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Aonde foi parar a ideia de “lar doce lar”?

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Permanecer em casa neste tempo de coronavírus parece chato e assustador para muitas pessoas. Mas um monge dá dicas sobre como tornar frutífero o período de recolhimento

O movimento monástico cristão é espetacular. Surge ele num momento de decadência da vivência dos preceitos cristãos, quando da conversão do Imperador Constantino (272-337). Antes disso, ele já havia assinado o Edito de Milão, em 313 d.C, concedendo liberdade de culto aos seguidores de Cristo, cessando assim, a perseguição religiosa, marca dos primórdios do cristianismo, conhecido por esta razão, como era dos mártires. Até este momento, sabemos que muitíssimos cristãos foram perseguidos e mortos por causa de sua fé, e os imperadores romanos do período foram seus principais algozes.

No entanto, a conversão de Constantino sugeriu que todos os seus súditos também se convertessem. E aqui está o problema. Estes eram cristãos de adesão social ou política, mas não de fato. Alguns nem mesmo sabiam quem era o Cristo, continuando com suas práticas pagãs. Com isso, houve um desleixo ético e moral, vivendo todos conforme aquilo que acreditavam, ignorando desta maneira, os preceitos ensinados por Jesus e os Apóstolos.

O monaquismo surge neste contexto como um movimento revolucionário silencioso. Um grupo de fiéis procurou viver mais intensamente sua fé, retirando-se para o deserto, para longe das cidades, uma vez que estas estavam dominadas pela imoralidade e pelo pecado. Eles buscavam ouvir a Deus e unir-se a Ele. Aliás, a palavra monge traz em si o sentido de unidade com Deus. Dentre os primeiros monges vale citar Antão (251-356), Macário (300-391) e Pacômio (292-348).  Também algumas mulheres buscaram se retirar numa vida de extrema reclusão do mundo, como Maria Egipcíaca (c. 344-c. 421).

Em tempos de coronavirus, quando há a necessidade de muitos se enclausurarem em suas residências, temos uma oportunidade preciosa de escutar o que Deus tem a nos dizer. Mas muitos acham terrível ficar em casa. Como chegamos a este ponto? Para onde foi aquele lar doce lar? Ao longo dos últimos anos, nos prepararam para viver uma vida super estimulada e agitada, com eventos acontecendo a todo instante e em todos os lugares. Nos fizeram sair de casa. E nos poucos momentos que lá ficamos, tentamos nos animar com uma maratona de séries e outras atividades para nos distrair, dando a impressão psicológica de que é ruim ficar em casa.

Permanecer em casa tornou-se chato, e esta parece para muitos, uma ideia surreal e assustadora. Claro que há de considerar que horas ou dias dentro de uma pequena casa ou um minúsculo apartamento sem poder sair, pode mexer um pouco com nosso humor. Mas o que podemos aprender com isso? Em primeiro lugar, é um tempo de reflexão. Seria muito benéfico que nos desligássemos um pouco do mundo. Fizéssemos um retiro no lar. Uma redescoberta da casa interior.

Enquanto muitos se preocupam em como preencher o tempo em casa, planejando a maratona de séries para se distrair, poderíamos organizar o tempo da seguinte forma:

Dormir de 6 a 8 horas por dia. Estes não devem ser dias preguiçosos. Se agirmos assim, vamos cair no cansaço e angustia.

Rezar: pode-se fazer 7 orações ao dia, como os Padres e Madres do deserto e os religiosos nos mosteiros e conventos. A primeira oração ocorre ao acordar, agradecendo por mais um dia que surge. Depois, num intervalo de ao menos duas ou três horas, faz-se outra oração. Ao meio-dia, antes de almoçar, reza-se novamente. Às 15h podemos rememorar a morte do Cristo, pois foi neste horário, segundo as escrituras, que Ele expirou. É a hora da misericórdia. Por volta das 17h, rezamos para agradecer pela jornada oferecida pelo Bom Deus. É a oração de vésperas, quando aparece no céu a estrela vésper. Por fim, antes de deitar, pedimos a proteção do Criador para ter um bom sono. Todas estas orações podem ser empreendidas com os Salmos, que são poemas de louvor a Deus. Entre estas orações, é sempre bom lembrar da Mãe de Deus, com a recitação do rosário ou do terço, do ofício da Imaculada Conceição ou ainda, com a oração do Angelus;

Meditar: A Lectio Divina é um método bastante antigo de meditação com as Sagradas Escrituras. Há várias sites e vídeos na internet que ensina como fazer;

