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Filosofando com Aristóteles e S. Tomás: “Qual é a causa da existência da cadeira?”

KOBIETA WPATRZONA W OKNO
Pexels | CC0
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Segundo o filósofo grego de 2.500 anos atrás, existem 4 tipos de causa – e distingui-las nos ajuda a evitar muitos e relevantes mal-entendidos

Uma pergunta aparentemente banal: qual é a causa da existência da cadeira?

As 4 causas aristotélicas

Segundo o filósofo grego Aristóteles, que viveu há 2.500 anos, esta pergunta pode ser interpretada de quatro maneiras diferentes.

1 – Se entendemos que a causa da existência da cadeira é o fato de que alguém a produziu, estamos falando da “causa eficiente”:

A causa da existência da cadeira é José, que a construiu. José é a causa eficiente da cadeira.

2 – Se entendemos que a causa da existência da cadeira é a finalidade de nos sentarmos nela, estamos falando da “causa final”:

A causa da existência da cadeira é que precisamos dela para nos sentarmos. Sentar-se é a causa final da cadeira.

3 – Se entendemos que a causa da existência da cadeira é a madeira da qual ela é feita, estamos falando da sua “causa material”:

A causa da existência da cadeira é a sua matéria-prima. A madeira, neste caso, é a causa material da cadeira.

4 – E se entendemos que a causa da existência da cadeira é justamente o fato de que ela é uma cadeira e não uma garrafa, estamos falando da “causa formal”:

A causa da existência de uma cadeira é a sua própria natureza de cadeira, é o fato de ser uma cadeira e não uma garrafa ou outra coisa qualquer. O fato de ser especificamente uma cadeira e não outra coisa é a causa formal da existência da cadeira.

Cada uma dessas quatro interpretações equivale a perguntar “Qual é a causa da existência da cadeira?“, só que a partir de quatro perspectivas diferentes; a partir da consideração de quatro tipos diferentes de “causa” para essa existência.

Em grego antigo, a palavra “causa” (aitía) tem um sentido de “razão”: a razão pela qual. Confundir os diferentes tipos de causa ou razão de existência gera absurdos: quando alguém pergunta “Quem fez a cadeira?“, não faz sentido responder “Para sentar-se“. Cada abordagem sobre a causa de algo pede uma resposta delimitada por essa mesma abordagem. Para que obtenhamos uma explicação completa sobre a causa de algo, pensava Aristóteles, precisamos envolver as quatro perguntas e as suas respectivas quatro respostas.

A rejeição moderna da causa formal

Hoje em dia, tende-se a rejeitar no âmbito da ciência moderna a validade das quatro causas aristotélicas. Já no início do período moderno, cerca de 500 anos atrás, os filósofos Locke e Hume questionavam aquela que Aristóteles chamava de “causa formal”, que corresponde à natureza metafísica de algo. Eles achavam que a ciência moderna pode explicar de que uma coisa é feita e quais são as suas leis de governo sem precisar abordar a sua natureza metafísica.

A rejeição moderna da causa final

Galileu, Newton e outros cientistas dispensaram o “para quê?” nas questões da física. Para eles, a ciência moderna é capaz de explicar o mundo físico em termos puramente “mecanicistas”, sem precisar de noções não-científicas como “desígnio” ou “propósito”. Mas muitos outros cientistas resistiram à intrusão da ciência moderna no território da biologia, onde aquela que Aristóteles chamava de “causa final” (“para quê?”) foi bem mais duradoura. Afinal, as “causas mecanicistas” não explicam os “para quês” da natureza biológica.

No entanto, Darwin começaria a tentar banir a causa final também do âmbito biológico. Para ele, a complexidade que pareceria indicar a existência de um Criador seria apenas o resultado de variações aleatórias durante um longo período de tempo.

Mas banir as “causas finais” das ciências físicas e biológicas não é bani-las de toda forma de explicação.

A resistência filosófica da causa final

As “causas finais” continuam prosperando no domínio metafísico. Darwin só mostrou que a biologia, como diferente, por exemplo, da metafísica, da teologia ou da ética, pode dispensar as “causas finais” como a física o fez nos tempos de Newton. Isso deixa os biólogos dispensados de responderem a perguntas sobre a finalidade no tocante à existência das espécies, mas não proíbe a humanidade (nem poderia) de lidar com questionamentos essenciais e transcendentes sobre a causa final do próprio existir: para quê, no fim das contas, existe o que existe, quando poderia muito bem não existir nada? E muito mais pessoalmente (e crucial): para quê existo eu? Qual é o propósito do meu existir?

O problema, portanto, não é Darwin, e sim a ideia moderna de que a teologia só poderia discutir o que a ciência não consegue explicar. Ocorre que, se você professar a sua religião a partir das lacunas do conhecimento científico, você inevitavelmente se verá frustrado quando essas lacunas forem preenchidas, porque preencher lacunas científicas é justamente o que se espera do progresso da ciência. A religião pode (e consegue) fazer relevantes “provocações” à ciência no tocante às causas daquilo que existe, incentivando a parceria entre fé e razão para elevar mais integralmente o espírito humano à busca e à contemplação da verdade. A verdadeira religião não deve temer a ciência. Nem a verdadeira ciência deve temer a religião a ponto de negar a razoabilidade dos questionamentos que ela própria, a ciência, não consegue esclarecer.

As causas primárias e secundárias, segundo S. Tomás de Aquino

Tomás de Aquino fez uma distinção de natureza entre as questões teológicas e natural-científicas.

Tanto a teologia quanto a biologia moderna perguntam: “Por que há seres humanos?“. Mas elas entendem a questão de forma diferente.

Para a biologia moderna, a pergunta significa: “Como e quando os seres humanos surgiram?” e “Quais são as partes constituintes dos seres humanos?“. As respostas para essas perguntas (“variações genéticas aleatórias ao longo do tempo” e “células e genes”) são o que Tomás de Aquino chamou de causas “secundárias”. São explicações de coisas na natureza que podem invocar leis probabilísticas, seleção natural ou as respostas que a teoria científica mais recente sugerir.

Mas a teologia pergunta por aquilo que Tomás de Aquino chama de causas “primárias”: “Qual é a fonte do ser?“, “Qual é o significado e a razão da criação?“. E nem os registros fósseis, nem a seleção natural respondem a estas questões. Elas não são as ferramentas adequadas para esta tarefa. Confundir questões teológicas e científicas é cometer um erro de categoria.

O conceito teológico de criação não é um conceito científico, porque o Deus da teologia católica não é, como Santo Agostinho enfatizou, a ignição da existência, mas a sua causa em sentido não-temporal. Deus dá origem e sustenta a existência, inundando-a de sentido, tenha o homem vindo ou não do peixe, do macaco ou da poeira das estrelas, e sejam ou não probabilísticas as leis que regem essa evolução. A evolução, aliás, não refuta Deus, assim como o eletromagnetismo não refuta a consciência moral.

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