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A defesa da vida e a pandemia

GARDEN SOUP
Boontoom Sae-Kor | Shutterstock
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A opção pela vida – que bem ou mal as sociedades estão fazendo nessa pandemia – pode criar um diálogo educativo em defesa da vida

A vida é o nosso maior valor, nosso maior direito, como lembra São João Paulo II na Evangelium vitae (EV 2). Nos debates recentes sobre aborto e eutanásia, essa frase costuma ser tratada como se fosse confessional, isso é, só as pessoas com determinada fé religiosa acreditariam nisso. Mas ela expressa uma consciência inerente ao ser humano, uma percepção partilhada – de alguma forma – por todos os seres humanos. Assassinos impiedosos e genocidas não escapam dessa regra geral. O que acontece, nesses casos, é que tais pessoas desenvolvem, geralmente de forma inconsciente e irrefletida, mecanismos psicológicos que os levam a não reconhecer o valor da vida ou mesmo a humanidade das pessoas que são mortas.

Antigamente, acreditava-se que o luto, manifestação individual e social tanto da dor pela perda quanto do valor da vida que se foi, era um processo exclusivo dos seres humanos. Hoje, as pesquisas de comportamento mostram que muitos dos chamados “animais superiores”, como mamíferos e aves, já apresentam algum tipo de luto – sinal do quanto o reconhecimento do valor da vida transcende a mera convenção social ou a imposição de normas morais particulares a todos os demais.

Além das situações que envolvem graves psicopatias, existem dois grandes mecanismos que podem levar alguém a não respeitar a vida de outras pessoas. O primeiro está associado à percepção de ter sofrido grandes injustiças e/ou de ter que matar para sobreviver. Questões teológicas à parte, no “Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna, o cangaceiro Severino, o grande assassino, é perdoado por Cristo justamente porque em sua vida só havia conhecido a morte, tendo perdido a noção do valor da vida. O segundo mecanismo é considerar que o outro não é humano, não possui a mesma dignidade e o mesmo valor que eu possuo. Os genocidas acreditam que a outra etnia é uma espécie de “sub-raça”; os abortistas, que o feto ainda não é uma pessoa humana, os defensores da eutanásia supõem que o paciente grave e terminal já perdeu sua humanidade – e assim por diante.

 

A opção pela vida na pandemia

Contudo, nas grandes crises humanitárias, quando a morte se espraia no horizonte da sociedade, todos tomamos consciência do valor da vida, tanto da nossa quanto da dos demais. É sintomático que as pesquisas de opinião mostrem que existe, na atual pandemia, um apoio das maiorias a medidas de distanciamento social, como a quarentena, mesmo que isso cause sérios prejuízos às pessoas. Mais: mesmo os que discordam das regras propostas, costumam justificar alegando que não são eficientes ou que estão causando mais mortes; mas concordam que, se necessário e comprovado, é preferível que todos se sacrifiquem para poupar o maior número de vidas possível.

A economia é para o bem das pessoas – e não as pessoas para o bem da economia (cf. Compêndio da Doutrina Social da Igreja, CDSI 333-335). Esse princípio, presente desde sempre no magistério da Igreja, mesmo antes do conceito moderno de economia existir, se tornou evidente nessa pandemia do coronavírus. Essa constatação tem muito a ver com os debates em defesa da vida, mesmo que poucos se deem conta. Ainda que os discursos mais notórios justifiquem o aborto e a eutanásia alegando direito de escolha e redução do sofrimento, a defesa dessas práticas em termos de políticas governamentais se baseia frequentemente em argumentos de ordem econômica. É mais barato fazer a eutanásia de um paciente terminal do que dispensar a ele cuidados paliativos ou mesmo terapias intensivas. Uma criança pobre abortada não trará, para os sistemas públicos, o custo da gravidez e do parto da mãe, as despesas e incertezas de sua educação…

No panorama mundial – bem como no brasileiro – muitas das pessoas que mais defendem, diante da crise de saúde pública, a necessidade de colocar a vida das pessoas à frente da economia. também defendem o aborto e a eutanásia. Essa contradição não nasce, na maioria dos casos, da hipocrisia ou do cinismo. O grande problema é aquele mecanismo, anteriormente citado, de ocultar aos próprios olhos a humanidade do outro, não ver que a vida da criança por nascer, do velho ou do doente, tem o mesmo valor que a dos demais.

Por isso, é importante mostrar a humanidade de quem tem sua vida ameaçada pelo aborto ou pela eutanásia. Mas as pessoas não querem ver os problemas para os quais não têm solução. Quando mostramos a força da solidariedade, a possibilidade que abre para construir algo de belo, ter uma vida que vale a pena ser vivida, criamos as condições mais adequadas para se resgatar esse valor da vida tão ameaçado em nossa sociedade.

Assim, essa opção pela vida – que bem ou mal as sociedades estão fazendo nessa pandemia – pode criar um diálogo educativo em defesa da vida.

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