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Vírus e finanças: cartografia da crise nos mercados

Frédéric Scheiber / Hans Lucas

Agências de Notícias - publicado em 29/03/20

O mercado do petróleo também sofre com essa crise, que está arrastando a demanda de maneira espetacular

Diante da epidemia de coronavírus que assola o mundo e a economia, os mercados financeiros não foram deixados de fora e perderam quantias colossais nas últimas semanas.

A seguir uma pequena cartografia dessa crise sem precedentes e de suas principais áreas de tensão, começando com a dívida das empresas.

Bilhões de euros em perdas

“Nenhum crash se assemelha aos anteriores, mas essa crise não tem precedentes, pois é realmente um golpe externo para os mercados”, explica Didier Saint-Georges, membro do comitê de investimentos de Carmignac.

Em média, as ações globais perderam 30% de seu valor, significando “cerca de US$ 27,6 trilhões, pelo menos, mas ganharam cerca de US$ 4 trilhões desde terça-feira”, estima Daniel Morris, estrategista da BNP Paribas Asset Management.

Bancos centrais na linha de frente

E diante de uma crise extraordinária, são necessárias respostas extraordinárias.

Os bancos centrais não apenas colocaram quantias vertiginosas sobre a mesa, mas também acabaram com tudo o que poderia impedi-los de agir em todas as frentes.

Quando o Fed suspendeu a proibição de comprar dívida corporativa, o BCE teve a oportunidade de comprar uma grande parte da dívida italiana.

“Isso não tem limites. O Fed pode até, através de mecanismos financeiros, comprar indiretamente empréstimos estudantis”, ressalta Eric Vanraes, gerente do banco suíço Eric Sturdza.

Isso também permitiu impor um pouco de calma ao mercado da dívida.

Os governos também não ficaram atrás e os países lançaram planos de longo alcance para tentar lidar com as consequências econômicas da COVID-19.

Dívida das empresas assusta

Segundo a opinião geral, o ponto mais crítico corresponde ao endividamento das empresas. A queda nos custos de empréstimos nos últimos anos levou as empresas a tomar muitos empréstimos. No entanto, a brutal interrupção da atividade põe em risco numerosas estruturas e faz com que as taxas de juros subam rapidamente.

Os bancos centrais estão de olho na situação, mas todos temem uma onda de degradação pelas agências de classificação.

Alguns querem acreditar que essas agências “não se comportarão como piromaníacas”, mas outros pensam que, depois de serem acusadas de não prever a crise de 2008, “redobrarão os esforços”.

De fato, a Standard and Poor’s e a Moody’s já começaram a lançar notas e perspectivas, principalmente nos setores automotivo e de aviação.

“Anjos caídos”

A questão principal é saber quantos grupos se enquadram nas categorias especulativas e se tornarão o que o mercado chama de “anjos caídos”, o que levaria muitos investidores a dar as costas a eles por medo de falência, entre outros motivos.

Alguns deles não podem ser os donos dos títulos, seja por razões regulatórias ou porque sua política de investimentos não permite, o que poderia levar a movimentos de vendas em massa.

No último nível, antes de se tornarem “anjos caídos”, existem vários grupos com classificação “BBB”: Pernod Ricard, Enel, Orange, Deutsche Telekom, Danone, Astra Zeneca ou British Telecom.

Petróleo no abismo

O mercado do petróleo também sofre com essa crise, que está arrastando a demanda de maneira espetacular, começando com o querosene, já que dezenas de milhares de aviões estão em solo, causando a queda do preço do petróleo.

E, no lado da oferta, a Arábia Saudita lançou uma feroz guerra de preços, bombeando petróleo em alta velocidade para inundar o mercado.

O dólar, a panaceia atual

Atualmente, a última panaceia é o dólar. E o Fed está trabalhando para encher o planeta com notas verdes.

Se mesmo o ouro enfraqueceu levemente no pico de pânico em meados de março, ele se recuperou e permanece altamente cobiçado, como o franco suíço e o iene.

O tempo é ouro

“A questão do tempo é importante”, lembra Saint Georges. “O desafio para os governos que optaram pelo confinamento é que uma recessão de dois meses não se transforme, devido às falências, em uma recessão de dois anos”.

“O PIB dos Estados Unidos é de cerca de 22 trilhões de dólares, ou seja, 1,8 trilhão de dólares por mês. Se a atividade econômica diminuir em 25%, isso representará cerca de 500 bilhões de dólares por mês”, analisa Morris, o suficiente para durar quatro meses com o plano de apoio que os Estados Unidos planejaram.

(AFP)

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