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Ontem fez 80 anos da chegada dos primeiros 728 prisioneiros a Auschwitz

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Entre os poloneses não judeus assassinados naquele campo de concentração estava São Maximiliano Kolbe, o padre que deu a vida para salvar um pai de família

14 de junho de 1940 é uma data sombria na história da humanidade: naquele dia, o primeiro de muitos trens de prisioneiros destinados ao extermínio chegou ao campo de concentração de Auschwitz, no sul da Polônia ocupada pela Alemanha de Hitler. Desembarcaram no inferno 728 poloneses capturados pelos nazistas, 75% dos quais eram homens com menos de 30 anos. De todos eles, 325 sobreviveram, 292 foram mortos no campo e 111 tiveram destino até hoje desconhecido pelos pesquisadores que tentam reconstituir a sua história.

Aquele primeiro grupo de prisioneiros do mais famigerado campo de concentração da história dos horrores de guerra era formado principalmente por intelectuais e estudantes poloneses que já estavam previamente aprisionados numa cadeia da cidade de Tarnów. Eles não foram os únicos presos transferidos na ocasião: trinta criminosos alemães também foram trazidos do campo de concentração de Sachsenhausen; neste caso, porém, eles chegaram a Auschwitz para assumir postos de vigilância.

Auschwitz tinha sido montado como campo de concentração no início daquele mesmo ano, reaproveitando as estruturas de um antigo quartel do exército da Polônia. A localização era considerada particularmente “prática” para os seus abomináveis objetivos de extermínio, já que o campo era bem integrado à rede ferroviária e, portanto, facilitava a transferência de prisioneiros de várias partes da Europa ocupada. O próprio Heinrich Himmler, comandante da força paramilitar nazista Schutzstaffel (SS), elogiava a localização de Auschwitz.

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Prisioneiros poloneses

Entre os poloneses desembarcados no novo campo de concentração naquele 14 de junho de 1940 estava Janusz Pogonowski, um estudante de apenas 19 anos. Em 1943, ainda preso em Auschwitz, ele participou de uma tentativa de resistência que lhe rendeu a condenação à morte junto com outros 11 prisioneiros amotinados. Enquanto esperavam pela execução já com a corda ao pescoço, Janusz conseguiu chutar a base sobre a qual estava apoiado, acelerando o próprio enforcamento como gesto final de afronta aos seus carrascos. Na certidão de óbito que os nazistas enviaram à família, a causa mortis indicada foi “parada cardíaca súbita”.

Muitos poloneses aprisionados pelos nazistas em Auschwitz pertenciam a elites intelectuais que a Alemanha de Hitler queria eliminar. O historiador Jochen Böhler, especializado em Europa Oriental na Universidade de Jena, declarou em entrevista à rede alemã DW que, para o regime nazista, era imperativo que a Polônia deixasse de existir como Estado: a sua população deveria servir aos alemães como uma horda escravizada de trabalhadores braçais.

A ignorada e heroica resistência polonesa

Entretanto, a resistência polonesa conseguiu, de modo quase inacreditável, montar um Estado clandestino paralelo, que, ocultamente, mantinha em funcionamento escolas e universidades e até mesmo um exército próprio. Trata-se de um fato único na história da Europa, conforme enfatizado pelo mesmo historiador alemão. Esse Estado secreto polonês tinha entre os seus objetivos primordiais alertar o mundo sobre os crimes nazistas, mas essas denúncias mal foram ouvidas. Um de seus oficiais, Witold Pilecki, chegou a ir voluntariamente a Auschwitz como prisioneiro para produzir relatórios e repassá-los aos aliados, esperando um auxílio que, no entanto, nunca chegaria. Outro relatório impactante da resistência polonesa sobre o extermínio perpetrado pelos nazistas foi preparado por Jan Karski e diretamente endereçado ao então presidente norte-americano Franklin D. Roosevelt em 1943. “Eu queria salvar milhões e não consegui salvar uma única pessoa“, declarou Karski após a guerra. Ele acusou várias vezes as potências ocidentais de se manterem indiferentes ao Holocausto enquanto ele era perpetrado pelas forças de Hitler.

MODLITWA W AUSCHWITZ
EAST NEWS

O Estado clandestino polonês, embora importantíssimo e único na história do continente, é praticamente desconhecido fora da Polônia. O mesmo vale para os crimes cometidos pelos alemães na Polônia ocupada. Quem o afirma é ainda o historiador Jochen Böhler, que, na mesma entrevista à DW, comenta: “O problema, na minha opinião, é que o Holocausto é geralmente ensinado de modo completamente separado do contexto em que aconteceu, que foi precisamente a ocupação alemã na Polônia“.

Um dos objetivos dessa ocupação era matar judeus europeus em solo polonês a partir de 1941, mas o povo judeu não foi a única vítima. Só em julho de 1940, os nazistas mataram 50 mil poloneses como parte de uma “ação de inteligência” e prenderam outros 50 mil em campos de concentração instalados no país. Deportações, batidas policiais e assassinatos faziam parte do cotidiano da Polônia ocupada. No final de 1942, 100 mil residentes de Zamość, no sudeste polonês, entre os quais 30 mil crianças, foram expulsos e trancafiados em Auschwitz, onde muitos morreram. Só para esse campo foram deportados pelo menos 140 mil poloneses, dos quais a metade não sobreviveu.

Vítimas menos conhecidas

Havia na Polônia, antes da Segunda Guerra Mundial, 3,5 milhões de judeus: 90% deles foram assassinados no Holocausto. Porém, outros 3 milhões de poloneses que não eram judeus também foram vítimas do regime nazista. Conforme afirma Jochen Böhler, eles são “completamente ignorados” na Alemanha de hoje. Em suas aulas sobre a ocupação perpetrada por seu país na Polônia, o historiador conta que precisa “literalmente começar do zero”.

AUSCHWITZ
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De fato, há muito desconhecimento sobre as vítimas não judias tanto em Auschwitz quanto nos outros campos de concentração nazistas. O regime genocida de Adolf Hitler também perseguia e exterminava, por exemplo, ciganos e homossexuais, além de milhares de prisioneiros de guerra, sobretudo russos e poloneses.

Também foram presos, torturados e assassinados nos campos da morte dos nazistas muitos cristãos católicos, entre os quais são mais conhecidos o beato Karl Leisner e os santos Maximiliano Kolbe e Santa Teresa Benedita da Cruz (Edith Stein, judia convertida ao catolicismo e que se tornou freira carmelita).

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