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Religião

Na terra de Jesus, o coronavírus assusta, mas a fé é mais forte

©GALI TIBBON / AFP

Italian Franciscan Father Francesco Patton, 52, replaces Father Pierbattista Pizzaballa in the post known as Custos of the Holy Land.

Silvia Costantini - publicado em 20/04/20

O custódio da Terra Santa conta como foi a Páscoa sem peregrinos

Que cristão nunca quis visitar pelo menos uma vez na vida a Terra Santa: os lugares por onde Jesus andou?

O crescente número de peregrinos confirma esse desejo comum. Basta dizer que, de acordo com dados fornecidos pelo Ministério das Relações Exteriores de Israel, cerca de 4,5 milhões de turistas visitaram Israel em 2019.

E esses números são especialmente importantes durante a Páscoa. Mas este ano, infelizmente, o coronavírus também isolou a Terra Santa.

Os frades da Custódia da Terra Santa e seus colaboradores, cumprindo as precauções necessárias, conseguiram celebrar os ritos da Semana Santa, divulgando-os ao mundo pela internet, fazendo com que os cristãos se sentissem mais próximos desses lugares sagrados.

A Custódia da Terra Santa, criada pela vontade de São Francisco de Assis em 1217, abrange Israel, Palestina, Síria, Jordânia, Líbano, Chipre e Rodes.

É responsabilidade da Custódia da Terra Santa acolher os peregrinos, cuidar do serviço aos pobres, do trabalho pastoral local, além da vida litúrgica dos Lugares Santos.

Nesta entrevista, seu superior, o padre Francesco Patton, custódio da Terra Santa, conta quais são os desafios que a Covid 19 está apresentando nos lugares onde Jesus viveu.

– Como foi a primeira Páscoa sem peregrinos?

Pe. Francesco Patton: Não é a primeira vez que nos encontramos diante de situações de emergência.

Não é a primeira Páscoa sem peregrinos, porque em 2000 houve a segunda Intifada que durou quase três anos. Nesse período, os frades se viram, por um lado, em meio a uma situação de conflito e, por outro, desapareceram os peregrinos.

No entanto, houve o apoio do resto do mundo. E foi possível também promover a coleção da Sexta-feira Santa, ao contrário deste ano, que foi alterada para setembro.

E não vamos esquecer que uma parte do nosso território está em guerra há anos: a Síria, onde os cristãos foram reduzidos a um terço do que eram há dez anos. E não esqueçamos que outra parte do nosso território, o Líbano, de 1975 a 1990 sofreu uma guerra civil que reduziu para um terço o número de cristãos, que antes da guerra eram a maioria no país e depois caíram para 35-36%

Portanto, a experiência de dificuldade da Custódia pertence não apenas ao passado, mas também à história recente.

– Você tem medo do coronavírus?

– Pe. Francesco Patton: Eu respeito o vírus. Sendo um homem de região montanhosa, sei que é necessário ter respeito pela natureza. Quem subestima os perigos sucumbe aos perigos. O medo é uma forma de respeito se se torna prudência, e, portanto, uma vida essencialmente normal poderá continuar, mas com algum cuidado. Penso que em todas as situações devemos ter um pouco de medo saudável, porque é um sentimento natural que serve para preservar a pessoa, mas não um medo paralisante. Minha vida está nas mãos de Deus.

– Por causa do confinamento, há muito mais pobres. O que estão fazendo por eles na Terra Santa?

– Pe. Francesco Patton: No momento, a assistência prestada aos pobres é essencialmente através das paróquias. Por exemplo, aqui em Jerusalém, há distribuição de alimentos. Na cidade antiga, mesmo antes do coronavírus, nossos cristãos já não nos pagavam nenhum tipo de aluguel, e essa era a nossa maneira de ajudá-los. São 450 famílias que não precisam se preocupar em pagar o aluguel.

Em outras áreas, no entanto, precisávamos de uma pequena contribuição para o aluguel, mas sempre abaixo dos preços de mercado. Por exemplo, se o preço do aluguel é de mil dólares por mês, a Custódia pede uma contribuição de cem dólares. E essa contribuição é importante, tanto para exercitar a responsabilidade do inquilino quanto para ajudar a Custódia a cobrir os custos.

Neste momento de confinamento, as pessoas têm uma redução de 70% do salário normal, então também reduzimos a contribuição de aluguel em 70%.

Em Belém, a paróquia, com a ajuda de jovens e escoteiros, identifica pessoas que precisam de ajuda para que possamos apoiá-las.

O mesmo acontece em outros territórios, por exemplo, na Síria, em Alepo, Damasco …, que são os locais em que esse tipo de ajuda existe há mais de dez anos. Os cristãos sírios antes da guerra não precisavam de ajuda, e naquele tempo eram eles que nos ajudavam.

Eu acho que a emergência por causa da pobreza começará daqui a alguns meses.

Por exemplo, quem mora em Israel tem uma espécie de seguro desemprego e também tem o mês de férias para usar. Portanto, podemos pensar que muitos estarão cobertos economicamente por dois meses, três meses.

Na Palestina, existe outro regulamento, no qual os trabalhadores têm direito a dois meses de salário integral, mais férias.

Se em dois ou três meses as coisas começaram a funcionar, para muitas pessoas, isso não deve representar uma emergência de extrema pobreza.