Comer na hora certa e de maneira equilibrada: Todos aprendemos que comer na hora certa com intervalos médios de duas horas, faz bem. Também devemos nos preocupar com o que comemos. Buscar uma alimentação mais saudável e nutritiva. Lembremos que esta é uma boa ocasião para preparar a própria comida, colocar para fora os dotes culinários;

Fazer exercícios físicos: Muitos de nós temos equipamentos de musculação ou ginástica em casa, como esteira e bicicleta ergométrica. Alguns condomínios abrigam academias próprias. Também piscinas para se exercitar se faz importante. Quem não possui tais equipamentos, ou estes estejam isolados, há diversos exercícios que se podem fazer sozinho em casa, como alongamentos. O importante é não ficar parado;

Empreender atividades de lazer com a família é algo muito saudável. Jogos de tabuleiro e outras brincadeiras são algumas sugestões simples que nos ajudarão a exercitar a mente. Há à disposição na internet muitos jogos gratuitos que podemos imprimir em casa e brincar com a família. Também é muito benéfico contação de histórias, desenho e pintura, principalmente quando há crianças pequenas em casa. Quem domina instrumentos musicais, podem tirar daí os talentos mirins. Depois, todo mundo já aprendeu que quem canta seus males espantam;

Ler: sabe aquele livro que já faz um tempo que você deseja terminar e que você deixou na estante ou em cima da mesa? Pois é, agora tem tempo. Coloque sua leitura em dia.

Estudar: ainda no campo da leitura, mas de maneira mais técnica, está o estudo. Mas tem também aquele curso de língua que você deseja fazer. Há vários online, e grátis.

Trabalho manual: artesanato e outras atividades manuais criativas também poderão ajudar a preencher o tempo, além, é claro, de mantar o equilíbrio mental.

Limpar a casa: a limpeza da casa é também limpeza da alma. Álbuns de fotografias, livros, o armário desorganizado precisa de sua atenção. Um momento oportuno.

Estas dicas são primorosas. Claro, cada um pode ter uma ideia para buscar a equilibrar estes dias em casa. Mas é bom manter em sintonia o corpo, a alma e o espírito. Acho que será muito mais benéfico desligar a televisão ou o celular, sem acompanhar as notícias nas redes sociais. Não digo desligar totalmente. Isto seria alienação. Mas sabendo que só teremos notícias sobre o caso, um noticiário por dia, pode nos manter informados. É preciso manter a serenidade e a leveza em casa. Assistindo por demais a tais notícias, pode deixar todo mundo mais preocupado ainda. Isso pode nos levar a paranoia, o caos interior e a perturbação mental.

Os Padres e as Madres do deserto, os primeiros monges e monjas, dividiam minuciosamente seu tempo. Rezavam, conversavam com Deus, mas também trabalhavam. Estes homens e mulheres viviam o espírito de penitência e privação.  Ofereça esta privação a Deus. Faça de sua casa uma cela monástica. Ao contrário do prisioneiro que é preso contra sua vontade, o monge ou monja se encontra na cela para encontrar Cristo. Os monges e monjas do deserto tinham a plena consciência das condições físicas desconfortável e desagradável que levavam. Mas confiavam no amor de Deus e receberam a graça de estar com Ele. É preciso suportar e perseverar. Na oração e meditação eles encontravam a HESYCHIA – o estado de tranquilidade e lucidez. Entenderam que a cela ensina a tudo. Trata-se do confronto consigo mesmo. Viviam o processo de metanoia, uma transformação libertadora, uma renovação. Faço lembrar que metanoia é justamente o oposto de paranoia.

São Bento (480-547) é posterior ao período dos Padres e Madres do deserto. Mas ele trouxe para os mosteiros muitos dos seus ensinamentos. Na regra que escreveu, expôs aos monges a maneira prática de como empreendê-los. A Regra de São Bento ajuda a ordenar de modo equilibrado o cotidiano dos monges e monjas há mais de 1.500 anos. Aliás a palavra regra é de origem latina, e significa REGULA, ou seja, ajuda a regular a vida dos religiosos e religiosas.

Seremos nestes dias, monges e monjas. E nossas casas, celas monásticas na qual Deus nos fala e nós estaremos mais preparados para ouvi-lo. Quem sabe este não é um tempo necessário para ouvirmos o que Deus tem a nos dizer!?

Por Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB
Mosteiro de São Bento de São Paulo

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