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Por que há Padres que se suicidam?

PRIEST
Paul Ratje | AFP
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Querido Povo de Deus, como é fácil escandalizarmo-nos diante das mínimas falhas dos nossos Padres, vos peço de coração sincero: amem mais os vossos Padres

Neste mês em que no Brasil se celebra o Setembro Amarelo, em prevenção ao suicídio, eis que nos deparamos com a notícia de dois sacerdotes franceses que tiraram a própria vida. Triste realidade que nos circunda e que pode acontecer a qualquer instante em realidades onde menos esperamos.

Em meu percurso de Mestrado, escrevi sobre o tema: «Sacerdócio: do encanto ao suicídio». Este tema nasceu diante da inquietude gerada em mim ao saber da notícia dos 17 sacerdotes que entre os anos de 2017 e 2018 tiraram suas próprias vidas no Brasil.

Aquele que segue a Jesus de modo pleno, sem reservas, nunca se arrepende. Aquele que foi chamado ao sacerdócio (de modo geral acontece assim) no dia da ordenação não consegue se conter de alegria. É o cumprimento de uma etapa de sua vocação. Agora se sente pronto para viver a pastoral, para doar-se na realidade vivencial da paróquia, junto ao povo que a ele será confiado, desenvolvendo o Ministério a ele confiado por Cristo. 

Jesus é sempre fiel, mas, infelizmente, nos caminhos humanos tantas vezes são inúmeras as tentações e, basta por um instante não haver os olhos fixos nele, que tudo pode começar a perder o verdadeiro sentido da chamada e resposta vocacional.

Aquele que aceitou seguir a chamada vocacional e se encantou por este Jesus pode, nos anos de formação, experimentar de modo contínuo o sonho do ideal: a espiritualidade ideal, a paróquia ideal, os fiéis ideais, o clero ideal, e, ao deparar-se com a realidade que oscila entre o espiritual e as realidades vivenciais quotidianas, entra em choque diante daquilo que sonhou e aquilo que a realidade é.

Tantas vezes, ao longo do seu ministério, aquele jovem que aceitou seguir Jesus com tanto entusiasmo e encantamento, vai se frustrando com a impossibilidade de realizar os projetos que sonhou. Além disso, ainda há a possibilidade de se frustrar com as escolhas pastorais da diocese, com a falta de fraternidade de seu clero e até mesmo uma possível falta de paternidade por parte de seu Bispo ou Superior. Aqui entra a grande dualidade e a dificuldade de compreender que a singularidade do ser humano perpassa pelo fato de compreender o grande paradoxo do ser carnal e ao mesmo tempo espiritual.

Ao se dar conta desta dicotomia, a lista dos problemas encontrados pode ser incomensurável: o sacerdote é inundado pelo cansaço físico e psicológico contínuo, além de poder começar a desenvolver uma frieza no confronto do ministério que anteriormente exercia com tanto zelo.

Na entrevista feita a Dom Marc Stenger (Bispo de Troyes), ele diz que ao saber da notícia do suicídio dos padres franceses se perguntou:  «O que eu não fiz? Será que ouvimos o seu grito?’ (…) O que me leva à pergunta seguinte: não estamos tão preocupados com os problemas de administração da Igreja que já não estamos prestar atenção suficiente às pessoas?”.

Diante das perguntas geradas por ele gostaria de refletir três pontos com vocês: primeiro mais diretamente voltado aos senhores Bispos, o segundo aos Sacerdotes e o terceiro ao Povo de Deus:

Caros e amados Bispos, antes de mais nada devemos recordar que quem se suicida não deseja matar a si mesmo, deseja apenas matar a dor que o sufoca, porém, diante da impossibilidade de matar esta dor, não encontrando outra alternativa, ele tira a sua própria vida, resolvendo definitivamente aquilo que seria um problema passageiro. Mas antes de fazer isto ele com certeza pediu ajuda! Deu indícios, e é muito provável senhor Bispo, que quem se encontrava ao seu redor não soube entender os sinais e estes padres encontraram no suicídio o único modo para se libertar daquilo que os matava aos poucos interiormente. 

Portanto faz-se necessário recordar uma coisa fundamental que infelizmente ao longo dos meus estudos pude detectar como lamento de muitos Sacerdotes: Os sacerdotes não conseguem se sentir filhos, na grande maioria das vezes são tratados como empregados do Sagrado. E aqui creio que respondemos a segunda pergunta do senhor bispo. Tantas vezes a administração tem importado mais que a vida das pessoas!

No dia da ordenação Sacerdotal são belíssimas as palavras com que a Igreja nos convida a dirigirmo-nos ao Bispo para a eleição do candidato: «Reverendíssimo Pai, a Santa Mãe Igreja pede que ordenes para a função de Presbítero este nosso irmão». Vejam, caríssimos, a Igreja exorta a chamar-vos de Pai, não de administradores ou algo do tipo. Por isto a primeira coisa que os sacerdotes esperam de seus Bispos é a Paternidade!

Quantas vezes nos últimos tempo o senhor ligou para os padres da sua Diocese e perguntou-lhes como ele estavam, de maneira despretensiosa? Creio que não existe algo mais belo para um Padre que receber a ligação ou a visita de um Bispo e antes de o escutar perguntar como estão as finanças da paróquia, ouvi-lo perguntar com sinceridade e não de maneira pró forme: Meu filho como você está? Tens rezado? Como vai a saúde? Tens se alimentado bem? Como vai o povo de Deus a ti confiado? E a pastoral? E só então depois chegar as finanças…

Triste, mas real. Esta é a verdadeira situação de grande parte do Clero, que precisa, não apenas ser pastor de almas, mas pastor de negócios. Que se vê obrigado a produzir números. Caríssimos, os vossos sacerdotes não deixaram suas casas para serem administradores, mas para serem Pastores de almas. No número 1592 do catecismo diz: « Os ministros ordenados exercem o seu serviço junto do povo de Deus pelo ensino (munus docendi), pelo culto divino (munus liturgicum) e pelo governo pastoral (munus regendi). Sendo assim administrar finanças é algo a mais que eles fazem, não desejem que esteja em primeiro lugar na dimensão da vida de um Sacerdote.

