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A "grande mídia" se faz hipocritamente de sonsa diante da cristofobia no mundo

Mohammed ABED / AFP ©

Reportagem local - publicado em 25/09/20

Colunista brasileiro chegou a escrever, nesta semana, que a cristofobia é inventada: seria apenas um "intimidador projeto de supremacia cristã"

Embora até governos estejam se vendo obrigados a reconhecer que os níveis de perseguição contra os cristãos no planeta chegaram a patamares de genocídio, ainda é preciso conviver com negacionistas ideologicamente enviesados que não apenas negam os fatos, mas, baseando-se em narrativas puramente retóricas e sem apresentarem dados e números, ainda proferem insultos como o de que a cristofobia seria apenas “um projeto político que visa a consolidar a soberania de uma religiosidade antidemocrática“.

Nesta semana, o colunista Ronilso Pacheco publicou as seguintes afirmações no portal UOL a respeito da cristofobia:

“Trata-se de uma narrativa criada em torno de uma mentira, que tem sido cada vez mais imposta como verdade. No fundo, estamos lidando com um assustador e intimidador projeto de supremacia cristã. Este discurso da perseguição religiosa é o escudo de um projeto político que visa a consolidar a soberania de uma religiosidade antidemocrática. O discurso da ‘cristofobia’ nasce como ressentimento, deboche e negação do conceito de ‘homofobia’. Portanto, ‘cristofobia’ não é conceito, foi uma palavra inventada por conservadores e fundamentalistas cristãos para rechaçar a realidade de perseguição, violência e preconceito vivenciados por muitas pessoas da comunidade LGBTQI+. ‘Cristofobia’ é palavra-xingamento, é ignorância e insensibilidade dos que querem continuar se escondendo atrás da religião para hostilizar minorias sociais, impedir o reconhecimento de direitos e seguir vivendo em um mundo em que ataques, preconceito e ofensas sejam postos na conta da ‘liberdade religiosa’ cristã”.

É um nível chocante de distorção de uma realidade mundial cada vez mais inegável, mas que, majoritariamente, a “grande mídia” insiste em minimizar e até em mentir que não existe.

Perseguição anticristã aumentou na pandemia

Em agosto de 2020, um levantamento da Release International mostrou que a perseguição religiosa aumentou em todo o mundo durante a atual pandemia do novo coronavírus. Uma das piores situações está na China, onde, segundo a mesma entidade, o governo tem usado a pandemia como pretexto para intensificar a sua repressão aos cristãos. A Release International é uma organização cristã ecumênica fundada em 1968 pelo pastor protestante Richard Wurmbrand, que ficou preso por causa da sua fé durante 14 anos na Romênia comunista. A organização se dedica a ajudar cristãos de quaisquer denominações afetados por perseguições religiosas em 25 países.

No tocante à China, especificamente, o portal Bitter Winter, que monitora a perseguição religiosa sob o regime comunista de Pequim, tem publicado centenas de denúncias com dados concretos de lugares, datas e nomes. Só em 2020, por exemplo, Aleteia repercutiu denúncias como a de que o governo da China continuou destruindo igrejas e cruzes durante o confinamento forçado, ofereceu dinheiro a quem denunciasse igrejas cristãs e ordenou que as igrejas preguem o comunismo durante os sermões. As pressões e perseguições pioraram nos últimos meses na China, cujo regime intensificou no ano passado a demolição de igrejas “rebeldes”, ou seja, que não se enquadrem nas normas estritas e abusivas impostas pelo Partido Comunista. Pequim chegou a implantar a Associação Católica Patriótica Chinesa, entidade estatal que nada tem a ver com a genuína Igreja Católica, mas à qual os católicos chineses deveriam filiar-se obrigatoriamente para fins de absoluto controle por parte do governo. Os que se recusam são sistematicamente perseguidos como clandestinos. Além da perseguição direta, Pequim também tem sido acusada de hackear instituições da Igreja como a diocese de Hong Kong, na qual sacerdotes católicos têm apoiado manifestações pró-democracia.

