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Os desafios da cultura atual para a verdadeira oração

PRAYER

Jeffrey Bruno

Francisco Borba Ribeiro Neto - publicado em 30/08/20

É importante procurar estudar e viver a oração litúrgica seguindo as indicações da Igreja

O jornal “O São Paulo” publicou recentemente um artigo sobre a meditação cristã e a necessidade de cultivo da própria espiritualidade, que se tornou mais evidente nesse tempo de pandemia. O texto retoma o documento Carta aos Bispos da Igreja Católica acerca de alguns aspectos da Meditação Cristã, da Congregação para a Doutrina da Fé. Mas, por que é tão difícil para os homens e mulheres do nosso tempo, inclusive católicos praticantes, viver uma vida de oração e de encontro com Deus que realmente mude suas vidas?

A montanha atrás da floresta

No livro O senso religioso (Jundiai: Paco Editorial, 2017), Dom Luigi Giussani diz que, na vida cristã, estar cada vez mais perto de Deus é como escalar uma alta montanha. Sua altura não mudou com o tempo, mas no passado era como se as pessoas vivessem numa cidade aos pés da montanha, bastava escalá-la. Hoje, pelo contrário, é como se a montanha estivesse no meio de uma densa floresta, nos obrigando a fazer uma longa e difícil travessia pela mata para começar a escalada. 

Um olhar superficial nos diria que os problemas são decorrência do ritmo de vida frenético de nossos tempos, da pressão por produtividade no trabalho, das ideologias ateias, etc. Todas essas coisas nos atrapalham, efetivamente. Porém, aceitar que elas determinam nossa possibilidade de encontra-Lo e cultivar nossa intimidade com Ele equivale a dizer que Deus não é o Senhor do tempo e da história, que o mundo, com suas artimanhas, prevaleceu sobre a graça e conseguiu condicionar o vinculo entre o Criador e suas criaturas.

O único limite que Deus estabeleceu para si mesmo, no seu anseio de encontrar-nos, é nossa própria liberdade (cf. Catecismo da Igreja Católica, CIC 1742). Portanto, ainda que as condições objetivas possam dificultar nossas práticas religiosas, as causas que nos impedem de encontrar a Deus devem ser procuradas – antes de tudo – em nosso próprio coração. A floresta à qual se referia Dom Giussani não é apenas externa, ela está no interior de cada um de nós, na mentalidade que adquirimos – queiramos ou não – por estarmos imersos na cultura atual.

Romano Guardini é um dos mais destacados teólogos do século XX. Inspirou um capítulo-chave da Laudato si’, do Papa Francisco (o terceiro, “A raiz humana da crise ecológica”).Em seu livro O espírito da liturgia (São Paulo: Cultor de Livros, 2018), escrito há mais de um século, já mostrava as ameaças que a mentalidade contemporânea cria para a vida de oração, e indicava – de forma propositiva – um caminho para enfrentar esses desafios. 

Os obstáculos que estão em nosso coração

Por trás das dificuldades modernas para nos pormos numa justa posição de oração e meditação, que nos aproxime de Deus, estão nosso subjetivismo e nosso individualismo. Nossa sensibilidade, nossas ideias e interesses, o que conseguimos ou não fazer são a medida de toda a realidade. Nossa “conversa” com Deus frequentemente se torna um grande monólogo, onde falamos sem parar de nós mesmos e esperamos, como resposta, a realização de nossos pedidos – nos esquecendo que não sabemos o que pedir, nem como pedir (cf. Ro 8, 26). A oração que só pede a resolução dos nossos problemas e a meditação que só reafirma as nossas certezas humanas não são um verdadeiro diálogo, ainda que se refiram a Cristo e ao Pai, enquanto a oração cristã é o diálogo objetivo com um Outro. Implica em “ouvir” a Sua voz e não só a nossa.

A cultura moderna, com a intenção de por o ser humano no centro do universo, colocou o nosso ego no centro do mundo. Por exemplo, em casamentos mal sucedidos, frequentemente cada cônjuge considera que o outro tem obrigação de fazer coisas por ele, mas pouco pensa nas coisas que ele deve fazer pelo outro. Os grupos políticos reivindicam seus direitos, mas muitas vezes se esquecem dos direitos dos demais, ou exigem vantagens para se solidarizar com os outros.  Não se trata de uma “maldade”, mas sim de uma mentalidade em que estamos mergulhados. Sua marca é sempre ser nossa subjetividade, nossos sentimentos e impressões, que determinam nossa relação com o mundo, e não a realidade objetiva, tal qual ela se apresenta.

O subjetivismo anda de mãos dados com o individualismo. Num mundo determinado por nossa sensibilidade, fazemos as coisas como queremos, visando nossos interesses. Rezamos quando e como queremos. A busca pelo exotismo das religiões orientais está muito associada a esse individualismo. Como se trata de práticas vindas de outras culturas, podemos escolhê-las e usá-las como quisermos, selecionando o que queremos e eliminando o que nos parece muito exigente. A oração cristã, por sua vez, estando incorporada a nossa tradição cultural, não se presta a esse tipo de manipulação, temos que praticá-la tão como se apresenta.

Oração e liturgia

 O caminho para superar essa situação, segundo Guardini, é a integração entre a nossa oração pessoal, necessariamente subjetiva e individual, com a vida litúrgica da Igreja, que é simultaneamente objetiva e coletiva. Não só a Santa Missa – que é o gesto litúrgico por excelência – mas também os demais sacramentos e a Liturgia das Horas, rezada com os Salmos e que pode ser considerada como uma “oração oficial da Igreja”, juntamente com outras ocasiões de escuta ativa e atenta da Palavra de Deus. Bento XVI desenvolve esse tema em duas catequeses, de 26 de setembro e 3 de outubro de 2012.

Nesse amplo conjunto, aprendemos a “ouvir” Deus que nos fala, a perceber como Ele age realmente não só na história do Povo de Deus, mas também em nossa história pessoal. É verdade que algumas vezes usamos a liturgia como mais uma manifestação de nossa subjetividade. Por exemplo, vivemos a missa como um “teatrinho” que nos emociona, ou queremos ser “mais católicos que o Papa” escolhendo quais fórmulas e ritos consideraremos válidos e quais consideraremos inadequados. Por isso, é importante procurar estudar e viver a oração litúrgica seguindo as indicações da Igreja.

Esse é o melhor modo de os desvios da mentalidade de nosso tempo e aprendermos a viver com uma fé verdadeira.

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