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A beleza, da Sexta-feira Santa ao Domingo de Páscoa

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O desfigurado da cerimônia da Paixão não seria compreensível sem o fulgor da ressurreição

Nesse período de quarentena, recebemos diariamente, pelas redes sociais, uma infinidade de instruções sobre saúde e bem viver, notícias verdadeiras ou falsas, piadinhas engraçadas ou de gosto duvidoso, histórias edificantes, vídeos de música, etc. Entre essas mensagens, uma se sobressai: um vídeo do ator Antônio Fagundes declamando um poema intitulado “Curar”, que fala sobre o isolamento e introspecção das pessoas numa pandemia e de como elas, após esse período, se reencontraram para construir um mundo melhor. É fácil encontrar o vídeo na Web, e Aleteia publicou um ótimo artigo explicando a história da poesia.

Esse poema se sobressai porque conta um pouco da vida de todos nós nesse tempo de pandemia, mas a recobre com o manto de uma verdadeira beleza. Não aquela falsa, que procura nos seduzir e nos enganar, mas aquela verdadeira, que nos enche de compaixão, esperança e coragem, sem negar a realidade, mas mostrando a força do desejo de bondade e felicidade que permanece, ora evidente, ora escondido, no coração de cada um de nós. Como diz um documento do Pontifício Conselho para a Cultura, a beleza nos abre para a verdade, isto é, faz com que a verdade seja mais evidente, que percebamos melhor a correspondência entre nosso anseio de vida e a Verdade que criou o mundo. 

A beleza que salva e a pandemia

A cultura popular consagrou uma expressão de Dostoievski, “a beleza salvará o mundo”. Contudo, os que a citam frequentemente se esquecem de duas coisas. A primeira é que a frase vem pronunciada por um cristão convicto, o príncipe Míchkin, referindo-se à beleza que é Cristo. A segunda, é que a frase é proferida, no romance, em tom sarcástico, considerada um absurdo proferido pelo protagonista, citado no título da obra como “O idiota”.

É extraordinária a força tanto da frase quanto do personagem de Dostoievski. Como um mundo que caminhava para um tempo cada vez mais secular (o livro foi publicado em 1874), que valoriza o sucesso a qualquer preço e o individualismo, foi se render à frase religiosa de um anti-herói fracassado? A própria sobrevivência da frase é um sinal de como a beleza salva o mundo – não pelo êxito e pela força, mas pelo amor que dá sentido e gosto à vida.

Também nesses tempos de pandemia, a ciência bem utilizada, a solidariedade e a ação responsável da população e dos governantes poderão evitar muitas mortes e muito sofrimento. Mas a salvação pela qual todos ansiamos, de forma dramática, nas dificuldades, ou até distraída, nas facilidades, permanece a mesma. Ao associá-la com a beleza, Dostoievski deixou as pegadas da nostalgia de Deus marcadas no solo da nossa cultura e da nossa mentalidade.

O desfigurado

O Cardeal Joseph Ratzinger, inicia uma mensagem de 2002 comentando que sempre se impressiona com um aparente paradoxo na liturgia das Vésperas. Ao longo do ano, a antífona do Salmo 45 (44, sobre a beleza do Rei e suas núpcias) vem do seu terceiro versículo: “Tu és o mais belo entre os filhos dos homens, dos teus lábios emana graça”. Na Semana Santa, contudo, o mesmo salmo sobre a beleza vem precedido da antífona: “Não existe nele beleza nem aparência; nós vimos um rosto transfigurado de dor” (cf. Is 53, 2).

Como “o mais belo entre os filhos dos homens” pode ter “um rosto desfigurado de dor”, a tal ponto das pessoas nem mesmo quererem olhar para ele, como diz o profeta? Em sua mensagem, Ratzinger lembra que esse rosto jamais corresponderia aos ideais de beleza preconizado, por exemplo, pelos filósofos gregos.

O homem desfigurado da antífona é Cristo flagelado e morto na cruz. Sua dor é a “prova” do amor de Deus pelo ser humano. Por isso, a tradição popular sempre teve uma deferência particular para com a liturgia e as comemorações da Sexta-Feira “da Paixão” – termo que vem do latim, significando sofrer, mas que também se tornou para nós sinônimo de um amor desenfreado. A beleza da Sexta-feira Santa é nos mostrar que a verdade última de nosso ser é que desejamos um amor que supere toda a dor e todo o limite de nossa condição humana, que o sofrimento – por grande que seja – pode não ser a última palavra sobre o nosso destino, pois existe um amor ainda maior que ele.

A iconografia oriental, frequentemente pinta, na cruz, o Cristo já ressuscitado e glorioso. Quer nos mostrar que a verdade última do desfigurado não é sua aparência sofrida, mas a vitória do Seu amor. No fundo, a beleza luminosa do Domingo da ressurreição pareceria quase cínica sem a dor excruciante da Sexta-feira Santa. Mas também o desfigurado da cerimônia da Paixão não seria compreensível sem o fulgor da ressurreição.

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