80% das vítimas de perseguição religiosa no mundo são cristãs

Ainda em agosto de 2020, realizou-se a 6ª edição do Dia de Oração pelos Cristãos Perseguidos, promovida pela Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN, pela sigla internacional em inglês). Para a ocasião, confirmou-se que, embora a mídia pouco fale do assunto, os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido em todo o planeta: 80% das pessoas que sofrem perseguições por causa da fé, atualmente, são cristãs. Há hoje 327 milhões de cristãos vivendo em países onde ocorre perseguição religiosa e 178 milhões em países onde são discriminados por motivos religiosos. De cada 5 cristãos no mundo, um vive em países onde ocorre perseguição ou discriminação religiosa.

1 em cada 8 cristãos sofre perseguição

Em janeiro de 2020, a organização norte-americana Open Doors (Portas Abertas), que monitora a situação dos cristãos perseguidos no mundo, apresentou o seu relatório anual baseado no período de 1º de novembro de 2018 a 31 de outubro de 2019, analisando cerca de 100 países. O levantamento aponta que 1 em cada 8 cristãos sofre perseguição por causa da fé, o que equivale a 260 milhões de pessoas. Na comparação com o período anterior, aumentou em 15 milhões o total de cristãos que sofrem discriminação em níveis “alto”, “muito alto” e “extremo”, segundo a organização.

2019, um dos anos mais sangrentos da História para os cristãos

Também em janeiro de 2020, Thomas Heine-Geldern, presidente da Fundação Pontifícia Ajuda à Igreja que Sofre (ACN), foi enfático ao avaliar 2019 como um ano de calvário para os cristãos: “Um ano de mártires. Um dos anos mais sangrentos da história para os cristãos“.

Governo britânico: perseguição a cristãos atinge níveis próximos do genocídio

Em 3 de maio de 2019, a rede BBC reconheceu que “a perseguição aos cristãos atinge níveis próximos do genocídio”, em referência a um amplo estudo de caráter urgente encomendado pelo secretário de Assuntos Exteriores do Reino Unido, Jeremy Hunt. O estudo corroborou que 80% do total de vítimas de perseguição religiosa no mundo são cristãos e que, portanto, os cristãos continuam sendo o grupo religioso mais perseguido do planeta. O estudo apontou também que os níveis de perseguição em certas regiões do mundo são tão extremos que atendem aos parâmetros da ONU para serem considerados genocídio. Ainda em 2019, autoridades internacionais consideraram que o genocídio de cristãos e judeus já havia atingido “um patamar alarmante”.

Até jogadores de futebol se engajam na denúncia: “perseguição inacreditável”

Em junho de 2019, o jogador de futebol Olivier Giroud, da seleção francesa e do clube inglês Chelsea, capitaneou um evento em defesa dos cristãos que sofrem perseguições em dezenas de países de todos os continentes em pleno século XXI. Giroud declarou: “Os números da perseguição anticristã são inacreditáveis e nós temos que falar sobre eles. É preciso que exista essa consciência“. A iniciativa de Giroud contou com a adesão de vários outros jogadores, entre os quais o brasileiro Lucas Moura.

250 cristãos assassinados por mês por causa da fé

Em janeiro de 2019, a Release International já previa que a perseguição contra os cristãos aumentaria em todo o mundo ao longo daquele ano, com base em dados do governo britânico. O secretário Jeremy Hunt, de Assuntos Exteriores, já havia destacado na época que o país precisava “fazer mais” para ajudar os cristãos perseguidos mundo afora. No estudo solicitado por Hunt sobre o crescimento da perseguição, destacaram-se números como os 250 assassinatos de cristãos por mês em decorrência direta da sua fé.