Caros irmãos Sacerdotes, é muito fácil colocar a culpa nos superiores e retirar a nossa ou fazer de conta que não temos nenhuma uma parcela de culpa. Justamente neste ano em que a campanha da fraternidade nos trazia como lema “Viu, sentiu compaixão e cuidou dele” (Lc 10, 33-34) nós somos chamados a nos perguntarmos: Quem é o meu próximo?

Com certeza muitos se perguntam como é possível analisar os casos do suicídio sacerdotal, uma vez que os padres deveriam ter uma consciência maior do ato suicida, das consequências que geram o fato de tirar a própria a vida. Deste pressuposto surgem inúmeros comentários e juízos. 

No entanto somos todos convidados a recordar que ninguém há o direito de condenar o fato de alguém que tenha cometido suicídio, até mesmo porque aquele que o cometeu poderia acreditar que tenha feito a coisa correta, acreditando que seu ato era justo; talvez porque estivesse passando por uma situação de extrema angústia moral que somente Deus pode conhecer e compreender o que se passava no coração daquele que o cometeu.

Em nossas realidades sacerdotais precisamos estar mais atentos a nós mesmos e aos nossos irmãos. Também a nós foi dada a missão de cuidar do próximo. E quem é o meu próximo? Perguntou certa vez um doutor da lei para colocar Jesus à prova (Cf Lc 10, 29-37). Hoje também nós somos chamados à retomar às páginas do Evangelho e nos questionarmos, “quem é o meu próximo?”

Somos chamados a viver a cada dia em nosso ministério a dinâmica do Bom Samaritano. Vivê-la com o nosso povo, mas em modo especial vive-la com nossos irmãos de ministério.

Quantos irmãos abandonados, que não encontram apoio e estão fadados à solidão de seu ministério. Tantas vezes rodeados de pessoas, mas tão sós em seu mundo de anseios e angústias sacerdotais.

Somos mais que nunca convocados a nos tornamos humanos, a reconhecer nossas necessidades reais e acolher as necessidades dos nossos irmãos. Precisamos sair de nossos mundos vazios e caminhar com o Outro que é tão diferente, compreendendo que apesar de tudo, é ele que é o meu próximo que Jesus tanto fala nos Evangelhos.

Em um mundo tão vazio, com imensa perda de significado, com relações tão efêmeras, como posso dar significado à minha vida? Parece simples, mas verdadeiramente sabemos que não é. Faz-se necessário viver a dimensão da união sacerdotal, vivermos e lutarmos por ideais em comum. 

Até quando precisaremos chorar a perda de irmãos que tiraram a própria vida? Que sentido há em esperar que o próximo se mate para que voltemos outra vez a chorar e nos lamentar enquanto em um cortejo belíssimo e doloroso levamos seu caixão ao cemitério, nutridos de perguntas, de imensos porquês que talvez jamais serão respondidos.

É chegada a hora de rever as nossas vidas e nos perguntarmos: Qual o sentido da minha vida? Onde e como posso reencontrar o sentido de viver? Como ajudar o meu próximo que perdeu o sentido de viver? 

Querido Povo de Deus, como é fácil escandalizarmo-nos diante das mínimas falhas dos nossos Padres, vos peço de coração sincero: amem mais os vossos Padres, rezem por eles e ao invés de julgá-los procure entendê-los.

Os sacerdotes não são anjos, não são seres apenas espirituais. Eles necessitam experimentar o afeto, a acolhida e o companheirismo. Nem de mais nem de menos, tudo na justa medida. Não será necessário nada além de uma acolhida verdadeiramente humana.

Irmãos, que todos nós possamos despertar o quanto antes e enxergar com os olhos do coração, com os olhos da fé, do amor gratuito e da misericórdia aqueles que estão ao nosso redor. Sejamos sensíveis ao grito silencioso daqueles que tantas vezes se encontram ao nosso lado, mas que a nossa insensibilidade não nos permite perceber. Faz-se necessário ajudarmo-nos, antes que seja tarde demais.

É de suma importância que nos tornemos mais humanos, que saiamos mais de nós mesmos e encontremos o sentido de nossas vidas nos humanizando cada vez mais à exemplo do verdadeiro humano por excelência, Jesus Cristo, que chorou ao saber da morte de seu amigo Lázaro e o ressuscitou (Cf. Jo 11,35).

Nós não temos o poder de ressuscitar a ninguém que tenha morrido fisicamente, mas sem sombra de dúvidas temos o poder de com a nossa amizade e amor sincero, ressuscitar tantos corações que ainda vivem fisicamente, porém que já morreram porque perderam o sentido de viver, que vivem como se já não mais existissem. 

Que possamos chorar com os que choram e alegrarmo-nos com os que se alegram (cf. Rm 12,15). Que nossas vidas possam ser agradáveis perfumes que conseguem, junto com os nossos irmãos mais necessitados, reencontrar o sentido das suas vidas. É ajudando o outro a encontrar o sentido da sua vida que encontraremos o real sentido das nossas. 

 

  

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