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Como viver o luto se eu não posso velar um ente querido que faleceu?

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Por causa da pandemia, muitos mortos estão sendo sepultados sem a presença da família. Mas, além do velório, existem outras maneiras de se despedir de um ente querido e processar a dor da partida

Dia desses eu me deparei com um funeral solitário. Eu estava andando de bicicleta pela manhã quando ouvi o sino da igreja tocar. Olhei e vi um único funcionário da funerária tirando um caixão de um carro funerário e levando-o para dentro da igreja sem a família. Não sei quem estava naquele caixão, mas sei que o que eu estava testemunhando silenciosamente era sagrado. Fiz uma oração silenciosa.

Como padre, estive presente em funerais de todos os tamanhos. Alguns tinham tanta gente que as pessoas tiveram que ficar em pé. Estive em funerais onde houve duas dúzias de padres ou mais reunidos no velório. Eu também estive em pequenos funerais. Em um deles, os únicos participantes eram eu, os funcionários da funerária e o advogado de bom coração que cuidava das propriedades do falecido.

Há várias razões para isso acontecer. Por exemplo, pessoas idosas sem filhos que sobreviveram a todos os seus amigos e familiares tendem a ter pequenos funerais. É mais comum do que você imagina, e não tem nada a ver com o quanto a pessoa era querida. É por isso que é um ato de misericórdia participar de funerais. Nunca sabemos o quanto essa pessoa em particular precisará de nossas orações. Nunca sabemos quantas pessoas estarão lá para rezar…

Mas em toda a minha vida, nunca tive que celebrar uma Missa fúnebre completamente vazia. Sempre tinha alguém.

Devido à quarentena da pandemia do novo coronavírus, os funerais são ainda mais difíceis. Suspeito que a maioria das pessoas ainda pode velar seus mortos com alguns membros da família, sem aglomeração. Mas outras, nem isso. A família mora longe não voar para fazer as despedidas e os amigos que estão por perto para preencher o vazio podem não ter permissão para participar. Isso complica muito o processo de luto.

Nos velórios, é comum as pessoas quererem beijar o falecido na testa uma última vez antes de o caixão ser fechado. Queremos colocar um rosário nas mãos e olhar o rosto uma última vez. Na igreja, há consolo em ver a água benta borrifada, em cheirar o incenso subir ao céu. Ao lado da sepultura, somos movidos por um impulso interior de tocar o caixão antes de irmos embora.

Como padre, eu vejo isso o tempo todo. A maneira como uma família se expressa antes e depois do funeral é tão diferente quanto a noite e o dia. Não é como se eles estivessem magicamente curados e prontos para seguir em frente, mas o funeral lhes dá permissão para ficarem tristes. Isso os ajuda a parar de fingir que não houve perda e cria uma oportunidade de mostrar seu amor.

No luto, normalmente passamos por cinco estágios – negação, raiva, barganha, tristeza e aceitação. Embora os estágios nem sempre sigam essa ordem e nem sempre sejam claros, todos passamos por eles de uma maneira ou de outra.

Quando experimentamos perdas, a necessidade de lamentar e passar por esse processo é forte. É natural. Ninguém mais faz isso por você. Tem que ser você. Os funerais são uma etapa vital no processo. Não há atalhos para o final e não há como deter a dor e fingir que a perda nunca aconteceu. Mas se você não pode ir ao funeral, se não tem permissão para ir ao velório ou enterro, como pode sofrer?

O que eu posso aconselhar nestes casos é que você deve reconhecer sua dor e aceitar a perda. Não se pode esperar que a cura aconteça automaticamente, com o passar do tempo. Não é verdade que o tempo cura todas as feridas. Posso garantir-lhe que, se não lamentamos ativamente, nunca processaremos completamente nossa dor e ela permanecerá em nossas veias como veneno.

Outros conselhos: permita-se chorar, escreva uma carta ao falecido dizendo a eles o quanto você os amava e leia algumas passagens das Escrituras que são usadas durante os funerais e comprometa-se a fazer orações em favor do seu ente querido que partiu. Marque uma Missa em intenção à alma dele. Faça uma doação em nome de seu ente querido para uma instituição de caridade. Fale sobre isso e expresse suas emoções honestamente, sem clichês ou falsas tentativas de esperança. Se você precisar, fale sobre isso em um grupo de apoio ao luto, alguns dos quais são oferecidos por paróquias e se encontram on-line agora

Não permita que a culpa ou a frustração de não poder velar o falecido te atrapalhem.

Existem muitas maneiras de processar a dor e marcar a morte de um ente querido. No entanto, a chave é ser honesto e paciente consigo mesmo. Sim, em um mundo ideal, iríamos ao velório e funeral. Em um mundo ideal, ninguém morreria sozinho ou seria enterrado sozinho. A situação atual é um lembrete forte de que a vida está longe de ser perfeita. Mas de uma coisa eu tenho certeza: o amor é mais forte que a morte. Supera toda separação.

Quem ama nunca está sozinho!

 

 

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