Diversos organismos, inclusive laicos, comprovam o fato da perseguição anticristã

Em novembro de 2018, foi apresentado em Roma, pela ACN, mais um relatório que demonstrava, com números e fatos documentados, que a perseguição religiosa continuava dramática, sendo os cristãos os mais discriminados e oprimidos em todo o planeta, em diferentes contextos. Informações com a mesma conclusão já vinham sendo divulgadas por organismos laicos como a USCIRF (Comissão dos Estados Unidos para a Liberdade Religiosa Internacional) e a International Society for Human Rights, ONG de Frankfurt, Alemanha, bem como por entidades ligadas ao protestantismo como a associação norte-americana Open Doors e o Center for the Study of Global Christianity, do Gordon Conwell Theological Seminary, instituição evangélica do Estado norte-americano de Massachusetts. Os dados apontavam que 300 milhões de cristãos sofriam discriminação e perseguição no mundo; 61% dos cristãos viviam em países onde a liberdade religiosa não é respeitada; 1 em cada 7 cristãos vivia num país onde a perseguição é uma realidade cotidiana.

Piora sobre piora

Em novembro de 2017, o relatório da ACN baseado no período agosto 2015 – julho 2017 ressaltava que os cristãos continuavam sendo as principais vítimas do fundamentalismo, do nacionalismo religioso e dos regimes totalitários, destacando que o relatório anterior (2013-2015) já tinha registrado piora na situação e que o novo documento apontava um crescimento maior ainda da violência contra os cristãos no mundo. Em 2016, o instituto de pesquisas Pew Research, dos Estados Unidos, que é independente e laico, também havia apontado que os cristãos eram perseguidos em pelo menos 144 países.

Casos aberrantes de perseguição

Um dos casos mais emblemáticos da década foi o da mãe de família católica paquistanesa Asia Bibi, condenada à morte sob acusações falsificadas de blasfêmia contra o islã. Após intensa mobilização internacional, ela teve a pena de enforcamento suspensa depois de quase dez anos de angústia no corredor da morte. O fato não tem nada de isolado no país, com centenas de registros de condenações do mesmo tipo. O Paquistão tem uma legislação “antiblasfêmia” que facilita as arbitrariedades, perpetradas principalmente contra os cristãos, sem necessidade de provas contundentes contra os acusados: na maioria dos casos, basta o “testemunho” inverificável do acusador para que a vítima seja condenada à prisão ou à pena capital. Um dos casos mais recentes é deste mês de setembro de 2020: o cristão paquistanês Asif Pervaizde, de 37 anos, foi condenado à morte por um tribunal de Lahore pelo mesmo suposto crime de blasfêmia contra o islã.

Grupos fundamentalistas continuam exterminando cristãos à vontade

Em pleno 2020, o Estado Islâmico, quase ao silêncio da grande mídia, continua atacando lugares cristãos, embora com menos intensidade do que durante o seu auge no Iraque e na Síria. O alvo mais recente é Moçambique, o primeiro país de língua portuguesa atacado consistentemente pelo bando jihadista. Também na África, o Níger e a Nigéria continuam tendo regiões literalmente dizimadas por ataques anticristãos perpetrados sistematicamente por grupos terroristas islâmicos, como o Boko Haram. Sobre a gravíssima situação dos cristãos em partes da Nigéria, aliás, o arcebispo de Kaduna, dom Matthew Man-oso Ndagoso, declarou ao portal LifeSiteNews em 26 de abril de 2019: “Estão matando cristãos como frangos”. Nada mudou desde essa declaração.

Discriminações “democráticas” em países “livres”

Além da perseguição cruenta, do tipo que tortura e mata, existem também as discriminações e perseguições ideológicas e culturais em forma de censura e mesmo de escárnio disfarçado de “arte” ou até de “humor”. Não é preciso de grande esforço para encontrar em sites de busca uma notável quantidade de “exposições artísticas” recentes nas quais imagens sacras centrais à fé cristã foram alvo de ridicularização escancarada. No Natal de 2019, o grupo de humoristas de esquerda Porta dos Fundos produziu um filme inteiramente baseado em escárnio à fé cristã – e que, apesar dos muitos protestos, inclusive de juristas, foi considerado mera “liberdade de expressão” pelo presidente do Supremo Tribunal Federal, Dias Toffoli. Neste mês de setembro de 2020, porém, um representante da própria Netflix admitiu, perante um tribunal da Espanha, que aquele “especial de Natal” é de fato ofensivo aos cristãos e que a plataforma não tem nenhuma produção que ataque no mesmo nível qualquer outra religião.

