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Carta a um amigo que partiu

Alla Vovk / Shutterstock.com

Octavio Messias - publicado em 22/07/20

Fui lembrado pelas redes sociais que há quatro anos eu perdia meu cachorro

De uns anos para cá as redes sociais, e especialmente o Facebook, têm me lembrado “o aniversário” das coisas. Ontem recebi a notificação de que uma foto que postei em um contexto bastante emotivo completou quatro anos. Era a imagem que postei no dia em que o Rousseau, não o filósofo, mas meu primeiro cachorro, morreu.

A lembrança me pegou desprevenido, pois, talvez pelo trauma que representou a perda do meu amigo, somado à minha rotina de adestrar um filhote, tenho sentido extrema dificuldade em lembrar dos momentos que passei com Rousseau, que viveu comigo entre 2000 e 2016, quase a metade da minha vida até então. E a imagem no Facebook trouxe uma enxurrada de lembranças. 

Lembrei-me com surpreendente riqueza de detalhes quando o conheci, na casa da minha primeira namorada, que me deu ele de presente. Eu tinha 18 anos; o Rousseau, três meses. Quando cheguei na casa dela, e o vi pequeninho, quase uma bola branca de pelo, balançando o rabo e demonstrando que queria descer para me receber, mas tinha medo de enfrentar os degraus. Foi amor à primeira vista. 

No dia seguinte o levei para casa no banco do passageiro do meu antigo Renault 19. Lembro da angústia que senti, conforme dirigia à noite pela Radial Leste. Não era o simples fato de gostar dele, o que, por si, desperta vulnerabilidade. Mas porque sabia que agora era responsável por outra vida. 

Dias depois, quando minha ex-namorada veio nos visitar, ele se escondeu embaixo da minha cama, como que dizendo: “Não deixa ela me levar daqui”. Então ficou claro que você Rousseau tinha me elegido como dono. 

Aqueles primeiros anos, em que eu estava na faculdade, foram nada menos do que cômicos. Ele latia, mordia tudo, brincava com qualquer coisa. Corria de um lado para o outro do apartamento e dava cavalos-de-pau no corredor. Subia na cama, subia no sofá. Me acordava com latidos, e às vezes com lambidas. Era uma fonte inesgotável de energia. 

Para tanto, tinha que comer. Como comia. Não podia vacilar com um prato em cima da mesa, um bolo recém-saído do forno sobre o balcão, um saco de pão em cima da geladeira (sim, tinha uma impulsão descomunal), Rousseau dava um jeito de pegar. Vieram a  primeira vacina, o primeiro passeio. O ensinei a usar o jornal e depois o vi você erguendo a patinha contra o poste. Senti orgulho. 

No final daquele ano, estávamos em Franca, no interior de São Paulo, para passar o Natal na casa da minha avó. Algum parente deixou o portão aberto e, quando percebi, Rousseau havia desaparecido. Saí correndo freneticamente, com o coração na boca, já esperando pelo pior. 

Quando o encontrei, quatro quadras para baixo, havia umas crianças jogando futebol na rua. E ele se enfiando no meio, tentando pegar a bola. Quando me viu, com a língua para fora, balançou o rabo e correu em minha direção como se não nos víssemos há meses. Não consegui nem ficar bravo com ele por ter fugido.

Nem todo mundo percebe isso, mas cachorros riem. O Rousseau, por exemplo, tinha um jeito de olhar para mim com a língua jogada para o canto da boca, pelo qual eu sabia que estava muito feliz. E isso era bem frequente, especialmente quando eu o levava para passear, todo dia à noite e de manhã. 

Já quando eu saía de casa, ele sempre parava diante da porta e virava a cabecinha de lado com uma cara tristonha. Quem não tem cachorro não entende, mas existem códigos muito sutis com os quais as duas espécies conseguem se comunicar. Olhares, rugidos, latidos, tons de voz. Certa vez, em um momento bem difícil, chorei na sua frente dele, que prontamente lambeu as minhas lágrimas (e pelo que lhe serei sempre grato). Também nos estranhamos, viramos a cara um para o outro, nos deixamos falando (ou latindo) sozinhos.

Existem diferentes formas de dar, receber e pedir carinho. Quando queria chamar a minha atenção, ele passava se esfregando sob a minha perna, apoiava a cabeça no meu pé, enfiava o focinho entre o meu braço ou simplesmente se aproximava abanando o rabo. Lembro de uma vez em que estávamos, novamente, no carro, e um caminhão ao lado pegou um buraco e a caçamba fez um estrondo. Em um impulso, ele se jogou no meu colo, talvez por ser onde se sentisse seguro.

Outra coisa que subestimam é o efeito que uma espécie provoca sobre a outra. Um cachorro vê o mundo com muito mais alegria. Experiencia as mesmas coisas, dia após dia, com o mesmo entusiasmo. A emoção do reencontro, um banho de Sol, o vento contra o rosto, o contato com outros cães. E isso é contagiante.

Anos mais tarde,  estávamos na Praia Grande de Farol de Santa Marta (SC). Um horizonte claro e interminável de areia e mar. E Rousseau correndo em disparada, esticando as patas lá na frente, enquanto corria de um lado para o outro, tentando acompanhar os pássaros que voavam e voltando para me encontrar. O joguei na água, ele nadou e, na volta, se chacoalhou para tirar o excesso de areia.

Conviver com um cachorro é ter contato diário com a sua própria natureza. Se identificar com o afeto comum entre todos os mamíferos, incluindo nós.  

Viajamos bastante ao longo desse tempo. Rousseau conheceu São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Paraná, Santa Catarina, Rio Grande do Sul. Me acompanhou na maioria das viagens que fiz. Ainda assim fica uma ponta de remorso por não ter o levado mais ao parque, por não ter feito mais passeios, por tê-lo criado em um apartamento, sem um espaço muito amplo. 

Antes de adotar o meu filhote atual, fiz questão de antes me mudar para uma casa. Tenho muito mais traquejo para lidar com ele e para adestrá-lo, assim como mais maturidade para demonstrar afeto. Embora eu tenha feito o melhor que eu sabia quando ele estava vivo, agora sinto pontadas de remorso por estar conseguindo ser um dono ainda melhor do que fui de Rousseau. Assim como acredito que os pais se saiam melhor no trato com o segundo do que com o primeiro filho.

Me consola o fato de eu ter feito o melhor que eu pude, dentro das minhas capacidades e limitações, e espero que ele tenha sentido isso. Pois ter cachorro dá trabalho, como dá. Assim como tudo que vale a pena na vida.

Durante aqueles 16 anos, vieram e foram empregos, namoradas, apartamentos, e ele se manteve ali, companheiro, um pilar de constância na minha vida. Eu não teria como retribuir o conforto que isso significou. O que me resta é agradecê-lo por tudo, pois valeu cada segundo. E reconhecer que ele ainda faz muita falta.

Eu não poderia ter pedido um cachorro melhor. 




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