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R. D. Congo: “o país está a afundar-se cada vez mais”

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AFP

Fundação AIS - publicado em 11/06/20

A violência neste país africano tem ganho contornos dramáticos

É um relato dramático e, ao mesmo tempo, de quase desilusão. O Padre Anatole, comboniano, enviou uma mensagem para a Fundação AIS em Lisboa onde descreve o clima de insegurança que se vive na República Democrática do Congo e, simultaneamente, de descrédito nas autoridades.

Na mensagem, o sacerdote natural de Butembo, no Kivu do Norte, fala em ataques contra as populações e num “clima de insegurança”, acusando os responsáveis políticos de estarem alheados desta realidade, “ignorando o bem-estar do povo”.

A violência neste país africano tem ganho, de facto, contornos dramáticos. Na semana passada, dia 2 de Junho, foram assassinados 16 civis na província de Ituri, no leste do país, uma das regiões mais atingidas pela violência.

Dois dias depois, a 4 de Junho, a organização Médicos Sem Fronteiras alertava para o facto de a República Democrática do Congo ser já o segundo país do mundo, depois da Síria, com maior número de deslocados internos.

Esta realidade foi sublinhada também na passada sexta-feira, dia 5 de Junho, pela ONU. Desde Setembro, já se registaram pelo menos 1300 mortos e 500 mil deslocados neste país africano.

Michelle Bachelet, a Alta-Comissária das Nações Unidas para os Direitos Humanos, disse mesmo, numa declaração citada pela agência de notícias AFP, estar “chocada com o aumento dos ataques brutais contra civis inocentes realizados por grupos armados e com a reacção da polícia e das forças militares, que também cometeram violações graves, incluindo homicídio e violência sexual”.

O Padre Anatole descreve precisamente, na mensagem enviada para a AIS, uma série de ataques ocorridos nos meses de Janeiro, Fevereiro e Maio. A par de pessoas assassinadas, diz o sacerdote, há também inúmeros sequestros, casas queimadas, destruição de equipamentos sociais…

O ataque mais recente descrito pelo padre comboniano foi a 28 de Maio. “Os rebeldes do LRA (Lord’s Resistance Army – Exército de Resistência do Senhor) invadiram a aldeia de Bambilo, situada na província de Bas-Uele, no norte da República Democrática do Congo, na Diocese de Bondo, e levaram consigo não apenas os bens, mas também as pessoas”, diz o Padre Anatote, acrescentando que “parte da população está dispersa na floresta”.

Sobre o modo de actuação destes grupos, o padre comboniano sublinha que as povoações atacadas estão, normalmente, em “aldeias perdidas na floresta, onde o acesso é difícil, para não dizer impossível, porque não há estradas”. “Assim, os grupos armados, como o LRA, podem agir na tranquilidade, sem serem incomodados por ninguém, e são as populações pacíficas que sofrem.”

A República Democrática do Congo é um país muito rico em recursos minerais e é, simultaneamente, o segundo maior país de África. Mas também é um dos mais pobres do mundo.

O actual presidente da República, Félix Tshisekedi, sucedeu a 24 de Janeiro deste ano a Joseph Kabila, que esteve no poder desde 2001. O mandato de Kabila terminou em 2016 mas foi sucessivamente adiando a convocação de eleições o que acabou por desencadear uma grave crise política, com repressão violenta de manifestações da oposição. A tomada de posse do novo presidente não pacificou o país que vive, desde há anos, mergulhado em conflitos armados especialmente na zona leste e nordeste.

Na mensagem enviada para Lisboa, o Padre Anatole diz que a República Democrática do Congo “ainda não saiu do túnel do sofrimento” e que a eleição de Tshisekedi “não retirou o país do buraco: pelo contrário, está a afundar-se cada vez mais”.

Para o Padre Anatole, a RDC vive um tempo de “confusão e incerteza no cenário político”, agravado pela “violência e assassinatos que alimentam grande parte do leste do país”, uma vida social “que ainda não se desenvolve”, e uma defeituosa gestão da pandemia do COVID-19 que tem vindo a ser “feita sem comunicação clara”.

Nas palavras deste missionário percebe-se um sentimento de revolta pela ineficácia e aparente desinteresse da classe política perante o caos em que se encontra o país. “Continua a violência, as violações e os assassinatos contra a população pacífica que vive nas províncias de Ituri e Kivu do Norte, mais precisamente no território de Beni e arredores. Estas mortes ocorrem regularmente, mas não se fala sobre isso. Tudo acontece num silêncio inexplicável, diríamos num silêncio de morte. As informações na televisão são sobre outros assuntos. A vida do povo é esquecida.”

A ausência de respostas dos responsáveis políticos marca esta mensagem enviada para a Fundação AIS que é, também, um grito de alerta para uma tragédia que o mundo parece querer ignorar. “A insegurança é o dia-a-dia da população do leste da RDCongo e isto acontece há cerca de uma década”, diz o Padre Anatole. “O povo vive na insegurança. Dá a impressão que está aparte. O bem-estar do povo não é tido em consideração nos debates políticos. A Assembleia Nacional, o Senado, fala de outros assuntos, dos cargos, dos salários, dos debates políticos, mas o bem do povo Congolês está ausente. Ausente. Ausente…”

(Departamento de Informação da Fundação AIS)

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