Ódio velado sob discursos pró-minorias

O jornalista espanhol Luis Antequera, que estuda a cristofobia no mundo, observa que as formas dessa perseguição variam de região para região, mas são diferentes expressões do mesmo fenômeno: o ódio anticristão. Segundo o livro “Cristofobia: a perseguição a cristãos no século XXI“, esse ódio pode aparecer de modo velado sob discursos de “defesa das liberdades”, “direitos de minorias” ou “liberdade de expressão” para fomentar uma crescente marginalização e mesmo exclusão de pessoas e perspectivas cristãs da sociedade.

Violência e vandalismo anticristão crescentes no mundo

Atos de vandalismo contra igrejas e símbolos cristãos explodiram nos últimos anos, inclusive sob a desculpa de protestos e manifestações “pacíficos” em favor de minorias. Em junho de 2020, o ativista da extrema-esquerda norte-americana Shaun King pontificou via redes sociais que as estátuas de Jesus Cristo com biotipo europeu devem ser depredadas porque seriam uma forma da “supremacia branca”. A destruição de estátuas de Cristo, Nossa Senhora e santos diversos é apenas um exemplo, mas também são crescentes os números de incêndios criminosos contra igrejas e catedrais e até mesmo o de sequestros, ataques físicos e assassinatos contra sacerdotes, religiosos e freiras. Basta fazer uma busca na internet pelo assunto para encontrar relatos, muitos deles chocantes pelo grau de violência infligida às vítimas simplesmente por conta da sua fé cristã.

Restrições arbitrárias contra cristãos em países desenvolvidos

As crescentes imposições arbitrárias à Igreja em países desenvolvidos levaram o cardeal dom Gérald Cyprien Lacroix, de Québec, no Canadá, a denunciar em agosto de 2020 que as igrejas na região estão sofrendo mais restrições do que os cassinos e até a maconha. De fato, o Canadá é um dos países em que a ideologia laicista do governo de esquerda tem imposto mais limitações enviesadas à liberdade religiosa, principalmente de cristãos, inclusive com legislação proibindo símbolos religiosos. Bispos canadenses denunciaram graus de perseguição que vão desde a pena de morte em diversos países até uma infinidade de matizes de discriminação cotidiana em nações supostamente democráticas.

Na França das narrativas de “igualdade, liberdade e fraternidade” (que se aplicam seletivamente), dois deputados denunciaram que os cristãos sofrem média superior a 3 ataques por dia. Eles foram tachados de “exagerados”, mas uma pesquisa laica demonstrou que a realidade é ainda pior que a denúncia. Os dados que provam que os ataques diários anticristãos na França são superiores à média denunciada pelos deputados foram publicados pelo jornal laico Le Figaro e replicados pelo site Christianophibie.fr, que monitora os atos de perseguição anticristã na França e no mundo.

Apesar dos fatos, a cristofobia é tratada como “narrativa mentirosa”

Como se nada disso bastasse, ainda é preciso ler, sobre o fato real, comprovado e chocante da cristofobia, aberrações como as que foram publicadas nesta semana afirmando que a cristofobia é só “uma narrativa criada em torno de uma mentira imposta como verdade” e que o que se denuncia como cristofobia seria somente “um assustador e intimidador projeto de supremacia cristã“.

Assustador, intimidador e profundamente indignante é negar a realidade a ponto de transformar milhões de vítimas cristãs em supostos executores ou cúmplices de um “projeto de supremacia” que não se sustenta diante de fatos e números consolidados por estudos internacionais que revelam um panorama de nada menos que genocídio.




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