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Assassinatos na catedral de Nice acirram tensão: extremismo x limites à liberdade

Catedral Notre-Dame de Nice

CC

Francisco Vêneto - publicado em 29/10/20

Ataque terrorista em catedral de Nice matou três pessoas nesta manhã, uma delas decapitada: país vive polêmicas em torno à liberdade de expressão

Assassinatos na catedral de Nice acirram nesta manhã a já alta tensão na França não só por conta do risco de novos atentados terroristas islâmicos, mas, principalmente, por causa da exasperada discussão em torno à liberdade de expressão e aos seus limites.

  • Como equilibrar o direito pessoal à livre expressão e o direito dos outros de não serem ofendidos nas suas crenças e opiniões?
  • Qual é a melhor forma de garantir que o respeito às crenças dos outros não se transforme em justificativa para a censura ou para a ditadura do “politicamente correto”?
  • Como evitar, por fim, que a exigência de respeito por parte dos ofendidos alimente extremismos incapazes de aceitar questionamentos?

Assassinatos na catedral de Nice

Christian Estrosi, prefeito de Nice, classificou como terrorismo o ataque perpetrado nesta manhã em plena catedral da cidade, no sul francês. Ele afirmou que o assassino gritou “Allahu Akbar” (“Deus é grande”, em árabe). Estrosi declarou, ademais, que a França precisa “eliminar o islamo-fascismo”.

O covarde ataque desta manhã na catedral de Notre-Dame de Nice matou três pessoas e deixou vários feridos. Uma das vítimas chegou a ser decapitada. O criminoso, que portava uma faca, foi detido pela polícia. O atentado aconteceu por volta das 9h do horário local, ou 4h da manhã pelo horário de Brasília.

Das três vítimas, duas morreram dentro da basílica. Um dos mortos trabalhava como segurança do templo. O prefeito de Nice chegou a mencioná-lo e a comentar que ele era muito querido pelos paroquianos.

Ainda não há comprovação das motivações deste assassino em particular, mas, dado o atual contexto de tensões na França, foram espontâneas as conexões estabelecidas pela mídia e pelo público entre o ato terrorista e as discussões sobre liberdade de expressão e seus limites.

Extremismo versus limites à liberdade de expressão

De fato, a França continua em máximo estado de alerta desde a decapitação do professor Samuel Paty, duas semanas atrás, nos arredores de Paris. Ele havia mostrado aos alunos uma charge de Maomé durante uma aula sobre liberdade de expressão, o que enfureceu extremistas islâmicos porque o islã proíbe esse tipo de representação.

A charge em questão, aliás, era da controversa revista satírica Charlie Hebdo, cuja redação foi o alvo de um atentado terrorista de grande repercussão internacional em 2015.

Como a liberdade de expressão é um dos mais caros valores franceses, o assassinato de Samuel Paty levou milhares de cidadãos do país a saírem às ruas de Paris para homenagear o professor. Paty, aliás, recebeu a maior honraria do governo francês, a “Legion d’Honneur”.

No funeral, o presidente Emmanuel Macron declarou que a França “não renunciará às caricaturas” porque continuará defendendo a liberdade de expressão e a laicidade do Estado.

Escalada de tensões

Tais declarações, por sua vez, acirraram os ânimos no mundo islâmico.

Uma das consequências mais notáveis foi a escalada de tensões entre a França e a Turquia, com trocas de acusações entre os presidentes dos dois países. O turco Recep Tayipp Erdogan declarou que Macron “precisa de um exame de saúde mental”. A França retaliou convocando o seu embaixador em Ancara.

As polêmicas, mais uma vez, giram em torno do árduo equilíbrio entre liberdade de expressão e seus limites, num lado da balança, e, no outro, as exigências de respeito e suas injustificáveis manifestações extremistas.

Bem-aventurados os pacificadores

Dom Moulins-Baufort, arcebispo de Reims e presidente da Conferência Episcopal Francesa, declarou via Twitter que está rezando “especialmente pelos fiéis de Nice e por dom Marceau, seu bispo”. Ele pediu que, “neste momento de provação”, os católicos se apoiem mutuamente e ajudem quem sofreu as consequências do ataque “na própria carne”. O arcebispo recordou também que, neste domingo, celebraremos o dia de Todos os Santos:

“Escutaremos do Senhor: bem-aventurados os pacificadores, porque eles serão chamados filhos de Deus. Bem-aventurados os perseguidos por minha causa, porque a sua recompensa será grande no céu”.




Leia também:
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Tags:
IdeologialiberdadeMuçulmanosReligiãoTerrorismo
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