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A preocupante origem do termo “Big Brother”: não, não é aquele programa de TV

BIG BROTHER
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O assustador sistema de vigilância mundial previsto na obra do escritor George Orwell está hoje se tornando uma realidade?

O escritor britânico George Orwell lançou em 1949 um dos livros de ficção mais influentes do século XX – talvez, justamente, porque, sob as vestes fictícias, ele nos alertasse para um cenário que viria a se transformar em preocupante realidade.

Estamos falando do romance distópico “1984“, que nos apresenta uma tirania de alcance monstruoso, com vigilância governamental onipresente. São monitorados todos os habitantes de um superestado submetido a um regime totalitário controlado pela elite de um partido único, o Partido Interno, que persegue a individualidade e a liberdade de expressão como “crime de pensamento”.

O líder desse partido único é chamado de Grande Irmão (“Big Brother“, em inglês). Ele seria uma espécie de “irmão mais velho”, responsável por tomar conta de todos nós como se fôssemos seus irmãos caçulas necessitados da sua presença ininterrupta para impedir que façamos qualquer coisa não autorizada por ele próprio.

O programa de TV desviou o foco do alerta original

O termo “Big Brother” acabou sendo usado pela produtora holandesa de televisão Endemol, especializada em reality shows, para nomear um dos seus formatos televisivos mais conhecidos em dezenas de países. O nome remete justamente à vigilância permanente a que são submetidos os participantes de tal reality show.

SPYING
Shutterstock | Photobank gallery

O que poderia ter sido uma interessante experiência psicológica sobre o comportamento de um grupo humano sob monitoramento contínuo se deturpou, no entanto, num programa que se limita a fomentar intrigas e a explorar o erotismo com o pouco surpreendente nível de superficialidade e vulgaridade que caracteriza grande parte das produções televisivas no mundo todo. Com a popularização desse programa, o termo “Big Brother” perdeu muito do seu sentido original e acabou se prestando a suavizar a proliferação de sistemas de vigilância em tempo real – um fenômeno que mereceria reflexões e discussões muito mais sérias.

Uma fachada para uma elite de poder

No livro de George Orwell, de fato, o “Big Brother” recebe um culto doentio à personalidade, mas talvez ele nem sequer exista como indivíduo: o “Grande Irmão” seria apenas uma fachada por trás da qual está a elite que comanda o mundo com implacável controle de tudo e de todos. O Partido Interno, chefiado por essa elite, não está minimamente interessado no bem dos outros, mas apenas e unicamente na manutenção do próprio poder – e vigiar minuciosamente a tudo e a todos é indispensável para conseguir esse objetivo.

Um “Big Brother” na vida real

Têm sido cada vez mais frequentes as comparações entre este cenário distópico e a China real da nossa época, governada com igual mão de ferro pelo Partido Comunista Chinês, personificado num “Grande Irmão” amplamente cultuado à força de onipresente propaganda: o presidente vitalício Xi Jinping.

Na China de hoje, milhares (ou milhões) de câmeras de vigilância integradas a software de reconhecimento facial já conseguem identificar em milissegundos uma vasta parcela da população, registrando detalhadamente e em tempo real a locomoção e o comportamento dos cidadãos nos espaços públicos.

China social credit
Captura de Tela / YouTube

Os dados captados pelas câmeras são cruzados com centenas de informações pessoais registradas por uma fabulosa quantidade de outras fontes, que podem ir da conta bancária às catracas eletrônicas do transporte público, do prontuário médico aos registros acadêmicos, dos controles de performance profissional aos pagamentos de quaisquer compras em quaisquer estabelecimentos, passando, obviamente, pela infinidade de dados gerados pelo uso de smartphones: histórico de geolocalização, aplicativos instalados, registro de atividades, fotos e vídeos, lista de contatos e tipo de relação com cada um deles, mensagens enviadas e recebidas, conversas telefônicas mantidas com quem quer que seja, dados pessoais, familiares e profissionais…

Junto com tudo isso, toda a atividade nas redes sociais permitidas no país é varrida em pormenores pela vigilância do regime, que monitora com zelo particular as críticas ao sistema.

Essa gama extraordinária de informações pessoais se transforma em arma de imponderável poder de controle nas mãos do Partido Comunista Chinês.

O sistema de “crédito social”

De fato, o regime de Pequim já implantou na China um sistema de “crédito social” pelo qual os deslizes de qualquer indivíduo vão sendo “descontados” do seu “saldo”, de modo que, conforme a sua “qualificação” comportamental, um cidadão pode ser punido com multas, restrições a promoções no trabalho, negações de autorização de viagens, prisão e até obscuros “desaparecimentos repentinos”.

Uma apresentação impactante deste cenário pode ser conferida no documentário “The World According To Xi Jinping” (“O mundo segundo Xi Jinping“), produzido em 2019 por Arnaud Xainte, realizado por Louise Muller e com versão em português exibida pela RTP (Rádio e Televisão de Portugal). O documentário, que dura pouco mais de 50 minutos, pode ser encontrado em vários canais do YouTube.

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