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Máscaras que desmascaram

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Shutterstock | Ruslana Iurchenko
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E quem não tem dinheiro e precisa expor-se aos contágios sem poder refugiar-se em casa?

O pe. José Alfredo Gonçalves, CS, publicou um artigo no jornal O São Paulo, da arquidiocese paulistana, em que observa um “paradoxo sinistro e simbólico”: o das máscaras de proteção contra a covid-19, que, embora mascarem os rostos, desmascaram “e escancaram” as assimetrias entre países e regiões dentro de países.

Ele se refere, basicamente, ao fato de que existe um abismo entre os meios de proteger-se da pandemia por parte de quem tem dinheiro e por parte de quem não tem e precisa expor-se aos contágios sem poder refugiar-se em casa. No Brasil, por exemplo, o padre recorda que 1% da população detém riqueza superior à soma de todos os bens dos 50% mais pobres. Enquanto a renda média do grupo privilegiado ultrapassa R$ 35 mil por mês, a média dos pobres é inferior a R$ 1 mil. Essas distorções tendem a piorar com a crise provocada pela pandemia.

O cenário atual contradiz o desenvolvimento proposto pela encíclica Populorum Progressio (PP), de 1967, um texto que dá sequência à constituição pastoral Gaudium et Spes (GS), de 1965, aprovada pelo Concílio Vaticano II. Os dois documentos alertam para o crescimento distorcido por meio da acumulação progressiva. O desenvolvimento é abordado na PP em títulos significativos como “O desenvolvimento é o novo nome da paz” (PP 87); “Desenvolvimento do homem todo e de todos os homens” (PP 42) e “Desenvolvimento integral” (PP 5), que se referem à realização do ser humano por inteiro, em alma e corpo, inclusive no justo acesso aos recursos materiais, que não podem ser apropriados por um ou por alguns em detrimento de muitos ou de quase todos.

Dado que o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) não significa automaticamente que o bem-estar social cresce na mesma proporção, é preciso colocar o bem-estar como prioritário sobre o PIB. Sem essa priorização da pessoa sobre os recursos, “os ricos se tornam cada vez mais ricos à custa dos pobres cada vez mais pobres”, como dizia São João Paulo II.

É preciso que as políticas públicas foquem na imensa multidão anônima que navega à deriva em torno ao capital de poucos, como pobres Lázaros que tentam se manter com as migalhas caídas da mesa do rico avarento.

As máscaras da pandemia desmascaram a face cruel de um desequilíbrio que já existia antes do atual coronavírus, mas que se tornou ainda mais descarado no meio desta crise que não é apenas sanitária, mas integral.

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