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Onde ciência e religião dialogam para enfrentar o coronavírus

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 26/04/20

O magistério da Igreja sempre defendeu a responsabilidade social, a solidariedade com os mais frágeis e a cooperação internacional

Num momento de tantas polêmicas sobre quarentenas e drogas alternativas, de busca de solidariedade e esperança, precisamos ter claro como, na perspectiva católica, pode haver um diálogo entre ciência e religião – e como ele nos ilumina na luta contra a Covid-19. A Santa Sé conta com órgãos voltados especificamente para o diálogo com a ciência e a técnica no mundo atual. Em fins de março, três deles lançaram documentos voltados especificicamente à crise atual. As Pontifícias Academias de Ciências e de Ciências Sociais publicaram, em coautoria, Responding to the Pandemic, Lessons for Future Actions and Changing Priorities (em português: “Respondendo à pandemia, lições para ações futuras e mudança de prioridades”) e a Pontifícia Academia para a Vida, Pandemia y Fraternidad Universal (título da versão em espanhol).

As três academias caminham no mesmo sentido, exortando o trabalho dos cientistas e o apoio dos governos à pesquisa (ainda que reconhecendo os limites inerentes ao conhecimento científico); chamando os entes públicos à responsabilidade diante da vida das pessoas, particularmente dos mais pobres e vulneráveis; valorizando a solidariedade entre todos na sociedade e a cooperação internacional. Pode parecer que esses tópicos, assim resumidos, apenas façam coro às posições externalizadas pela maior parte da mídia e da opinião pública. Mas, na verdade, sua implicação é muito maior.

O realismo diante da ciência

O cristianismo sempre procurou se afastar das superstições e ilusões. Por isso, na Antiguidade e na Idade Média, realizou um intenso diálogo com a filosofia, confiante em que a verdade é sempre única, ainda que se manifeste de muitas formas, e todos os que a buscam sinceramente podem se entender. A doutrina católica condena, por isso, tanto a ideologia negacionista, que não quer reconhecer o conhecimento científico quando esse contraria sua visão de mundo, quanto a ideologia cientificista, que espera usar a ciência para validar o comportamento humano e a moral.

Trata-se de uma postura realista em relação à ciência. A investigação baseada no método científico mostrou que não podemos confiar de modo inquestionável em nossa percepção da realidade, pois ela muitas vezes é falha. O exemplo clássico e o de uma vara mergulhada em águas claras: ela parece “se quebrar” na superfície e sofrer um pequeno desvio na parte submersa, por causa de uma ilusão de ótica explicada pela física. A ciência elucida o fenômeno e mostra o erro de nossos sentidos. No mundo atual, não podemos simplesmente negar os dados da ciência porque eles nos desagradam. Mas os cientistas também erram. Um importante filósofo da ciência, Karl Popper, afirma que a ciência nunca pode afirmar com certeza quando uma afirmação é certa, apenas quando é errada. O fato de todas as evidências corroborarem uma hipótese, não significa que amanhã não surgirá uma nova evidência que mostre seu erro. Basta essa única evidência contrária para sabermos que a teoria está errada e deve ser descartada ou revista. O bom cientista está sempre disposto a reconhecer erros em suas teorias e render-se a novas evidências.

Para que um trabalho científico ser aceito, deve passar por uma “revisão por pares”, isso é, outros cientistas que conhecem profundamente o assunto devem fazer uma revisão do estudo, para verificar se a metodologia foi bem aplicada, se os dados não foram falseados e se as conclusões fazem sentido. É esse sistema que faz o conhecimento científico atual tão consistente e confiável, em contraposição às teses negacionistas que se baseiam em percepções subjetivas e individuais da realidade.

A contribuição da sabedoria

Quem acredita de forma cega nas teorias científicas é tão ideológico quanto aquele que nega a ciência. Mas, provavelmente, o maior perigo do cientificismo não é acreditar que a ciência é infalível, mas sim querer usá-la para validar a moral. A ciência nos fala de relações entra causa e efeito, mas não nos informa sobre o sentido das coisas. Nos explica como o coronavírus se dissemina e afeta nosso organismo, permite traçar modelos matemáticos do desenvolvimento da pandemia e fazer previsões sobre seu choque na economia. Mas não nos diz nada sobre o sentido da vida dos que morreram, não nos permite entender por que a esperança não morre em nosso coração ou vislumbrar a beleza que se aninha nos braços da verdade. Uma resposta para essas questões depende da sabedoria, que não vem da ciência, mas da experiência de vida, da filosofia e da religião.

O magistério da Igreja sempre defendeu a responsabilidade social, a solidariedade com os mais frágeis e a cooperação internacional. Para os cristãos, essas não são “descobertas” desse tempo de pandemia, basta lembrar a defesa que o Papa tem feito dos migrantes e refugiados e as encíclicas sociais de seus antecessores. Quando a Igreja defende esses princípios, não está “se rendendo” à mentalidade dominante, mas sim conclamando a todos para aderirem aos princípios que sua sabedoria milenar sempre anunciou.

O diálogo entre a ciência e o cristianismo não pode negar o conhecimento científico em nome de posicionamentos subjetivos e particulares, mas deve iluminar a ciência com a sabedoria que nasce do encontro com Cristo.

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