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Esquecido herói brasileiro: morre o Comandante Murilo

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Reprodução Facebook

Aleteia Brasil - publicado em 28/08/20

Ele salvou a vida de 104 pessoas a bordo do voo VASP 375: o sequestrador queria lançar o avião contra o Palácio do Planalto em 1988

Faleceu nesta quarta-feira, 26 de agosto, o Comandante Fernando Murilo de Lima e Silva, de 76 anos. Ele foi o herói que, no dia 29 de setembro de 1988, salvou a vida de 104 pessoas, entre passageiros e tripulantes, a bordo do voo VASP 375, que cobria a rota de Porto Velho ao Rio de Janeiro com escalas em Cuiabá, Brasília, Goiânia e Belo Horizonte.

O sequestro

Na etapa final, quando o avião já voava de Belo Horizonte para a capital fluminense, o passageiro Raimundo Nonato Alves da Conceição sacou um revólver que, devido aos deficientes controles de segurança existentes na época, havia conseguido levar consigo para dentro da aeronave. Ele ameaçou tripulação e passageiros, acessou a cabine dos pilotos, matou o co-piloto Salvador Evangelista com um tiro na nuca, baleou dois tripulantes e mandou o Comandante Murilo desviar o avião para Brasília.

Raimundo Nonato, de 28 anos, declarou explicitamente o motivo do sequestro: ele queria lançar o avião contra o Palácio do Planalto, na capital federal, para assassinar o então Presidente da República, José Sarney. O sequestrador tinha perdido o emprego como tratorista devido a uma das dramáticas crises que sacudiram o país na década de 1980 e pretendia “vingar-se” matando o presidente de modo espetacular.

As ações do comandante

Ao ver o desequilíbrio do terrorista, o Comandante Murilo tentou negociar com ele para dissuadi-lo da ideia absurda. Diante da atitude irracional do sequestrador, o comandante chegou a executar uma arriscada manobra com o Boeing 737 denominada de tonneau: trata-se de fazer o avião girar no ar sobre o próprio eixo, deixando-o de cabeça para baixo. O objetivo do piloto era desequilibrar o sequestrador para dominá-lo, o que quase funcionou. Raimundo, porém, conseguiu manter a arma e se recompor rapidamente, dando continuidade ao pesadelo.

Um caça Mirage da Força Aérea Brasileira passou a acompanhar o avião, num episódio que, a essa altura, já estava sendo seguido ao vivo pela televisão, numa época pré-internet.

Próximo do Distrito Federal, o comandante precisou realizar outra manobra de risco: uma descida rápida em parafuso, de 9.000 pés para uma altitude adequada ao pouso em Goiânia, dado que o avião já estava quase sem combustível. A falta de combustível, aliás, foi o argumento principal com que o piloto convenceu o sequestrador a trocar de aeronave.

O dramático final

Com o Boeing em solo no aeroporto de Goiânia, o terrorista ainda mantinha o comandante como refém e exigia um avião menor para prosseguir com o plano suicida de assassinar José Sarney, muito embora, obviamente, o presidente já estivesse em segurança a essa altura dos acontecimentos.

A Polícia Federal (PF) já tinha cercado o aeroporto da capital goiana. Quando o terrorista tentava acessar um avião Bandeirante, o Comandante Murilo conseguiu se soltar e correr, mas foi baleado na perna. Nesse momento, um agente da PF alvejou Raimundo Nonato no quadril. O sequestrador foi levado a um hospital, onde morreu três dias depois por causas que até hoje são matéria de especulação.

Um herói pouco reconhecido

O Comandante Murilo foi condecorado com a Ordem do Mérito Aeronáutico, mas, conforme ele mesmo testemunhou, José Sarney nunca reconheceu o seu gesto heroico:

“Ele nunca me dirigiu a palavra. Nunca me agradeceu. Mas não tenho mágoa. Estou tranquilo com minha consciência e sei que fiz meu papel”.

Estas palavras do comandante foram registradas em vasta reportagem do jornal O Estado de Minas por ocasião dos 30 anos do episódio, em 2018.

Em 2001, passados 13 anos desde o sequestro, o comandante recebeu o troféu Destaque Aeronauta do Sindicato Nacional dos Aeronautas por ter evitado aquela que poderia ter sido a maior tragédia da história da aviação no Brasil.

O Comandante Murilo atuou como piloto até os 60 anos. Ele faleceu em Armação dos Búzios, RJ, onde morava, e deixa esposa e dois filhos.

Que este profissional brasileiro, herói de um drama real que pareceria um filme de Hollywood, possa descansar em paz.




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