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Trabalho e família na pós-quarentena

Antoine Mekary | ALETEIA

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 19/07/20

As famílias não podem se pensar isoladas umas das outras. As comunidades e as redes de apoio mútuo são fundamentais nesse momento

Aos poucos, no Brasil e no mundo, as quarentenas adotadas para conter a Covid-19 vão sendo flexibilizadas ou encerradas. O processo é inevitável, sem dúvida existe um ponto no qual manter a quarentena se torna mais prejudicial do que encerrá-la. Em teoria, seria aquele ponto no qual o número de mortes decorrentes da crise econômica e do isolamento seria maior do que aquele provocado diretamente pela doença. Na prática, é impossível determinar esse ponto exato e todos trabalham com estimativas e tentativas, esperando que deem certo.

Nesse contexto, um novo problema cresce e nem sempre recebe a devida atenção. A situação das famílias nas quais pai e mãe precisam trabalhar fora e não têm com quem deixar os filhos, pois as escolas não voltarão imediatamente ao seu funcionamento habitual. Essa já era uma condição difícil para muitos que não podem se isolar durante a quarentena, porque trabalhavam em serviços ditos essenciais. Agora, porém, a situação tende a se agravar. Se os adultos precisam trabalhar fora de casa e o horário de trabalho é o mesmo para pai e mãe, com quem ficarão as crianças que não estão podendo frequentar a escola, como faziam antes da quarentena? Se a escola recebe só um terço dos alunos por vez, onde as crianças ficarão nos dias em que não vão às aulas? À medida que as crianças começam a sair de casa, tornam-se potencialmente vetores da Covid-19, mesmo que tenham mais resistência que os adultos. Poderão ficar com os avós, que são população de risco?

Além desses desafios concretos, temos também um problema cultural. O progresso contemporâneo diversificou as profissões e tornou o trabalho muito mais interessante e desafiante para grande parte da população mundial. As mulheres, em especial, vêm conquistando o espaço que lhes era devido nesse mundo laboral e aspiram por realização e reconhecimento na sociedade como um todo e não só no âmbito doméstico. Tudo isso é bom, mas a família corre o risco de passar a ser vista como um fardo inevitável que atrapalha nossa realização no trabalho, e não como a grande razão de ser do trabalho. Priorizar a família em relação ao trabalho pode parecer louvável em teoria, mas na prática o ambiente cultural e laboral em que vivemos faz exatamente o contrário: exalta e privilegia a dedicação ao trabalho e não à família.

Em busca de soluções

Nesse momento, uma ideia deve prevalecer: “a economia está a serviço do bem da pessoa e não a pessoa a serviço do bem da economia”. Não custa lembrar que esse é um dos princípios irrenunciáveis da participação dos católicos na vida política, segundo a conhecida Nota da Congregação para a Doutrina da Fé sobre esse tema (cf. Nº 4). A adesão internacional à quarentena, os esforços solidários vindos de todas as partes, inclusive dos grandes agentes econômicos, mostram que, com a pandemia, durante o primeiro semestre de 2020, essa ideia prevaleceu no mundo todo, mesmo que nem sempre bem aplicada. Resta saber se continuará a prevalecer nesse futuro imediato.

Não adianta cobrar soluções perfeitas dos governos. Todos estamos tateando tanto na quarentena quanto nisso que vem sendo chamado de “novo normal”. Infelizmente, o ser humano aprende mais por seus erros (que rapidamente se tornam evidentes) do que por seus acertos (que muitas vezes passam desapercebidos). A criatividade responsável é uma virtude fundamental nesse momento, para gestores públicos, que devem pensar normas públicas que minimizem os problemas, empresários, que devem procurar manter seus negócios sem perder de vista o bem comum e dos funcionários, e famílias, que devem se adequar à situação o melhor possível.

Algumas indicações

As soluções para o problema devem ser buscadas no contexto das situações concretas. Fórmulas gerais são pouco efetivas diante da complexidade e multiplicidade das situações. Mas, pensando nos gestores públicos, nos responsáveis pelas empresas e nas famílias. Podemos considerar algumas indicações gerais:

  1. O governo precisa ouvir a população, entender os problemas das famílias e não se fechar em regras ditadas por tecnocratas distantes da realidade. Só de um diálogo entre poder público e sociedade poderão nascer diretrizes e normas eficientes e que tenham respaldo da população.
  2. A solidariedade deve ser um princípio no interior das empresas. Aquelas que pensam no bem de seus funcionários e de suas famílias contam com trabalhadores muito mais eficientes e motivados. Os funcionários também devem procurar entender as dificuldades das empresas e procurar ajudá-las a enfrentar esse momento difícil. Certas medidas de flexibilização das leis trabalhistas estão se tornando ferramentas para explorar ainda mais os trabalhadores e devem ser condenadas, mas a compreensão mútua entre empregadores e empregados ajudará muito à superação da crise.
  3. Por fim, as famílias não podem se pensar isoladas umas das outras. As comunidades e as redes de apoio mútuo são fundamentais nesse momento. Sua ajuda pode ir desde ideias sobre como proceder até mutirões para cuidar das crianças (observando-se as regras de saúde e segurança, obviamente).

O “novo normal” é uma realidade em construção. Para cada um de nós, depende tanto da organização de toda a sociedade e da economia quanto das decisões que tomaremos com relação a nossa vida pessoal e familiar, de quais serão nossas metas e nossas prioridades, do que faremos com nosso tempo e de como usaremos nossos recursos.


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