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A creche no céu e o mistério humano

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Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 23/08/20

Anunciar a beleza do amor, de onde pode nascer a esperança para superar as dificuldades da vida, é um dever maior para os que conhecem a Cristo

Infelizmente, o estupro e o aborto de uma criança se tornaram tema dominante no Brasil na última semana, rivalizando com o futebol, com as mazelas da política e com o coronavírus.

Independentemente das boas e más intenções dos envolvidos, deve-se ter claro que essa exposição, por si só, já é um pecado contra a dignidade da pessoa humana e uma afronta aos princípios da convivência social (vide o Estatuto da Criança e do Adolescente, que é um marco da sociedade civil e não tem nada de confessional).

Situações assim deveriam ser tratadas com a máxima discrição e o necessário debate público deveria ser conduzido o mais afastado possível das vítimas envolvidas. Mas o mundo é como é, temos que torná-lo melhor tal como é, não tal como gostaríamos que fosse.

Duas mensagens católicas

No mar de reações ao caso, recebi duas mensagens particularmente interessantes. A primeira é de um experiente professor de Biologia, a segunda de uma jovem mãe.

“No ano passado, uma aluna pediu-me ‘remédio’ para interromper sua gravidez – conta o professor. Chamei a atenção para o valor da maternidade e, na semana seguinte, perguntei como ia a gravidez. Ela disse que alguém tinha lhe dado o tal ‘remédio’. Pensei como Deus tem uma creche imensa no céu, pois ‘se meu pai e minha mãe me abandonarem, o Senhor me acolherá’ (cf. Salmo 27 [26], 10). Com essa memória, retomei a esperança. Não estamos sozinhos! Temos que orar e trabalhar”.

“Vejo minha filha brincando e penso na menina de 10 anos – escreve a mãe. Meu coração dói. Quanto sofrimento, quanta dor. Impossível não lembrar da nossa última ecografia na gravidez, quando nosso bebê já pulava no útero… Uma criança de 10 anos, mãe tão jovem… Um bebê morto, uma menina, já era possível saber. Duas vítimas de um estupro. De uma foi retirada a inocência, de outra foi roubada a vida. Que Nossa Senhora acolha esse bebê no céu. Que esse bebê, junto a ela, interceda por sua mãe, para que ela encontre paz após tantos sofrimentos, dores e traumas”.

São duas mensagens tipicamente católicas, onde transborda a fé, a misericórdia e, em decorrência, a esperança. Justamente POR SEREM tão católicas (e não APESAR DE SEREM tão católicas, como quereria uma certa mentalidade laicista, que prospera até dentro da Igreja) podem revelar uma luz de amor e esperança numa realidade que parece só conter desolação e necessidade de esquecimento.

A natureza e os valores

Não é preciso ser cristão para denunciar as violações aos direitos e à dignidade da pessoa humana. A defesa da vida é natural ao ser humano. Nenhuma confissão religiosa precisa nos ensinar a proteger nossos filhos. Mesmo em guerras, o assassinato de crianças é considerado “crime contra a humanidade”. O cultivo das virtudes morais tampouco é exclusividade dos cristãos. É defendido pela maioria das religiões e pelas filosofias agnósticas. Existem muitas variações no que se considera certo e errado, é preciso reconhecer. Mas o assassinato, o roubo, a traição, o desprezo pelo pobre são exemplos de erros racionalmente condenados por quase todos (ainda que a prática geralmente não corresponda à teoria). 

Apesar desses relativos consensos, em momentos de grande dor e desespero, a natureza humana trai a si mesma, os critérios – por mais racionais e evidentes que sejam – se tornam confusos e a pessoa muitas vezes não faz o que é melhor para ela mesma. Quando a situação chega a esse ponto, discursos e análises perdem sua força de convencimento. É preciso que um “raio” de amor, ilumine a escuridão, encha as almas de esperança, para que a natureza volte a florescer e a evidência do bem retorne a seu devido lugar. Por isso, a Gaudium et spes (GS 22) sublinha que a vocação e o mistério do ser humano só são revelados em Cristo.

A revelação do ser humano a si mesmo não é apenas um conhecimento novo sobre quem somos nós. Esse conhecimento também acontece, mas essa revelação, em grande parte, refere-se a dados que já intuímos naturalmente. Mas a experiência de sentir-se amado nos dá a confiança e a esperança necessárias para olharmos tanto para as luzes quanto para as sombras de nossa condição humana, reconhecermos os sacrifícios necessários, aceitarmos a verdade mesmo quando ela nos incomoda.

A cultura da morte e o anúncio da esperança

Denunciar a desgraça e anunciar a graça são deveres de todo cristão. Frequentemente a ênfase na denúncia do erro e a falta de espaço para o anúncio da graça envenena o coração dos cristãos, disseminando a raiva e querendo mostrar como os outros são seres aparentemente desprezíveis e indignos de nosso amor e de nossa consideração  – ainda que Cristo tenha se sacrificado também por eles. Mas, pelo contrário, a denúncia do erro deveria ser apenas um passo introdutório para o anúncio do amor e da graça.

Interrogado sobre a questão do aborto, Bento XVI deixa esclarece bem essa questão: “Parece-me que na base destas legislações haja por um lado um certo egoísmo e por outro uma dúvida sobre o futuro. E a Igreja responde sobretudo a estas dúvidas: a vida é bela, não é algo duvidoso, mas é um dom e também em condições difíceis a vida permanece sempre um dom. Portanto voltar a criar esta consciência da beleza do dom da vida. E depois, outra coisa, a dúvida do futuro: naturalmente há tantas ameaças no mundo, mas a fé dá-nos a certeza de que Deus é sempre mais forte e permanece presente na história e, portanto, podemos, com confiança, também dar a vida a novos seres humanos”.

A cultura da morte não se torna hegemônica porque os seres humanos se tornaram maus. Gente boa e gente má existe em todas as sociedades, em todos os tempos.  A morte se torna cultura quando o ser humano perde a esperança de que o amor possa fazer a vida florescer apesar das dificuldades e dos sofrimentos. Essa é a verdadeira vitória do mal.

Essas não são ideias abstratas. Muita gente trabalha, com dedicação, nessa perspectiva de acolher as gestantes que sofrem e dar a elas a chance de redescobrir a beleza da vida e a esperança – tanto para elas quanto para seus filhos. Você pode ler sobre algumas dessas experiências na própria Aleteia. Veja, por exemplo: Acolhida: resposta certa para perguntas difíceis e O que a Igreja Católica faz para ajudar mães estupradas e seus bebês?.

Anunciar a beleza do amor, de onde pode nascer a esperança para superar as dificuldades da vida, é um dever maior para os que conhecem a Cristo. Toda vez que, na boca dos bons, a denúncia da desgraça fala mais alto que o anúncio da graça, o diabo ri para si mesmo, pois sabe que ganhou uma batalha…

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