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Pós-quarentena: como distinguir o supérfluo do essencial

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Shutterstock | mrmohock

Agnès Pinard Legry - publicado em 27/05/20

Um padre apresenta um método simples para nos a ajudar a decidir quais mudanças provocadas pela quarentena gostaríamos de manter em nossas vidas depois da pandemia

Diante da resposta dos governos e autoridades de saúde à pandemia da COVID-19, as pessoas em todo o mundo tiveram que abandonar muita coisa a que estavam acostumadas: usar o transporte público, deixar os filhos na escola de manhã, sair para tomar um drinque com os colegas, encontrar amigos em um restaurante, ir à missa aos domingos, ir à piscina, fazer compras, viajar…

Nossa vida ficou de cabeça para baixo quase que da noite para o dia. Mas agora, em alguns países, as pessoas já estão começando a retomar algumas dessas atividades. Aí vem a pergunta: será que realmente queremos que nossas vidas voltem exatamente ao que eram antes?

O Padre Jacques Turck, da diocese de Nanterre, França, propõe um método para nos ajudar a refletir sobre o período que passamos em quarentena e quais os aprendizados levaremos dele. O primeiro passo é listar as áreas alteradas pela quarentena, como a vida familiar, o trabalho, as relações sociais, a fé e a vida da Igreja, além de compras, leitura, cultura, formação de nossos corpos e mentes, transporte e outros compromissos.

Supérfluo ou essencial?

Depois de listarmos essas áreas, ele nos convida a observar o que mudou em nossos hábitos. Por exemplo, no que diz respeito às compras, devido à interrupção das cadeias de suprimentos ou ao desejo de apoiar a economia local, talvez agora tenhamos uma preferência maior por produtos locais e sazonais. Na área da fé, podemos ter estabelecido um tempo para a oração em família ou comunhões espirituais regulares.

Depois de identificar as consequências do confinamento em cada área, “é hora de fazer uma distinção entre o supérfluo e o essencial”, diz o Pe. Turck. O que tem sido benéfico ou prejudicial? O que parece ser essencial ou supérfluo?

“É óbvio que cada pessoa terá sua própria definição do que é supérfluo e essencial, e isso é totalmente normal. A ideia não é forçar certas conclusões a partir do exercício da reflexão, mas que cada pessoa aprenda sobre si mesma através dela” explica o sacerdote.

Decisões

Uma vez estabelecidos esses elementos, é hora de tomar decisões. Ao revisar as áreas de sua vida que foram alteradas pela pandemia e as consequências disso na sua vida, pergunte a si mesmo que iniciativas você pode tomar – ou continuar mantendo – para “passar do consumo para a criação, do quantitativo para o qualitativo, da independência à interdependência.”

A pandemia “é um alerta para toda a humanidade, mas também é um tempo de graça. O Senhor, com seu silêncio, fala conosco através dos acontecimentos. O que Ele está tentando nos dizer através dessa pandemia? Vamos prestar atenção a essa voz do Espírito Santo que nos exorta a não mais viver como antes? Voltaremos ao que era antes, ou vamos explorar novos caminhos, mais justos e cheios de solidariedade?”, questiona o Pe. Turck.

Para ele, esses novos caminhos são baseados em três princípios fundamentais: tudo está conectado, tudo é um presente e, principalmente, tudo é efêmero: “O que passamos é uma oportunidade de reorientar o essencial, para colocar a pessoa humana em primeiro lugar em todas as nossas preocupações”.

Essa análise pessoal da quarentena “não pretende alimentar debates intelectuais sobre sistemas econômicos, mas deve permitir que todos entendam que temos uma responsabilidade a cumprir e um papel a desempenhar”, conclui o padre.


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