Aleteia
Sábado 24 Outubro |
São Maglório
Estilo de vida

Rumo a um Dia das Mães sem consumismo

DZIEŃ MATKI

VGstockstudio | Shutterstock

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 03/05/20

Esse pode ser um Dia das Mães especial, onde nos damos conta do quanto a mentalidade consumista e o individualismo moderno nos impedem de saborear a riqueza dos relacionamentos familiares

O cristianismo, em sua sabedoria milenar, instituiu períodos de preparação (a Quaresma e o Advento) para suas grandes festas (Páscoa e Natal). Nosso coração e nossa inteligência precisam desses tempos para se colocarem numa postura adequada para saborear as festas. Num senso bem mais profano, as festas populares também têm seu tempo de preparação, informal e geralmente usado para os preparativos da festa. Antes do Dia das Mães, a preparação normalmente se concentra na procura do presente adequado e na escolha e preparação do cardápio familiar.

Nesse ano, com quarentena na maior parte do País, as coisas serão um pouco diferentes para a maioria de nós. O isolamento social nos afasta das matriarcas, agora “população de risco”, ao mesmo tempo que dá a muitas jovens mães trabalhadoras uma possibilidade inédita (e complicada) de uma longa convivência com seus filhos pequenos. Os serviços online podem suprir em parte as compras nas lojas, mas pode-se constatar uma redução no volume de propagandas e no movimento consumista que normalmente antecede essa data.

Teremos um Dia das Mães menos consumista e no qual todos, mães e filhos, terão a chance de refletir sobre o significado da maternidade – e isso é muito, muito bom. O aumento do consumo nessa época não é um mal em si. Nesse sentido, precisamos até superar certos moralismos que atrapalham a festa. Presentear é uma forma de demonstrar afeto e consideração em praticamente todas as culturas humanas. A alegria da festa também sempre se expressa em refeições especiais. É natural e justo que os presentes (os quais não implicam sempre em compras) e as grandes refeições familiares se multipliquem nesse período.

O problema reside em nossa dificuldade de expressar afeto e consideração sem recorrer a objetos, à tendência de avaliar uma relação pelo preço do presente, de fazer a festa sem antes ir se reconciliar sinceramente com o irmão (cf. Mt 5, 19). Por isso, uma comemoração na qual a reunião festiva e as compras estão comprometidas pode ser uma oportunidade para todos nós.

O amor desencontrado

Nos tempos atuais, falamos muito de amor, mas somos cada vez mais deseducados a amar. Bento XVI, na Deus caritas est (DCE 3-8), lembra que começamos a amar desejando algo bom para nós – como a criança quer a mãe e o adolescente deseja a namorada. Este é o eros. Contudo, à medida que amadurecemos, percebemos que só isso não basta para nos satisfazer. O impulso erótico acaba por tentar se apoderar da pessoa amada, privando-a de liberdade, e frustrando o próprio amante. O amor, para crescer, continua Bento XVI, deve evoluir para se tornar doação (ágape). É a experiência do casal, que deseja primeiro o bem um do outro e depois a doação a um outro, o filho.

O individualismo cada vez maior de nossa cultura, contudo, vem acompanhado de uma imaturidade afetiva crescente. É cada vez mais difícil o eros evoluir para ágape. As relações interpessoais deixam de ser regidas pelo afeto e se tornam “contratos”, onde um dá ao outro em função daquilo que recebe. Quando a reciprocidade é quebrada, quando um não corresponde mais às expectativas do outro, o contrato deve ser quebrado, segundo essa mentalidade – é o drama de tantos relacionamentos destruídos em nossa sociedade.

Por outro lado, a “dúvida sistemática”, que seria um valor inegável quando usada pelo método científico, não sabe trabalhar com a contradição inerente ao ser humano, que não faz o bem que quer, mas sim o mal que não quer (cf. Ro 7, 19). Ninguém sabe amar perfeitamente ou consegue ser sempre coerente ao amor que sente. Para a mentalidade atual, contudo, essa contradição lança uma dúvida sobre a própria existência do amor. Não conseguimos amar como gostaríamos, mas cobramos que os outros nos amem como gostaríamos – e quando as coisas não acontecem segundo nosso projeto passamos a duvidar do próprio amor.

Num mundo que não sabe amar, a doação se confunde com subserviência, a dedicação e a preocupação com o bem do outro com cobrança ou controle. O justo desejo de superar os limites do autoritarismo patriarcal se torna um questionamento sobre a própria essência das relações familiares.

Maternidade e compreensão do amor

Esse pode ser um Dia das Mães especial, onde nos damos conta do quanto a mentalidade consumista e o individualismo moderno nos impedem de saborear a riqueza dos relacionamentos familiares, redescobrir o amor humano, tão belo quanto contraditório.

Com propriedade, o Papa João Paulo I lembrava que Deus é pai, mas também é mãe. A maternidade é, sem dúvida, o último e mais forte baluarte da gratuidade possível mesmo com os limites do amor humano. Sem a compreensão dessa riqueza, viveremos uma sociedade reduzida ao cálculo e a interesses individualistas, incapaz de compreender a ternura e o dom de si necessários à plena realização da pessoa humana. Não percamos essa chance, uma das tantas que Deus nos dá nesse tempo de pandemia – pois Ele pode fazer um bem maior surgir do próprio mal.

Apoiar a Aleteia

Se você está lendo este artigo, é exatamente graças a sua generosidade e a de muitas outras pessoas como você, que tornam possível o projeto de evangelização da Aleteia. Aqui estão alguns números:

  • 20 milhões de usuários no mundo leem a Aleteia.org todos os meses.
  • A Aleteia é publicada em 8 idiomas: Português, Francês, Inglês, Árabe, Italiano, Espanhol, Polonês e Esloveno.
  • Todo mês, nossos leitores acessam mais de 50 milhões de páginas na Aleteia.
  • 4 milhões de pessoas seguem a Aleteia nas redes sociais.
  • A cada mês, nós publicamos 2.450 artigos e cerca de 40 vídeos.
  • Todo esse trabalho é realizado por 60 pessoas que trabalham em tempo integral, além de aproximadamente 400 outros colaboradores (articulistas, jornalistas, tradutores, fotógrafos…).

Como você pode imaginar, por trás desses números há um grande esforço. Precisamos do seu apoio para que possamos continuar oferecendo este serviço de evangelização a todos, independentemente de onde eles moram ou do quanto possam pagar.

Apoie Aleteia a partir de apenas $ 1 - leva apenas um minuto. Obrigado!

Tags:
FamíliaFilhosMaternidade
Oração do dia
Festividade do dia





Top 10
Philip Kosloski
3 poderosos sacramentais para ter na sua casa
TRIGEMELAS
Esteban Pittaro
A imagem de Nossa Senhora que acompanhou uma ...
Aleteia Brasil
Quer dormir tranquilo? Reze esta oração da no...
Aleteia Brasil
O milagre que levou a casa da Virgem Maria de...
SAINT MICHAEL
Philip Kosloski
Oração a São Miguel por proteção contra inimi...
Rosário
Philip Kosloski
Benefícios do Rosário: 3 virtudes que aprende...
Papa Pedro João Paulo II Bento XVI Francisco
Reportagem local
Pedro, João Paulo, Bento e Francisco: 4 Papas...
Ver mais
Boletim
Receba Aleteia todo dia