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A Campanha da Fraternidade em nossa conjuntura político-ideológica

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Diante da intensa polarização ideológico-partidária, somos convidados – nessa Quaresma – a recuperar a dimensão pessoal e social do amor ao próximo

A leitura do Evangelho dessa Quarta-feira de Cinzas nos apresenta os três exercícios quaresmais de preparação para a Páscoa: o jejum, a esmola e a oração (Mt 6,1-6.16-18). A ordem que aparecem no texto bíblico é interessante e nos convida a refletir, pois o primeiro exercício apresentado e a esmola, um gesto relacionado ao próximo, e não a oração, gesto mais diretamente relacionado a Deus.

Essa passagem vem em continuação a um trecho dedicado à radicalidade do Evangelho e o amor ao próximo (Mt 5, 19-48). Jesus inicia essa parte do discurso dizendo que a justiça de seus seguidores deve ser maior que a dos escribas e fariseus, mostrando que essa “justiça maior” coincide com um amor e uma misericórdia que subvertem até mesmo os padrões da sabedoria meramente humana. 

A inclusão da esmola antes da oração não altera, evidentemente, o mandamento maior: “Ama a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a si mesmo” (cf Mc 12, 29-31). Contudo, mostra que a prática do amor ao necessitado, ao fragilizado, é uma condição para que a oração seja plena e verdadeira. Quando nossa oração é autocentrada, voltada apenas para nós mesmos e os nossos problemas, corremos o risco de transformá-la num monólogo interior e não num “diálogo com Deus”.

Assim, para nos ajudar a praticar uma justiça que não seja apenas formal, próxima das convenções humanas, mas longe do coração de Deus, e a uma oração que seja um verdadeiro diálogo com Deus, a Igreja no Brasil criou a Campanha da Fraternidade. O desenvolvimento tanto da sociedade quanto das obras sociais católicas mostrou às comunidades cristãs que a esmola tradicional, puramente assistencialista, não dava conta de todos os problemas. Amar o próximo passa por criar estruturas sociais que o ajudem e combatam a injustiça que o aflige. Bento XVI traça todo o percurso espiritual que vai do encontro com Cristo às obras sociais da Igreja em sua encíclica Deus caritas est (2005), que não posso deixar de recomendar a quem estiver interessado ou em dúvida sobre esse tema.

Assim, praticar gestos de amor ao próximo que tem uma dimensão até sociopolítica não significa “sociologizar” ou “ideologizar” a Quaresma, mas vive-la com o perfil próprio da caridade em nossa época. Com o tempo, é bem verdade que a necessidade de abordar graves problemas sociais fez com que, em alguns anos, esse objetivo maior da Campanha da Fraternidade nem sempre ficasse tão claro. Em 2020, porém, seu tema (“Fraternidade e vida”) e seu lema (“Viu, sentiu compaixão e cuidou dele”) permitem uma ligação particularmente fácil entre nossa ascese quaresmal e os gestos de solidariedade social.

Diante da intensa polarização ideológico-partidária, somos convidados – nessa Quaresma – a recuperar a dimensão pessoal e social do amor ao próximo. Os cristãos podem se considerar de direita, de centro ou de esquerda; progressistas, moderados ou conservadores. Cada um deles tenderá a buscar formas de responder aos problemas sociais e de praticar sua fé que correspondam a suas convicções. Contudo, essa prática do amor ao próximo, inclusive reconhecendo seus aspectos sociais, é um caminho ascético ao qual todos nós somos chamados.

Partidarizar a fraternidade, sem dúvida, é uma tentação perigosa atualmente. Pode ser praticada por alguém que lidera a comunidade – e tenta levá-la por um caminho ideológico específico – mas também por aqueles que não querem aceitar o ensinamento da Igreja – acusando de ideológico aquilo que é evangélico. A melhor solução, para evitar esses extremos, é dedicar-se às obras sociais concretas que nos são propostas na caminhada eclesial.

Quanto mais nos dedicamos a essas obras, num espírito de oração e entrega a Deus, procurando refletir sobre o que vemos e as formas como agimos, menos riscos corremos de sermos manipulados ideologicamente ou de nos afastarmos do caminho do Senhor. Quem se contenta em criticar, ou deixa de fazer com medo de ser manipulado, também acaba se afastando de Deus e sendo instrumentalizado pelo poder. 

Em nossos tempos, não somos chamados a amar menos ou amar com mais cuidado, mas sim a amar mais e melhor, para que nosso amor seja instrumento da vontade de Deus e da verdadeira construção do bem comum.

 

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