O problema é que os peregrinos não chegarão antes do final de setembro, e eles representam uma fonte de sustento para os cristãos locais.

Outro tópico são as escolas, que deveriam recomeçar de maneira regular. Temos cerca de quinze e no momento estamos usando ensino à distância.

O verdadeiro problema não é agora, mas começaremos a senti-lo financeiramente a partir de junho e julho.

E então esperamos que em 13 de setembro possamos fazer a coleta “Pro Terra Sancta” e que, apesar das dificuldades do momento, os cristãos do mundo continuem sendo solidários.

Caso contrário, o próximo ano será um ano difícil para nós. Porém, como um bom pai/mãe, calcularemos as despesas com base nos recursos que temos disponíveis.

– Israel, em particular Jerusalém, é uma cidade santa para cristãos, judeus e muçulmanos. Diante dessa pandemia devido ao coronavírus, existe alguma ação comum de ajuda mútua? Existem exemplos de colaboração?

– Padre Francesco Patton: Em 26 de março passado, houve um exemplo de colaboração precisamente em nível espiritual, com uma oração que fizemos do terraço da prefeitura. Encontramos cristãos, judeus, muçulmanos, drusos e bahá’ís.

Era uma invocação comum pelo fim da pandemia, pela cura dos doentes e de todos os que estavam em risco. Foi um momento muito significativo, porque todos os filhos de Abraão se reuniram para invocar em oração a Deus Todo-Poderoso.

Depois, há as iniciativas normais. Por exemplo, na cidade antiga, há um trabalho de assistência especialmente aos idosos e que não se limita aos paroquianos, mas é direcionado àqueles que precisam.

Entre nossos funcionários, temos judeus, muçulmanos e cristãos de todas as denominações. Procuramos apoiá-los, uma vez que eles, por sua vez, precisam prover suas famílias.

Há também uma boa abertura no nível institucional. Por exemplo, o Presidente do Estado de Israel, Reuven “Ruvi” Rivlin, me telefonou, como suponho a outros representantes das igrejas ocidentais, para nos felicitar na Páscoa e pedir orações.

Esses gestos de atenção são significativos e importantes.

– O senhor já está pensando em novas maneiras de acolher os peregrinos? 

– Pe. Francesco Patton: É necessário esperar o retorno dos peregrinos. Enquanto isso, os santuários estão aproveitando para realizar trabalhos de manutenção. Temos que avaliar como reabrir e quais regras seguir, tendo em mente que nem todos os lugares são iguais.

Quem vem a Cafarnaum tem um espaço aberto, muito amplo, assim como no campo dos Pastores de Belém. Para quem quer que venha a Nazaré, a Basílica é grande o suficiente, diferente de outros lugares como Naim, local do milagre da ressurreição do filho da viúva. A igreja é pequena e não há espaço. Em geral, temos espaços fora do santuário, onde podemos gerenciar os grupos. Mas devemos organizar a reabertura.

Em parte, as normas gerais de controle de pessoas nos ajudarão, porque, por exemplo, a medição da febre já será realizada no aeroporto. Seria difícil para nós fazer isso em todos aqueles que entram na igreja.

Atualmente, medimos a febre para quem entra nos prédios da Custódia, porque é exigido por lei, mesmo aqui na cúria. Teremos que ter muito cuidado para desinfetar tudo. Repito, precisamos parar e refletir sobre isso. Mas espero e acredito que esta fase de emergência possa ser gerenciada.

– Em breve, serão quatro anos desde sua nomeação como custódio da Terra Santa. Foi um evento singular, porque um frade que não morava na Terra Santa foi nomeado.

– Padre Francesco Patton: Trinta anos atrás, era normal. Mas então eles mudaram os estatutos da Custódia da Terra Santa para torná-la uma “província” comum. Mas na realidade ela nunca foi uma província comum, porque é missão da Ordem desde 1217 e é também uma Missão especial confiada pelo Papa, em particular desde 1342, quando o Papa Clemente VI, com a bula “Gratias Agimus”, quis confiar aos frades que viviam na Terra Santa a custódia dos lugares sagrados. E, de fato, desde então, o custódio muitas vezes vinha de fora.

– O que mais o surpreendeu na terra de Jesus?

– Pe. Francesco Patton: A parte mais significativa dessa experiência está relacionada à internacionalidade da Custódia da Terra Santa e sinto isso ainda mais neste período de coronavírus, porque me parece que nossa fraternidade internacional, neste momento, representa bem o clamor de toda a humanidade que precisa de esperança, para recuperar um horizonte de significado diferente do puramente material.

Ao mesmo tempo, vejo nesta internacionalidade também a bênção, a graça, a misericórdia que desce de Deus para a humanidade, ou seja, uma irmandade internacional, que é o sinal do Pentecostes, a que a Igreja é chamada. Isso me impressionou imediatamente, e é exigente, mas também é uma das coisas mais bonitas.

A outra coisa é o contato com os lugares sagrados. O fato de poder celebrar nos lugares onde o mistério é lembrado. Hoje em dia, apesar de todas as restrições, por exemplo, estar na Quinta-feira Santa no Getsêmani, entrar em sintonia com Jesus que ora…

Celebrar nestes lugares é algo que também facilita a nossa humanidade. A coisa mais bonita do cristianismo é que é uma proposta incorporada. É Deus quem se torna carne, que entra em um contexto que chamamos de Terra Santa.

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