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Brasil: mídia destaca chip implantado em humanos, mas não aborda risco à liberdade

BIO IMPLEMENTACJA
AMELIE-BENOIST / BSIP
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Matéria do jornal O Globo destaca promessas positivas para a saúde, mas implicações de um chip instalado no corpo são muito mais complexas

O jornal carioca O Globo publicou recentemente a matéria “Coronavírus: novidade no Brasil, implante de chips é aposta da Medicina” (18/03/2020), com o subtítulo “Dispositivos armazenam informações médicas e podem monitorar sinais vitais e, no futuro, até doenças como a Covid-19“.

A matéria destaca aspectos positivos que resultariam do uso de chips implantados em seres humanos para monitorar indicadores de saúde, facilitar tratamentos médicos e até conter epidemias como a da covid-19. Também chamados “biochips”, tais dispositivos armazenariam informações pessoais como alergias, tipo sanguíneo, uso de medicamentos controlados e contatos de emergência, além de, no futuro, monitorarem sinais vitais como, por exemplo, o índice de açúcar no sangue para aprimorar o tratamento das pessoas que sofrem de diabetes. O artigo recorda, aliás, que, em 2018, o departamento de vigilância sanitária dos Estados Unidos já aprovou o uso de tal recurso para o monitoramento de índices de glicose.

O texto menciona ainda que os biochips podem funcionar como identificadores pessoais, permitindo, por exemplo, que o usuário os empregue para abrir portas com fechaduras eletrônicas.

De passagem, o artigo também reconhece que esses chips podem servir a finalidades menos prosaicas e bem mais preocupantes, como invadir o celular de outra pessoa, roubar fotos e dados ali armazenados e instalar vírus informáticos.

O maior ponto de exclamação e de interrogação ligado aos biochips, no entanto, não é abordado com a necessária clareza pela matéria: o fato de que, além de monitorar, os biochips podem ser monitorados.

Privacidade, intimidade e liberdade sob vigilância 24h

Um chip instalado no corpo de milhões de cidadãos facilitaria enormemente o “trabalho” que já é realizado em ampla escala por regimes totalitários interessados no controle minucioso da sua população, como é o notório caso da China comunista.

Por lá, milhares (ou milhões) de câmeras de vigilância integradas a software de reconhecimento facial já conseguem identificar em milissegundos uma vasta parcela da população, registrando detalhadamente e em tempo real a locomoção e o comportamento dos cidadãos nos espaços públicos. Os dados captados pelas câmeras são cruzados com centenas de informações pessoais registradas por uma fabulosa quantidade de outras fontes, que podem ir da conta bancária às catracas eletrônicas do transporte público, do prontuário médico aos registros acadêmicos, dos controles de performance profissional aos pagamentos de quaisquer compras em quaisquer estabelecimentos, passando, obviamente, pela infinidade de dados gerados pelo uso de smartphones: histórico de geolocalização, aplicativos instalados, registro de atividades, fotos e vídeos, lista de contatos e tipo de relação com cada um deles, mensagens enviadas e recebidas, conversas telefônicas mantidas com quem quer que seja, dados pessoais, familiares e profissionais… Junto com tudo isso, toda a atividade nas redes sociais permitidas no país é varrida em pormenores pela vigilância do regime, que monitora com zelo particular as críticas ao sistema.

Essa gama extraordinária de informações pessoais se transforma em arma de imponderável poder de controle nas mãos do Partido Comunista Chinês. De fato, o regime de Pequim já implantou na China um sistema de “crédito social” pelo qual os deslizes de qualquer indivíduo vão sendo “descontados” do seu “saldo”, de modo que, conforme a sua “qualificação” comportamental, um cidadão pode ser punido com multas, restrições a promoções no trabalho, negações de autorização de viagens, prisão e até obscuros “desaparecimentos repentinos”. Uma apresentação impactante deste cenário pode ser conferida no documentário “The World According To Xi Jinping” (“O mundo segundo Xi Jinping“), produzido em 2019 por Arnaud Xainte, realizado por Louise Muller e com versão em português exibida pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal). O documentário, que dura pouco mais de 50 minutos, pode ser encontrado em vários canais do YouTube.

Se tal cenário aparentemente distópico já está implantado na vida real do país mais populoso do planeta graças ao cruzamento de dados obtidos por câmeras, celulares, redes sociais e cadastros diversos, que limite haverá para este ou para qualquer outro regime totalitário no momento em que a maioria dos seus cidadãos estiverem com um chip embutido no próprio corpo durante 24 horas por dia?

O que um governo quase onipotente, quase onipresente e quase onisciente poderá decidir fazer com doentes crônicos ou em estado grave, com portadores de deficiências e com idosos não mais considerados produtivos e “úteis” a seu serviço? Se mesmo no Ocidente hipocritamente autoproclamado “livre”, “inclusivo” e “defensor dos direitos humanos” já abundam campanhas e estratégias ideológicas descaradamente promotoras da eugenia, do aborto “terapêutico”, da eutanásia e do suicídio assistido, que tipo de políticas de “melhoramento social” podem ser esperadas de um regime repressor que sabe em qualquer instante quais são os cidadãos que ainda têm saúde suficiente para trabalhar durante anos e quais já podem ser descartados antes que se tornem custosos demais para valerem a pena?

É obviamente proveitoso e esperançador contar com dispositivos tecnológicos avançados que ajudem a salvar vidas identificando riscos para a saúde e ajudando a combater doenças, mas um mínimo de honestidade intelectual exige que este assunto seja sempre abordado na sua totalidade, analisando-se imprescindivelmente os grandes riscos que esses mesmos dispositivos podem representar para a liberdade dos indivíduos e de povos inteiros.

A matéria de O Globo focou basicamente nas promessas de benefícios proporcionados pelo biochip. Não custa nada (ao menos por enquanto) recordar aos leitores que essas promessas não são nem devem ser o único aspecto a ser levado em conta.

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