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Ana Paula Arósio e o poder de um “não” à Rede Globo

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Atriz brasileira impressionou o público por sua influência quase dez anos após romper com uma das TVs mais poderosas do mundo

Um dos assuntos de maior repercussão nas redes sociais entre os brasileiros nestes dias recentes foi a inesperada participação da atriz Ana Paula Arósio em um comercial de televisão, após cerca de dez anos de ausência da mídia. A artista, que era considerada uma das grandes estrelas da Rede Globo, encerrou seu contrato com a emissora no início de 2011 e praticamente sumiu da TV sem dar maiores explicações, o que a transformou numa espécie de mito – levando-se em conta que, ao deixar a carreira, ela estava no auge, escalada para protagonizar a telenovela do horário de maior audiência do canal.

Ana Paula Arósio surpreendeu os fãs na semana passada ressurgindo na propaganda de uma instituição bancária, veiculada na TV aberta em horário nobre. Ela riu do próprio sumiço, fez referência a outra famosa propaganda que havia gravado anos atrás e, com isso, gerou uma onda de comentários na internet, a maioria deles elogiosos.

Ao longo dos últimos anos, a atriz brasileira continuou sendo uma espécie de “objeto de desejo” da televisão e da propaganda, com muitos convites recusados a retornar aos holofotes. Ela optou por manter-se distante da mídia, com breves trabalhos no cinema, vivendo discretamente com sua família numa região rural do Reino Unido e não dando sequer entrevistas sobre o que a motivou a renunciar à fama, ao contrato fixo com um dos maiores conglomerados de televisão do planeta e a todo o glamour envolvido nesse meio – que seduz milhões de pessoas a trilharem o caminho oposto e a sacrificarem muitas vezes a própria dignidade em nome de uma ilusão de estrelato.

O próprio fato de se resguardar valorizou o nome e a imagem de Ana Paula Arósio de maneira incomum no mundo da arte e do entretenimento. Alguns sites de notícias estimaram que, se tivesse continuado na Rede Globo ao longo dos últimos dez anos, ela teria recebido basicamente o mesmo valor agora embolsado como cachê pela única propaganda que acaba de fazer. Outras matérias veiculadas nesta semana estimaram que esse cachê foi superior ao que cobram outras personalidades brasileiras de renome mundial na atualidade, como a top model Gisele Bündchen e o jogador de futebol Neymar, ambos com carreiras internacionais.

No caso da atriz, há outras variáveis relevantes na equação: por razões econômicas, a Rede Globo vem reduzindo fortemente o seu elenco fixo e passando a contratar os atores apenas por trabalho específico. Esta mudança tem atingido inclusive artistas consagrados, o que, portanto, significa que Ana Paula Arósio também poderia ter deixado de receber um salário fixo mensal para ser remunerada somente quando estivesse no ar em alguma novela. Ao mesmo tempo, manter-se no ar de modo muito frequente pode causar desgaste da imagem: quando o público mal tem tempo de “sentir saudades” de um artista, tende a reduzir-se pouco a pouco a sua “aura” especial. Ana Paula Arósio, enquanto isso, nem sequer chegou a entrar numa fase de saturação.

Outro lado

Por outro lado, diversas reportagens, publicadas entre o final de julho e os dias recentes, indicaram que a atriz também rompeu relações com a mãe há vários anos e, nesta vinda ao Brasil, não a visitou. Segundo tais matérias, a mãe, dona Claudete, de 74 anos, vive em um condomínio para pessoas da terceira idade e, em declarações ao programa de TV Balanço Geral, afirmou que o assunto a machuca. Essas mesmas matérias, no entanto, não apresentaram a versão da atriz.

O poder do “não”

Independentemente dos motivos de Ana Paula Arósio para escolher afastar-se radicalmente, um lado da sua história tem gerado comentários e reflexões relevantes nas redes sociais: o poder do “não”.

Toda escolha significa, automaticamente, uma renúncia: quando escolhemos algo, deixamos outro algo de lado. Mais relevante do que aquilo que ficou de lado, portanto, é aquilo que foi escolhido. Estamos renunciando a quê para escolher o quê?

Existe uma hierarquia objetiva de valores, na qual o “ter” é muito importante, mas nunca tanto quanto o “ser“. O “ter” é meio; o “ser” é finalidade. Assim, é objetivamente mais sábio dar ao “ter” o seu real papel de servir ao “ser”, e nunca o contrário. É frequente que muitas pessoas, talvez a maioria, sacrifiquem família, casamento, amigos, saúde física, saúde emocional, tempo, descanso, convicções, fé, valores transcendentes, para focar em dinheiro, status, aplausos e lucros materiais num nível que não apenas não é necessário para uma vida sustentável como ainda é francamente danoso para a realização pessoal. É o triste e comum sacrifício do “ser” em prol da ilusão de um “ter” desproporcional à real necessidade. Quando se diz “não” ao que é desnecessário ou meramente secundário, tende-se a ganhar muito no essencial. Quando se diz “não” ao que é essencial, porém, os ganhos secundários não conseguem suprir as lacunas do nosso “ser”.

O simbolismo de um “não” à Rede Globo, no caso de um artista brasileiro no auge, é muito poderoso no imaginário de tantos de nossos compatriotas que ainda cultivam devaneios de vanglória. Em nome de minutos de uma fama ilusória, é sempre impactante a quantidade de pessoas dispostas a vender barato aquilo que não tem preço. Basta ver a que se sujeitam milhares de candidatos à fama na TV, na música, na moda, no esporte e nas redes sociais.

A repercussão dessa história nesta semana, ainda que ela seja conhecida apenas parcialmente, é uma deixa para refletirmos sobre escolhas e renúncias – o que vale a pena e o que não vale – e sobre o que estamos submetendo ao nosso poder do não – e com quais resultados, diretos e indiretos, para o “ter” e para o “ser”.

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