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Como não passar o seu trauma para a sua família

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Shutterstock | Fergus Coyle

Michael Rennier - publicado em 17/08/20

Cerca de 70% das pessoas têm algum tipo de experiência traumática em suas vidas. Se não trabalhadas, essas experiências podem prejudicar o relacionamento familiar

Uma das alegrias de meu trabalho como sacerdote é ajudar os casais a se preparar para o casamento. Como parte do processo, os casais sempre acham interessante fazer um inventário de personalidade, que mostra como eles se encaixam em determinados tópicos. Os tópicos das perguntas são amplos e diversos, incluindo a atitude deles em relação a ter um cachorro, como eles vão comemorar o Natal e como eles pensam em economizar para a aposentadoria.

Acredite ou não, os casamentos podem tropeçar nessas questões. Não é necessário que o casal concorde em tudo, mas é importante que eles estejam cientes de suas diferenças, conversem sobre elas e se preparem para fazer compromissos – ou melhor, se comprometam a construir uma nova vida juntos, sem priorizar a vida pessoal. Sempre ajuda pensar no relacionamento conjugal como uma aventura, uma nova etapa da vida que é livre de expectativas pré-concebidas. São duas pessoas construindo uma única vida juntas.

Para alguns, pensar em algo tão simples como um jantar de Ação de Graças é uma viagem nostálgica pelos caminhos da memória. Para mim, isso traz à mente meu avô parado com uísque na mão, assando um peru gigante na grelha. Lembro-me de brincar com meus primos, jogos de cartas que iam até tarde da noite e minhas tias e tios me provocando gentilmente. Outras pessoas, quando se lembram do Dia de Ação de Graças lembram também das discussões em família. Algo que, na verdade, queriam esquecer.

Quando investigamos nosso passado, quase sempre há alguma quantidade de trauma que é desenterrada – cerca de 70% das pessoas têm algum tipo de experiência traumática em suas vidas. Pode ser uma experiência intensa como divórcio, morte, doença, acidente, intimidação, negligência ou abandono. Também pode ser, aparentemente, mais suave, como uma velha discussão que nunca foi resolvida, uma experiência embaraçosa do colégio, uma dúvida persistente que se desenvolveu na infância e não vai embora. Todas essas experiências, se deixadas sem exame, continuam a nos afetar. Elas nos prejudicam emocionalmente e até mesmo fisicamente de maneiras que não conseguimos entender – tudo o que sabemos é que estamos nos comportando de maneira autodestrutiva e parecemos impotentes para impedir isso.

É por isso que, quando converso com casais de noivos, é vital que examinemos essas velhas memórias e reconheçamos toda a bagagem do passado, mesmo que pareça sem importância. Frequentemente, a maneira como uma pessoa inicia um novo relacionamento é moldada pelo passado. Os problemas podem remontar à infância. Pode surgir um problema que remonta ao modo como seus pais tratavam uns aos outros, como discutiam, se alguma vez gritavam.

A questão é que vários níveis de trauma do passado são um fato da vida para todos nós. A vida não é perfeita, então todos nós temos nossos altos e baixos. Isso não significa que estejamos quebrados e incapazes de ter relacionamentos saudáveis, apenas significa que temos algum trabalho a fazer quando se trata de obter autoconhecimento e colocar nosso passado no contexto adequado. Isso é particularmente importante quando se trata do mais importante de nossos relacionamentos: o casamento (e, consequentemente, a paternidade).

Tenho boas lembranças da minha infância e admiro muito meu pai. Quando eu me tornei pai, resolvi participar da vida de meus filhos da mesma forma que os meus pais fizeram comigo: jogar bola com eles no quintal, levá-los para passear de bicicleta e ler livros com eles . Tenho a sorte de ter um bom exemplo em que me apoiar. Conheço muitas pessoas, porém, cujos pais – ou mães – eram ausentes, rudes ou exigentes demais. Pessoas com essas experiências lutam contra o medo. Têm medo de serem um fracasso em seus casamentos e como pais, assim como seus pais foram. Têm medo de se comprometerem com o relacionamento, medo de que termine mal, que resulte em mágoa.

Sempre que passo pelo processo de preparação para o casamento com um casal e um deles tem antecedentes de divórcio, tenho o cuidado especial de conversar com eles sobre as condições que levaram à separação. Frequentemente, há questões relacionadas a essa experiência que continuam a se manifestar em falta de confiança, vulnerabilidade e muitas dúvidas.Para evitar que o passado envenene o novo relacionamento, o antigo deve ser examinado aberta e honestamente, porque nunca estaremos livres de nosso passado até que o compreendamos verdadeiramente e comecemos a tomar medidas para curar.

O Dr. Javier Fiz Perez escreveu um artigo aqui na Aleteia não faz muito tempo que traz excelentes conselhos sobre como se recuperar de traumas anteriores (leia-o abaixo). Seus primeiros passos incluem aceitar o passado e conversar sobre ele com alguém que o apóia. Este é essencialmente o meu papel na preparação do casamento.

Ele também recomenda ajuda profissional, o que certamente é justificado em alguns casos. Em última análise, o objetivo é a mudança de comportamento e a eliminação da influência contínua do trauma.

O que é mais importante é a simples disposição de reconhecer um trauma do passado, porque uma vez que o identificamos especificamente como trauma, como algo errado, de repente essa experiência é colocada em seu devido lugar como uma aberração. Não deveria ter acontecido. O mundo inteiro não é totalmente escuro. Todos os casamentos não estão condenados ao fracasso. Todos os pais não falham com seus filhos. Podemos fazer melhor. Faremos melhor.


WOMAN

Leia também:
O que é um trauma e como superá-lo?

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