especialmente, do controverso Orígenes, cujo famoso tratado sobre oração foi sem dúvida a fonte da abordagem de Evagrius.”

Outro especialista, pe. Cassian Folsom, foi contundente:

“Não tenho ideia do que essa pessoa está falando, já que São João Cassiano enfatiza explicitamente a oração sem imagem. Em todas as estratégias para lidar com os ‘pensamentos’ ou ‘logismoi’ ou ‘vitia’ (Cassiano e Evagrius são mestres aqui), não há nada sobre imagens imaginárias, ou deixar a imaginação correr tumultuada, ou qualquer coisa do tipo.”

Dysinger aponta para a obra Cassiano, as “Conferências”, nas quais ele encoraja a oração pura “livre de todas as memórias e distrações, bem como a “oração ardente” que começa com palavras, mas se eleva acima delas:

“Na Conferência 10.10, Cassiano defende a prática da meditação monologística, a repetição constante de um breve texto bíblico, como forma de atingir essa oração sem imagem. Ele introduz essa prática descrevendo a ‘controvérsia antropomorfita’ precipitada pelo arcebispo Theophilus de Alexandria, que insistia que não se deveria manter uma imagem mental de Deus enquanto orava. Cassiano concorda com isso.

O padre disse que, embora as “imagens guiadas” sejam fundamentais para os exercícios espirituais de Santo Inácio de Loyola, monges primitivos como Cassiano tiveram uma “abordagem muito diferente da oração e da meditação”:

Quando soube das críticas dos dois padres à suposta solução medieval para a distração, Kreiner explicou:

“Embora Evagrius e Cassian defendessem a oração sem imagem para os monges, as técnicas baseadas em imagem que discuto no artigo para o Aeon foram recomendadas pelos teólogos no final da Idade Média, particularmente como uma ajuda para iniciantes. Um exemplo conveniente que está disponível na tradução é a discussão de Thomas Bradwardine. As imagens mentais que Bradwardine recomenda são marginalmente e não abertamente sexuais: o objetivo não é imaginar o sexo em si, mas manipular coisas memoráveis ​​para colocar a mente em usos mais produtivos “.

Mas Kreiner insiste que Cassiano sugere (em Conferências 15.10 e 19.16) que monges avançados poderiam tentar imaginar fazer sexo com uma mulher para ver se ficavam excitados. “Entretanto, essa não era uma técnica meditativa: o exercício testaria quanto controle um monge tinha sobre si mesmo naquele cenário imaginário”.

 

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