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Como Nicodemos confunde entre “nascer do Alto” e “nascer de novo”

Domínio Público
Jesus e Nicodemos
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Três são os que dão testemunho de Jesus: o Espírito, a água e o sangue

Dom Henrique Soares da Costa, bispo de Palmares, PE, publicou em seu blog uma esclarecedora reflexão sobre o tempo pascal que estamos vivendo e a sua relação profunda com o Batismo e a Eucaristia:

Nos dias da Oitava da Páscoa ouvimos na Missa diária os evangelhos que narram as aparições do Ressuscitado aos seus discípulos. Na segunda semana, ouvimos o capítulo terceiro de São João. E por quê? Porque a tradição da Igreja vê aí, no diálogo de Jesus com Nicodemos, uma catequese sobre o Batismo. Batismo e Eucaristia, os sacramentos pascais, simbolizados na água e no sangue que brotaram do lado do Crucificado logo depois que Ele entregou o Espírito.

Como afirma a Primeira Carta de São João: três são os que dão testemunho de Jesus: o Espírito, a água e o sangue. Em outras palavras: no Batismo e na Eucaristia recebemos o Espírito Santo que nos testemunha o Cristo morto e ressuscitado como Senhor vivente e nos dá a Sua própria Vida divina recebida do Pai no evento mesmo da Ressurreição: “Morto na carne, foi vivificado no Espírito” (1Pd 3,18).

Na perícope de João 3, Nicodemos vem de noite à procura de Jesus. É um chefe judeu versado na Torá. Vem de noite à procura da Luz… Ele reconhece que Jesus vem de Deus, acredita nos sinais que o Senhor realiza, mas ainda não sabe, não crê que Jesus é o Filho de Deus… Como judeu, ainda está na noite! Aqui, não há remédio: um filho de Israel, por bom que seja, por bem intencionado que se mostre, somente alcança a luz quando crê em Jesus como o Messias enviado pelo Pai. Até lá, está na noite!

Ora, para que que se veja a Luz é necessário nascer do Alto, nascer de Deus, recebendo uma Vida divina, ressuscitada, e somente Jesus Cristo pode realizar isto, dando-lhe o Seu Espírito. Nicodemos confunde “nascer do Alto”, isto é, nascer de Deus, receber a Vida divina, do Eterno, com “nascer de novo” (em grego ánothen significa as duas coisas). Jesus, no entanto, refere-Se ao Batismo, no qual se nasce para a Vida que vem de Deus, Vida dada pelo próprio Jesus morto e ressuscitado: nascer da água e do Espírito significa nascer pela água que é instrumento do Espírito, isto é, que é símbolo eficaz da potente ação do Espírito. O que nasce da carne, da pura natureza humana, é somente carne e não tem como chegar à Vida de Deus. É preciso receber essa Vida divina pela água que doa o Espírito no Batismo.

Aqui, a inteligência humana desfalece. A ação do Espírito de Deus é como o vento: vemos os seus efeitos, mas não sabemos de onde vem nem para onde vai, pois Deus é Mistério, Deus é liberdade em toda a Sua obra. Ao homem cabe acolhê-Lo com amor e adoração. Aquele que recebe o Espírito e se deixa por Ele conduzir, torna-se livre, como o vento, é uma nova criatura, tem uma nova compreensão e, finalmente, experimenta que Jesus, nosso Senhor, realmente veio de Deus não como um simples profeta realizador de sinais, mas como o próprio Filho, divino como o Pai.

É esta a experiência dos que foram batizados na Páscoa; é esta a nossa experiência: experimentar que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, Vivo e Vivificante, pleno do Espírito, Senhor que dá a Vida! Tal experiência é fruto da presença do Espírito de Cristo que recebemos nas águas batismais! Eis! Como os antigos hebreus atravessaram o Mar Vermelho, como Jesus atravessou o Mar da Morte, nós, atravessamos as águas batismais, deixando o Egito da velha vida para entrar na Terra Prometida que é a comunhão com o Pai através do Seu Filho Jesus Cristo, pois recebemos o Seu Espírito Santo!

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